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“O Brasil vive a pandemia e o pandemônio”, diz deputado Alexandre Padilha

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Uma crise após a outra. É assim que o Brasil ingressa na segunda onda da pandemia do novo coronavírus e na segunda semana de janeiro de 2021. Já contabiliza mas de 211 mil mortos por Covid-19, tem várias unidades da Federação em colapso total na saúde e, de forma truncada, dá início a uma vacinação sem nem sequer saber se terá capacidade para assegurar o imunizante para toda a população. O próprio Ministério da Saúde disse, nesta terça-feira (19), que só tem vacina para apenas 4% da população prioritária.

 

A má gestão da saúde e a forma, aparentemente, atabalhoada de lidar com a administração pública parece fazer parte de um projeto de governo. A agenda econômica passa longe dos reais interesses do País. Apesar da crise, a Emenda Constitucional 95/2016, emenda do Teto de Gastos, que congelou por 20 anos os investimentos nos setores primordiais do Estado brasileiro, não foi revogada. A gestão econômica tem levado o Brasil ao maior caos sanitário de sua história, com centenas de milhares de mortes evitáveis.

 

Há quem diga que a tragédia da Covid-19, no Brasil, só nos primeiros meses, tem sido muito pior do que todo o período da gripe espanhola, ocorrida no início do século XX. Falta até oxigênio nos hospitais e de todo tipo de insumo tem marcado a segunda onda da pandemia. A falta de oxigênio é o maior exemplo da má gestão econômica. O Brasil não precisava deixar tanta gente morrer asfixiada por falta desse insumo se Jair Bolsonaro, na sua política privatista e de desindustrialização, não tivesse fechado a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Petrobrás (Fafen), no Paraná , há 1 ano. A Fafen-PR poderia produzir 30 mil metros cúbicos de oxigênio por hora. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) afirma que “isso daria para encher 30 mil cilindros hospitalar pequenos, com capacidade média de 20 inalações de 10 minutos”.

 

O País também poderia estar à frente na produção de vacinas. Mas há 57 nações na frente. Especialistas dizem que esse é o resultado do intenso desinvestimento financeiro público nos institutos de pesquisa científica, no Sistema Público de Saúde (SUS) e outros em outros setores básicos da vida do País. Isso o jogou no fim da fila, entre os que correm o risco de ficar sem imunizante. A crise é tão séria, que a vacinação, iniciada no domingo (17), em São Paulo, está ameaçada de ser interrompida por falta de matéria-prima para sua fabricação.

 

A vacina da Oxford/AstraZeneca, por exemplo, também aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no domingo (17), não vai chegar no País em fevereiro, conforme prometido pela Fiocruz. Sem insumos para produzir o imunizante, a instituição adiou para março o início da entrega. A Índia, por sua vez, excluiu o Brasil do primeiro lote de países que irão receber a Oxford/AstraZeneca. Com os conflitos diplomáticos criados com a China, Jair Bolsonaro conseguiu dificultar o acesso do Brasil aos insumos para fabricação de vacinas produzidos e distribuídos ao mundo pelo país asiático.

 

Em entrevista exclusiva para o Jornal Brasil Popular, o médico, professor universitário e deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP) analisa a situação e fala do colapso da Saúde. Ele diz que o número de vacinas é muito aquém do necessário. “O Brasil precisa vacinar 80 milhões de pessoas do grupo prioritário nos próximos 3 meses antes de começar o inverno. E, após vacinar esse grupo de 80 milhões, para isso precisa de 160 milhões de doses (são duas doses da vacina), tem de começar a vacinação de toda a população”, afirma. Padilha, que foi ministro da Coordenação Política do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ministro da Saúde da ex-presidenta Dilma Rousseff, também foi secretário de Saúde na gestão Fernando Haddad na Prefeitura Municipal de São Paulo. Confira.

 


Jornal Brasil Popular (JBP) –
A OMS dedicou 12 minutos de uma coletiva, realizada na sexta-feira (15), à situação da pandemia do novo coronavírus no Brasil. Destacou para o mundo o colapso sanitário do Amazonas e de Manaus. Revelou que Roraima e Rondônia também estão vivendo uma catástrofe por causa da Covid-19. Afirmou que a pandemia explodiu na Região Norte. Criticou as ações dos governos locais e federal e citou o País como exemplo daquilo que os outros países não devem fazer. Alertou para a falsa sensação de segurança, dentre outras irresponsabilidades relacionadas à pandemia que estão ocorrendo no Brasil. Por que Manaus entrou em colapso na saúde e análise o senhor faz dessa situação?

 

Dep. Alexandre Padilha – O colapso da saúde em Manaus estava pré-anunciado com a omissão, o negacionismo, a inoperância e as chacotas feitas pelo presidente Jair Bolsonaro e seu governo. Mais uma vez, nós, da oposição ao governo na Câmara dos Deputados, recorremos à Justiça para obrigar o governo federal a fazer aquilo que ele não faz por omissão ou por desprezo à vida.

Na ação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), impusemos que o governo federal abasteça Manaus com oxigênio imediatamente – incluindo aí com a facilitação da importação dos insumos advindos da Venezuela pela White Martins. Nela, também pleiteamos a reabertura do Hospital de Campanha Municipal Gilberto Novaes, fechado precipitadamente. Exigimos a decretação de lockdown, bem como repasse extra de auxílio emergencial para o Amazonas, chamada de médicos do Mais Médicos para Manaus e vacinação imediata para o povo manauara.

 

Na tarde da sexta-feira (15), o ministro Ricardo Lewandowski, responsável pela análise da ação no Supremo, atendeu a uma parte dessa petição e publicou a obrigação de que o governo federal proporcionar todas as medidas para remediar a crise sanitária de Manaus e determinou a apresentação, em 48h, de um plano de ações com estratégias para solucionar a situação.

 

JBP – SP ultrapassou o número de 1,6 milhão de casos. Mais de 15 mil nas últimas 24h. Há uma tendência de alta. Oito dias seguidos de alta nas mortes. O grupo 0 a 15 anos respondia, em janeiro de 2020, por 1,5% e 20-29, 11,7%. Isso aumentou. Em janeiro de 2021 esses números aumentaram profundamente. O RJ também está vivendo esse aumento. Os jovens estão levando a Covid-19 para casa e matando seus pais e avós. O que o Ministério da Saúde deveria fazer? Qual a política de saúde que o Brasil deveria adotar na pandemia do novo coronavírus? Quais os erros?

 

Dep. Alexandre Padilha –  Sempre digo que o Brasil vive a pandemia e o pandemônio. É muito grave o que estamos vivendo. Bolsonaro mostra todos os dias a maneira criminosa e genocida que conduz a maior tragédia humana já registrada em nosso país, e isso vem desde o começo da pandemia ao não seguir as recomendações feitas pelas autoridades sanitárias no combate e prevenção ao coronavírus. Bolsonaro é negacionista e não tem seriedade na condução da pandemia, militarizou o Ministério da Saúde e desmoralizou governos estaduais.

 

JBP – O aluguel precipitado do avião da Azul pelo Estado para buscar a AstraZeneca na Índia chegou a seu destino. Parado no aeroporto de Recife, ficou 2 dias aguardando uma decisão buscar 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca/Universidade de Oxford. Acabou que a Índia excluiu o Brasil do primeiro lote e o avião ficou mesmo em solo brasileiro. O que o sr. diz dessa situação? Quantos milhões de doses o Brasil precisa?

 

Dep. Alexandre Padilha – A incompetência, irresponsabilidade e falta de compromisso do governo Bolsonaro em garantir vacinação para todos é tamanha que ele anunciou a compra de vacina da Índia, mas esqueceu de combinar com os indianos, um absurdo que mostra o descaso deste governo na condução da pandemia.

 

A somatória de profissionais de saúde, idosos, população indígena, comunidades quilombolas, população em situação de privação de liberdade, pessoas com deficiência, pessoas com doenças crônicas pulmonares e cardíacas, profissionais de educação, segurança e manutenção dos serviços essenciais das cidades, são em torno de 80 milhões de brasileiros. O Brasil precisa vacinar esses 80 milhões nos próximos 3 meses antes de começar o inverno.

 

E, após vacinar esse grupo de 80 milhões, para isso precisa de 160 milhões de doses (são duas doses da vacina) tem que começar a vacinação de toda a população. É possível, após vacinar esse grupo prioritário, abrir a vacinação para o conjunto da população para que essa população se vacine ao longo do inverno, primavera, para não termos impacto maior no número de casos. As vacinas não poderão ser usadas em crianças e gestantes, o que exclui mais ou menos 40 milhões de brasileiros, então estamos falando de um plano para vacinar 170 milhões de brasileiros, é possível fazer isso pelo SUS.

 

Defendo que não se libere vacina em clínica privada antes de concluir a vacinação dos 80 milhões de brasileiros que fazem parte dos grupos prioritários. Independente de liberar clínica privada, o SUS precisa garantir vacinação para toda população que queria se vacinar. Em nenhum momento Bolsonaro utilizou da força dos BRICS para exercício da cooperação em tudo. Desde aquisição de insumos, compra de seringas, parcerias para o desenvolvimento de vacinas, cooperação de desenvolvimento tecnológico, porque Bolsonaro na sua política externa só fica lambendo botas de Trump, dos EUA, e da ultradireita de Israel.

 

JBP – Por que não fazer um acordo extraordinário com Rússia e China no âmbito dos BRICS, que também tem Índia como membro?


Dep. Alexandre Padilha –
Essa cooperação com os BRICS poderia ser fundamental na utilização do banco dos BRICS para a criação, inclusive, de um fundo garantidor para que as empresas que precisam importar produtos e insumos da Índia e da China, no momento mais crítico do início da pandemia pudesse ter sido feito.

 

Bolsonaro, em nenhum momento, apostou nos BRICS, pelo contrário, tentou apostar em uma relação bilateral com o governo de ultradireita da Índia fazendo esforço para começar vacinar antes da vacina do Instituto Butantan em parceria com a China. Bolsonaro perdeu essa corrida, mas quem mais perde com isso é o povo brasileiro que não tem acesso a essas vacinas que já poderiam estar aqui.


JBP –
 O Brasil não tem vacina, não sabe que vacina vai receber, não tem data para iniciar a vacinação, não tem projeto para vacinar a população. Por que o Brasil não consegue mais ser o Brasil de antes, um Estado capaz de vacinar toda a população em pouco tempo. Hoje, um país derrocado, sem vacina. O que o governo Bolsonaro fez para destruir essa logística que o Brasil sempre teve expertise? Quando a vacina estiver disponível, será que o SUS será capaz de fazer uma vacinação em massa?


Dep. Alexandre Padilha –
Nosso Programa Nacional de Imunização (PNI) é completamente capaz de vacinar a população contra a Covid-19. Já demostrou isso muitas vezes e temos o reconhecimento internacional da eficácia brasileira da cobertura vacinal. Vou dar um exemplo, na pandemia de H1N1, o Brasil com a vacina produzida também pelo Instituto Butantan vacinou, em 3 meses, 80 milhões de brasileiros. Fomos um dos países do mundo que mais vacinou contra H1N1.

 

JBP – O que o senhor acha dessa especulação financeira com a vacina? Ou seja, as notícias são as de que o País está comprando pouca vacina para a demanda populacional. Há, paralelamente, um jogo, no noticiário, dizendo que o governo federal pode abrir espaço para a iniciativa privada comprar a vacina e vendê-la durante este caos. O que o senhor diz sobre essa especulação financeira e privatização da vacina? Qual o papel do Presidente da República nisso?

 

Dep. Alexandre Padilha – Sou contra a autorização de venda de vacina na iniciativa privada enquanto o plano nacional de vacinação contra covid não garantir a vacinação dos grupos prioritários. Depois de concluída a vacinação dos grupos prioritários, de garantir que aqueles que mais precisam sejam vacinados pelo SUS, se alguém quiser ir comprar a vacina aos preços abusivos que as empresas privadas cobram para uma vacina, isso depende de cada um. Mas isso só pode acontecer depois que todo o grupo de risco tenha vacina garantida pelo SUS, é um direito do povo brasileiro.

 

JBP –  Negacionismo. Fracassos. O Brasil está pedindo vacina para a Índia, oxigênio para a Venezuela. Está assistindo todos os países iniciarem a vacinação. E a gente no caos. O SUS vacinou mais de 100 milhões de brasileiros em 2010, no surto do H1N1. Foi eficiente. Não teve alarde nem genocídio. O Brasil tinha, desde o general Ernesto Geisel, quando se criou o Plano Epidemiológico Nacional, uma expertise respeitada mundialmente. Isso já era patente antes do governo Lula. Brasil já fez acordos com Cuba para vacinar milhões contra a febre amarela na África. Foi o convênio da Fiocruz com o Instituto Finlay. Isso deixou uma estrutura útil na Fiocruz, usada, agora, na produção da vacina. O que aconteceu com tudo isso? Por que estamos tão perdidos e atrás do mundo inteiro?

 

Dep. Alexandre Padilha – Porque Bolsonaro não quer que a população brasileira seja vacinada contra covid-19. Veja, desde o início de seu mandato, Bolsonaro desmonta a ciência e a saúde pública de nosso país. Está previsto um corte de R$ 35 BI no orçamento para a saúde em 2021. Nós dos partidos de oposição estamos lutando fortemente para que esse absurdo não aconteça. Nosso país tem a tradição e garante um dos maiores planos de vacinação do mundo, estamos na rabeira na campanha de vacinação graças a guerra criada por Bolsonaro.

 

Bolsonaro não investiu no nosso programa de vacinação, nunca fez campanha alguma de vacinação, desmontou o programa Mais Médicos.  Bolsonaro não quer garantir vacinas para a população e um indício disso foi ele ter vetado, no fim de 2020, uma emenda apresentada por mim no Congresso Nacional que estabelecia a obrigação de uma meta vacinal para toda população apta a receber em 2021.

 

JBP – Felipe Quintas denunciou, nessa quinta-feira (14), um decreto de Jair Bolsonaro que destrói a indústria nacional de seringas para facilitar a importação. O que o senhor diz disso? Como Jair Bolsonaro e sua equipe pode ser punida por esta não-gestão da pandemia e por destruir o Estado brasileiro, bem como promover essa selvageria sanitária?

 

Dep. Alexandre Padilha – A condução de Bolsonaro na pandemia é trágica, genocida, somos o país epicentro de transmissão e mortes. Na Câmara dos Deputados e com ex-ministros da saúde fizemos denúncias internacionais contra Bolsonaro. Desde maio de 2020, era mostrado a dificuldade de mobilização de indústrias para produção de seringas e insumos para aplicação das vacinas, e o governo nada fez para evitar antecipar e facilitar esse processo. Pelo contrário, escolheu o caminho mais difícil para a solução desde problema. O governo de Jair Bolsonaro não se preparou e não quis se preparar em nenhum momento para que a vacinação fosse para todos e todas em tempo adequado. É possível sim o Brasil vacinar 80 milhões em 3 meses, já fizemos isso e fazemos isso todos os anos com a vacinação da gripe. É possível vacinarmos o grupo de risco antes da chegada do inverno no Brasil.

 

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