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O Brasil trajando luto se despede de Aldir Blanc

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Na foto, João Bosco e Aldir Blanc

 

Entre tantas tristezas, acabamos de perder um dos mais politizados compositores da MPB, o carioquíssimo Aldir Blanc, aos 73 anos, no último dia 4 de maio, de Covid 19, no Hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro. O letrista nasceu em 2 de setembro de 1946, no bairro do Estácio e cresceu na Vila Isabel, terra de Noel, onde subia na goiabeira para ler Machado de Assis.

 

Em 1970, Aldir Blanc participou do Movimento Artístico Universitário-MAU, que se reuniam na casa de um médico na Rua Jaceguai, 27, no bairro da Tijuca.  O anfitrião era Aluizio Porto Carreiro de Miranda que tinha tocado na Orquestra do Cassino da Urca e recebia nos seus saraus, nada menos que, Donga, Bororó, João do Vale, Násssara, Clementina de Jesus e Cartola.

 

As filhas adolescentes Angela e Regina passaram a convidar os amigos para os encontros musicais nas sextas-feiras. Acabou formando um grupo MAU que participou dos festivais universitários da TV Tupi, entre eles: Gonzaguinha, Lucinha e Ivan Lins, César Costa Filho, Eduardo Lages, Marcio Proença, Ruy Mauriti, Silvio da Silva Jr., Aldir Blanc e tantos outros.

 

Aldir estudou Medicina com especialização em psiquiatria, mas abandonou a carreira. Os pacientes perderam um ótimo psiquiatra, mas os brasileiros ganharam um dos mais consagrados músicos que compôs cerca de 600 obras, e suas parcerias de João Bosco foram 120 músicas.

 

Suas músicas sempre retrataram os costumes e cotidianos do povo carioca, desde a goiabada cascão, os boias-frias, um corpo estalado no chão, os pingentes nos trens da Central do Brasil, o viaduto que caiu na Avenida Paulo de Frontin, em 1972, as personalidades escamoteadas pelos historiadores oficiais, dos meninos da Nicarágua, as críticas da ditadura militar que pedia a volta dos exilados e dos assassinatos políticos.

 

Para Aldir Blanc, o Brasil continua não conhecendo o Brasil, desde o autoritarismo da ditadura militar, as desigualdades e injustiças das suas populações.

 

Uma das suas mais brilhantes composições ‘O bêbado e o equilibrista’ surgiu quando o seu parceiro João Bôsco fez uma letra para homenagear a morte do genial Charles Chaplin no natal de 1977. João mandou a letra para Aldir. Na época, Aldir participava das reuniões para formação da campanha da Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita na Associação Brasileira de Imprensa-ABI, em 1978. Numa delas, encontrou o cartunista Henfil e seu irmão músico Chico Mário que relataram a história do seu irmão exilado no Chile e depois no México, após o golpe militar de 1964.

 

Aldir resolveu acrescentar na música ao Chaplin a homenagem aos exilados, e acabou acrescentando o Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil, pois ele nem sabia o nome do exilado político. Como também acrescentou choram Marias e Clarices, em homenagem às viúvas do operário Manoel Fiel Filho e do jornalista Vladimir Herzog, ambos assassinados nos porões do tenebroso DOI-Codi em São Paulo.

 

Bosco e Aldir mandaram a música para Elis Regina que acabou gravando no disco ‘Essa mulher’, em 1979, e tornou-se o Hino da Anistia que emocionava os presentes nas chegadas dos exilados nos Aeroportos do Rio de Janeiro e São Paulo. O irmão do Henfil era o Heberth de Souza, o Betinho que criou a campanha da fome no Brasil, nos anos 80. Henfil tinha esculhambado Elis Regina na sua coluna ‘Cemitério do cabôco mamadô’ no jornal O Pasquim, por ela ter cantado numa solenidade das Olimpíadas do Exército, em 1972. Mas Henfil não sabia que Elis tinha recebido ameaças dos militares por ter feito declarações na Europa criticando a ditadura. Com a música ‘O bêbado e o equilibrista’ acabaram se reconciliando.

 

Aldir enfrentou a censura na composição da música em homenagem ao líder da Revolta da Chibata, João Cândido, que era carinhosamente chamado pelo seu médico socialista Adão Pereira Nunes de Almirante Negro. O nome original da música era ‘Almirante negro’ ou ‘Navegante negro’, mas quando Aldir foi convocado para comparecer no Departamento de Censura, o policial negro disse que o título estava fazendo apologia ao negro. Aldir alterou o nome para ‘Mestre-sala dos mares’, como também as substituições palavras polacas e baleias. Polacas eram os nomes das prostitutas do Leste Europeu que viviam na região da zona do meretrício do Canal do Mangue, no Rio de Janeiro.

 

Para Dorival Caymmi: ‘Aldir Blanc é compositor carioca. É poeta da vida, do amor, da cidade. É aquele que sabe como ninguém retratar o fato e o sonho. Traduz a malícia, a graça e a malandragem. Se sabe de ginga, sabe de samba no pé. Estamos falando de ourives do palavreado’.

 

E para o inseparável parceiro João Bosco: ‘Não existe João sem Aldir’.

 

Sergio Caldieri é jornalista e escritor.
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