O Presidente dos EUA, Joe Biden, formulou justificativas pouco sérias para a retirada das tropas militares de ocupação do Afeganistão e não conseguiu esconder a debilidade politica do imperialismo nesta quadra da história: teve que retirar as tropas para não desperdiçar recursos e favorecer seus “competidores” Rússia e China, como afirmou ele, em entrevista 24 horas depois do golpe talibã.

 

 

A situação é crítica no Afeganistão. Os governos da Rússia e da China se esmeram para encontrar uma saída… Mas os talibãs não são confiáveis. Estão muito mais para “grupo miliciano armado”, do que para movimento de base popular. As barbaridades cometidas por eles são do conhecimento geral. Entre a proibição de as mulheres trabalharem e estudarem, até a proibição de música e futebol, há muitas outras normas fascistas impostas contra o povo.

 

 

Como os talibãs se sustentam? Do comércio de ópio à ajuda que vem de “nações amigas”, como Arábia Saudita, Emirados Árabes e o próprio Paquistão, além dos EUA, cuja saída militar do país foi acompanhada de um “generoso” abandono do arsenal bélico em suas bases militares e prontamente apropriadas pelo bando criminoso.

 

 

Completando uma semana do golpe talibã no Afeganistão e marcando a data nacional do país (Dia da Independência, 19 de agosto), a população dá sinais claros de oposição aos golpistas. Os movimentos de protestos começam pela reivindicação da volta da bandeira afegã, substituída pela esdrúxula bandeira talibã com os dizeres “Estado Islâmico do Afeganistão”. Os bandos talibãs reagiram atirando, matando e ferindo os manifestantes em Jalalabad.

 

 

É difícil imaginar uma reação popular no Afeganistão sem ajuda externa. Não é um país com, digamos… uma mínima estrutura “democrático-burguesa” construída historicamente. Não há “burguesia nacional”, movimento sindical e camponês organizados. Quando o Exército Vermelho Soviético interveio no país, em dezembro de 1979, a pedido do governo do Partido Democrático Popular, o desafio era exatamente o de desenvolver o país… não “queimando etapas”, mas combinando-as: adotando medidas de desenvolvimento com recortes capitalistas junto com medidas de recorte de Estado operário e socialista.

 

 

O que falhou no Afeganistão, ao longo dos anos 1980? A “falha” não foi principalmente dentro do Afeganistão, mas sim, dentro da União Soviética que era o suporte principal de progresso econômico e social no país vizinho. A burocracia soviética oscilava em relação à presença militar no país. Ao mesmo tempo em que precisava se fortalecer por meio do fortalecimento mundial do próprio Estado operário soviético, a burocracia relutava em se expor a um confronto aberto contra o imperialismo. O status quo da insustentável “coexistência pacífica” seria o porto seguro da burocracia soviética.

 

 

Com a ascensão de Gorbatchov a “solução” encontrada para o dilema da burocracia foi a sua autodestruição, com o desmonte gradativo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que incluiu o esvaziamento da ação militar internacionalista no Afeganistão e consequente derrota militar frente a um maltrapilho grupo de mujahedins, precursores dos atuais talibãs.

 

 

O Afeganistão é geograficamente longe do Brasil, mas na era da internet tornou-se muito mais próximo do que no final da década de 1970, quando um partido de direção marxista assumiu o poder com o apoio da URSS, empunhando um programa de transformações que continua na ordem do dia: Terra, Trabalho e Liberdade, reforma agraria, igualdade de gênero, erradicação do analfabetismo, acesso universal à educação e saúde, moradia, saneamento básico, plano de desenvolvimento econômico, exploração racional e soberana dos imensos recursos minerais do país e organização da população em conselhos populares para enfrentar as oligarquias e a cultura patriarcal e tribal.

 

 

 

(*) Artigo de Afonso Magalhães é presidente PT-Guará, Região Administrativa do Distrito Federal,  e coordenador de Solidariedade Internacionalista da Central de Movimentos Populares (CMP-DF)