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Nova Resistência: como militantes de extrema direita se infiltraram no PDT

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No fim de maio, Robinson Farinazzo (PDT-SP) posou para uma foto na avenida Paulista ao lado de militantes que seguravam uma bandeira com uma estrela verde e as letras “NR” ao centro.

 

 

Farinazzo, comandante da reserva da Marinha e candidato a deputado estadual, é um ávido usuário do YouTube. Em abril, fez uma live para discutir a guerra na Ucrânia com dois convidados, Lucas Leiroz, líder da NR (Nova Resistência) do Rio de Janeiro, e o filósofo Aleksandr Dugin, da Rússia, autor da chamada “quarta teoria política” — que pretende superar liberalismo, comunismo e fascismo —, considerado um dos gurus do Tradicionalismo, tese de influência na extrema direita pós-guerra e em movimentos neofascistas.

 

 

Dugin é a inspiração da NR, movimento cuja estrutura é fundada no antissemitismo, no antiliberalismo político e na repulsa a pautas LGBTQIA+  — e que vem apoiando campanhas de candidatos do PDT, como as de Comandante Farinazzo, Cabo Daciolo e Aldo Rebelo (os dois últimos ao Senado, pelo Rio e por São Paulo), que representariam os ideais nacionalistas que a NR tanto preza.

 

 

 

Fundada em 2015, a NR tentou entrar oficialmente nas eleições de 2020, sem sucesso. Segundo militantes do PDT, a proximidade do movimento tem sido reportada diversas vezes a líderes partidários desde 2018, mas nada foi feito para afastá-lo.

 

 

“É proibida a dupla militância, nenhum filiado pode participar de outro grupo político. Sendo um grupo de extrema direita, pior ainda”, declarou Carlos Lupi, presidente do PDT, ao site Congresso em Foco, sinalizando que tomaria providências para expulsar membros do movimento no partido. Em agosto, sabatinado no “Roda Viva”, o presidenciável Ciro Gomes desconversou: “Não tenho nenhuma informação, mas garanto a você que qualquer neofascista, neonazista, seja lá o que diabo for, não vai estar no PDT.”

 

 

Entretanto, eles ainda rondam o partido que, segundo filiados, insiste em minimizar a presença da NR na legenda. “Não dão ouvidos”, conta um militante do PDT que pediu para não ser identificado. “Não sou um líder, sou apenas aquele chato que critica. Já avisei cargos mais altos e sempre ouvi que era para não me preocupar.”

 

 

Segundo especialistas ouvidos pelo TAB, uma das táticas da NR é a entrada sorrateira em organizações de esquerda para contaminar o discurso com pautas antidemocráticas, especialmente contra o movimento LGBTQIA+ e, muitas vezes, fundadas em teorias da conspiração antissemitas.

 

 

“A quantidade de membros da Nova Resistência no PDT está aumentando, de fato. Mas é basicamente porque essa audiência toda está fazendo gente que era filiada ao PDT vir até nós inbox pra pedir material de leitura nossa e pedir orientações de filiação na NR”, afirma Raphael Machado (@camaradamachado) August 17, 2022″

 

‘Entrismo’ político

 

De Caxias do Sul (RS), Raphael Machado, líder da NR, postou no Twitter que há mais de 20 membros da NR filiados ao PDT. “Nenhum membro do Nova Resistência nunca, jamais, em qualquer ocasião ou oportunidade, foi expulso do PDT”, escreveu, em 2020. “Os camaradas da NR filiados ao PDT nunca esconderam ser da NR, os dirigentes do partido sempre estiveram cientes”, Amaryllis Rezende, vice-líder da NR, postou, também no Twitter, em 2020.

 

 

Na época, a NR tentou entrar na política com três candidaturas em partidos diferentes: André Matos (PDT-SP), o “Bicho Solto”, Capitão Leo (Pros-RJ) e Ivanzinho de Joventino (Cidadania-PB) — o único que conseguiu se eleger, na cidade de Cuité (PB).

Matos, ex-membro da NR que tentou se candidatar pelo PDT em 2020, reproduziu código antissemita Imagem: Reprodução/Twitter.
Matos, ex-membro da NR que tentou se candidatar pelo PDT em 2020, reproduziu código antissemita Imagem: Reprodução/Twitter.

 

Mas foi Bicho Solto quem fez disparar o alerta de militantes da esquerda durante a campanha para vereador de São Paulo em outubro de 2020: num vídeo, acusava o presidente Jair Bolsonaro (PL) de não ser “nacionalista de verdade” por usar as bandeiras dos Estados Unidos e de Israel. No post, escreveu “pra cima (((deles)))”. A palavra entre parênteses triplos é um código da extrema direita antissemita, conhecido como “(((eco)))”, usado para identificar judeus e assuntos relacionados ao judaísmo.

 

 

Matos também publicou uma foto dos “Protocolos dos Sábios de Sião”, panfleto antissemita encomendado pelos segmentos mais conservadores da Rússia czarista no final do século 19. O panfleto, fabricado para parecer ter sido escrito por um líder de uma organização judaica, é fonte de inspiração para uma das teorias da conspiração mais difundidas: a de que uma elite mundial judaica controla o sistema financeiro mundial.

 

Foto do panfleto antissemita compartilhado por 'Bicho Solto' no Twitter Imagem: Reprodução/Twitter.
Foto do panfleto antissemita compartilhado por ‘Bicho Solto’ no Twitter Imagem: Reprodução/Twitter.

 

Os posts repercutiram tanto que a própria NR se afastou de Matos. “O Sr. André ‘Bicho Solto’ não é membro da Nova Resistência — esteve, de fato, brevemente relacionado a ela, sem jamais formalizar sua adesão, tendo porém se desligado de vez em setembro de 2019”, afirmou o grupo, no site oficial.

 

Entretanto, acusações de antissemitismo não parecem incomodar os membros da NR. Tanto o líder Machado quanto a página oficial da NR já publicaram comentários antissemitas e negacionistas do Holocausto. A julgar pelo histórico, o que mais incomoda a NR é o alinhamento ao neofascismo, acusação a qual Machado responde dizendo que a NR está sendo “cancelada” na internet.

 

Líder da Nova Resistência, Machado já postou tuítes negacionistas do Holocausto Imagem: Reprodução/UOL
Líder da Nova Resistência, Machado já postou tuítes negacionistas do Holocausto Imagem: Reprodução/UOL

 

“É uma estratégia política para articular com o fascismo, sem ser chamado de fascista”, avalia o sociólogo Michel Gherman, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do Centro de Estudos do Antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém. “A NR pode não postular o fascismo do século 20, mas extrai dele referências e o moderniza”, acrescenta o historiador Odilon Caldeira Neto, professor da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora).

 

 

‘Anne Frank é ficção’

 

 

Em denúncias anteriores, militantes de esquerda reuniram uma série de prints de publicações de Machado negando a existência do Holocausto e compartilhando conteúdos de escritores antissemitas. Num deles, “O Diário de Anne Frank”, diário de uma jovem que narra o confinamento de uma família durante a ocupação nazista, é relegado à ala de ficção de uma livraria.

 

Machado também defendeu diversas vezes a deportação de Olga Benário, nos anos 1930, pelo então presidente Getúlio Vargas.

 

Integrantes da NR já foram fotografados em encontros onde a bandeira da estrela verde divide espaço com o Sol Negro, símbolo neonazista ligado a movimentos esotéricos — o brasileiro autor do atentado à vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, tinha um sol desses tatuado no braço.

 

 

No site oficial, um dos integrantes classifica o movimento LGTQIA+ como “nefasto” e o atribui a “mentes demoníacas, perturbadas e profundamente misantrópicas”. As ideias fazem parte da “quarta teoria política”. A teoria de Dugin prega um retorno às tradições, é contra a modernidade e os ideais iluministas, incluindo os direitos humanos.

 

 

Dugin é visto como uma inspiração para políticos de extrema direita. Entretanto, o autor demonstrou simpatia por certas alas da esquerda sul-americana, que lhe sorriu de volta.

 

 

“Isso pode parecer surpreendente, visto que ele não gosta de feminismo, multiculturalismo e imigração, que são centrais nas pautas da esquerda. Porém, ele é antiamericano, anticapitalista e ele se coloca contra qualquer força que possa erradicar a diversidade local”, diz Benjamin Teitelbaum, professor da Universidade de Boulder Colorado e autor de “Guerra pela Eternidade” (2020), que trata do tradicionalismo e da ascensão da direita.

 

 

Antes de fundar a “quarta teoria política”, Dugin fez parte do PNB (Partido Nacional-Bolchevique), que unia a extrema direita e a extrema esquerda, ao misturar conceitos-chave do fascismo e do comunismo. Também fez parte do Pamyat (Frente Nacional Patriótica “Memória”), organização ultranacionalista ortodoxa conhecida por seu antissemitismo virulento. Dugin também se inspirou na Nouvelle Droite (a “nova direita” da França), cujo intuito era misturar discursos da direita e da esquerda.

 

 

A partir dos anos 2010, as ideias do autor começaram a conquistar mais círculos acadêmicos no Brasil. Em 2012, Dugin visitou cidades brasileiras a convite de universitários que organizaram os “Encontros Evolianos”, onde nasceu a Nova Resistência. No mesmo ano, foram traduzidas e publicadas duas obras de Dugin no país: “Geopolítica do Mundo Multipolar” e “A Quarta Teoria Política”.

 

 

Em 2015, a cantora Flávia Virgínia, filha de Djavan, fundou o Centro Multipolar de Estudos, think tank que promovia encontros para discutir a teoria de Dugin em São Paulo. Flávia Virgínia não respondeu aos pedidos de entrevista do TAB.

 

 

Foto tirada em evento fechado da NR; um dos integrantes usa uma camiseta com o Sol Negro Imagem: Reprodução
Foto tirada em evento fechado da NR; um dos integrantes usa uma camiseta com o Sol Negro Imagem: Reprodução

 

 

Flerte histórico

 

O flerte do PDT com organizações similares à Nova Resistência é histórico, diz o sociólogo Michel Gherman.

 

 

PDT e NR se encontrariam no nacionalismo, pautado pela defesa da soberania nacional, e no trabalhismo. “O trabalhismo, aos olhos de grupos como a NR, é lido como uma expressão nacionalista, autoritária e antiliberal, eventualmente antidemocrática, tipicamente brasileira”, contextualiza o historiador Odilon Caldeira Neto, autor de “O Fascismo em Camisas Verdes” (2020).

 

 

Leonel Brizola (1922-2004), fundador do PDT, nunca foi antissemita. “Com a saída de cena do Brizola, esses grupos perceberam que o sentinela já não está mais ativo e eles podem entrar a partir do discurso nacionalista”, analista Gherman.

 

 

Machado (de braços cruzados) com Aldo Rebelo (de chapéu) no lançamento do livro do ex-ministro Imagem: Reprodução/UOL
Machado (de braços cruzados) com Aldo Rebelo (de chapéu) no lançamento do livro do ex-ministro Imagem: Reprodução/UOL

 

O mesmo tom também foi identificado no discurso de Aldo Rebelo, que lançou o chamado “quinto movimento”, apoiado pela NR e pela Frente Sol da Pátria, um racha da NR que agora renega a teoria política de Dugin.

 

 

Rebelo, crítico ferrenho tanto do bolsonarismo quanto das pautas identitárias, criou o movimento com uma proposta de retomada da soberania nacional. Segundo Gherman, o ex-ministro em governos do PT já possuía um discurso com elementos de autoritarismo antes de se filiar ao PDT.

 

 

No entanto, para o sociólogo, a permissividade do PDT está mais ligada a Ciro Gomes, que precisou se desculpar por ter insinuado que a comunidade judaica foi financiadora da campanha de Jair Bolsonaro, em 2018.

 

 

O diretório nacional do PDT e as assessorias de Ciro, Farinazzo e Cabo Daciolo não responderam os pedidos de entrevista. Após visualizar as mensagens da reportagem no WhatsApp, a campanha de Aldo Rebelo bloqueou o TAB.

 

 

No momento, o partido enfrenta conflitos internos entre a ala que apoia Ciro e a corrente formada por pedetistas progressistas mais tradicionais que declararam voto em Lula caso haja um segundo turno. A NR e os candidatos do PDT ligados aos grupos afirmam que os verdadeiros “infiltrados” são os que declararam apoio ao candidato petista.

 

 

Para Michel Gherman, a NR na política pode representar uma validação institucional perigosa, que pode ter consequências catastróficas nos anos seguintes.

 

 

“Com a [possível] derrota de Bolsonaro e a hegemonização da esquerda pelo lulismo nos próximos anos, o que vai sobrar pra direita ou que vai sobrar uma certa esquerda não-lulista é isso”, atenta o sociólogo. “Esses caras podem articular um discurso que é se dizer órfãos de uma esquerda cirista e uma direita pós-bolsonarista.”

 

 

Após a publicação da reportagem, o PDT nacional encaminhou nota oficial ao TAB em que afirma que o partido “não possui qualquer tipo de vínculo com o movimento Nova Resistência”.

 

 

“No Brasil, são mais de 1 milhão de filiados ao partido e todos que assumirem a dupla militância serão excluídos. O único caso registrado foi em 2020, com o devido cancelamento da filiação. Já Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha, nega a defesa da pauta do NR”, diz a nota. O PDT também destaca compromisso com “o legado trabalhista, que inclui a defesa intransigente de grupos minoritários e de pautas fundamentais, como a racial, a religiosa e a de gênero”.

 

 

(*) Reportagem de Marie Declercq e Letícia Oliveira, em São Paulo (SP) e Salvador (BA), publicada no TAB – Repórteres na Rua em Busca da Realidade.

 

 

 

Foto da capa:  Foto publicada nas redes sociais mostra encontro entre Robinson Farinazzo (PDT), com uma bandeira do Brasil, e apoiadores da NR.Imagem: Reprodução/Twitter

 

 

Acesse: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2022/09/18/nova-resistencia-como-militantes-de-extrema-direita-se-infiltraram-no-pdt.htm

 

 




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