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Nós, Geni e o Zepelim

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Quando penso em ouvir uma música, que no meu conceito seja boa, uma das primeiras que me vem à mente é um clássico de Chico Buarque: Geni e o Zepelim. Mas em se tratando de Chico Buarque haverá sempre alguém a afirmar que todas as suas músicas são boas. Nos temas de amor algumas são imbatíveis mesmo. Quando se trata de retratar injustiças e o nosso cotidiano ele também se coloca entre os melhores. As melodias são muito saudosistas já que em sua maioria estão associadas a um tempo, que já vai ficando distante, onde a música popular brasileira era destaque em nossas rádios e em nossos encontros sociais de família, faculdade e dos amigos nas festinhas e barzinhos.

 

A versão mais aceita é que Geni seria um travesti retratado na canção. Existem afirmações de que fosse uma mulher. Mas em ambos os casos apontam para uma pessoa que entregava o seu corpo e se dedicava a dar amor a todos da sua pequena cidade. Dando amor e aparentemente recebendo pouco ou nada em troca: “O seu corpo é dos errantes… é de quem não tem mais nada…Mesmo sendo um poço de bondade se torna vítima de toda a sorte de preconceitos. Às escondidas, no cair da noite, Geni e o seu corpo são um refúgio de carinho, à luz do dia é motivo de escárnio, é o alvo de todos os impropérios e ódio que a transformam em um coletivo “saco de pancadas”. Mas ela não liga e segue sua vida libertária sendo a “rainha dos detentos, das loucas, dos larazentos…”

 

A música em questão é um repertório de críticas escondidas em sua letra sobre vários temas sociais e nos traz reflexões sobre a humanidade. Nos dias atuais, encontro muita relação com o episódio em que surge um enorme Zepelim brilhante com dois mil canhões e o seu comandante, que resolve explodir toda a cidade. A população já estava quase conformada com seu destino de ser aniquilada quando o comandante muda de ideia, mas impõe uma condição: “poupo a todos se essa noite aquela formosa dama me servir” e aponta para Geni. Uma incredulidade generalizada se abate sobre todos. A Geni? Não pode ser. Ninguém entendia como a preferência de um “homem tão nobre, tão cheirando a brilho e a cobre” recaíra sobre ela “tão coitada e tão singela”. Geni reluta em atender a um desejo que não lhe parece justo. Mas em seguida compreende, mais uma vez, que o seu sacrifício é em nome de todos e se entrega salvando a cidade.

 

A comparação que enxergo é sobre a relação entre o universo e a natureza. Parece que o universo está sempre a construir conspirações visando testar os nossos limites e as nossas forças. Parece que ele nos considera demasiadamente afortunados. Temos a capacidade de raciocinar e transformar tudo que nos cerca, mas não reconhecemos a possiblidade de dar em troca parte do que recebemos. Me parece que o universo é aquele comandante no seu Zepelim gigante a julgar os nossos erros e a nos estabelecer punições. Do outro lado a natureza, desempenhando o papel de Geni, que oferece amor, carinho e toda a matéria física que transformamos e utilizamos a nosso favor.

 

A natureza está sempre disposta a nos servir e nos defender, mesmo diante dos nossos injustificáveis comportamentos e ataques agressivos contra ela mesma. E quando o universo nos testa novamente arremessando em nossa direção vírus, gafanhotos, terremotos e tufões, a natureza não nos abandona e aceita se entregar em “noites lancinantes como quem dá-se ao carrasco” para, de novo, nos salvar, mesmo sabendo que ao raiar do novo dia, como na canção, provavelmente repetiremos a cantoria: “Joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir…”

 

Steffano Silva Nunes é médico veterinário e estudante de Economia / steffanonunes@gmail.com
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