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No Dia das Crianças, Brasil tem mais de 600 mil mortos e mais de 130 mil órfãos da Covid-19

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Artigo de Guilherme Boulos, professor, coordenador do MTST e da Frente Povo Sem Medo, ex-candidato do PSOL à Presidência da República e à Prefeitura de São Paulo, faz um retrato da infância no Brasil no governo Jair Bolsonaro e Paulo Guedes. Confira

 


Dia dos órfãos da Covid

 

Thiago e Nielle morreram por Covid no mesmo mês. O casal de Ponta Grossa deixou quatro filhos, o mais velho com 11 anos e o mais novo com apenas 1. São mais de 130 mil crianças e adolescentes órfãos da pandemia no Brasil, número inferior apenas ao do México, de acordo com estudo da revista científica Lancet.

 

Neste Dia das Crianças temos mais a refletir do que a celebrar. O luto é uma elaboração difícil para qualquer um de nós. Para uma criança, que não tem ainda os recursos psíquicos necessários, é sempre mais traumático. O vazio e o sentimento de desamparo que vêm de uma ausência não compreendida deixam marcas para toda a vida.

 

Coloquemo-nos por um momento no lugar desses pequenos humanos. Imagine você, leitor, de uma hora para outra ser privado para sempre do amor e dos cuidados das únicas pessoas com quem realmente pode contar. Privado do afeto, da educação, do lar e dos meios de sustento.

 

A ferida que atravessa a alma chega também na vida social. Estamos falando de uma catástrofe humanitária. Logo veremos os efeitos disso no aumento do trabalho infantil, na evasão escolar, no crescimento do número de crianças em situação de rua e na explosão dos casos de abusos e exploração sexual infantil.

 

É a espiral do sofrimento. A dor de uma grande perda, em vez do luto para seguir adiante, é seguida de outras dores inomináveis, que bloqueiam qualquer futuro possível. Se o ciclo não for interrompido, teremos toda uma geração ceifada.

 

O mundo conhece a tragédia das “crianças-lobo”, órfãs da Segunda Guerra que ficaram anos perambulando em florestas da Prússia oriental. Eram cerca de 25 mil, sendo que a maioria não sobreviveu ou se desumanizou na selva. Algumas foram acolhidas na Lituânia. Os esforços de reconstrução do pós-guerra nunca as levaram em conta. A pandemia tem número de mortos —e de órfãos— comparáveis a um conflito militar.

 

Estamos diante do mesmo problema, agora na selva de pedras. Há uma série de projetos legislativos tramitando no Congresso Nacional para apoio aos órfãos da Covid, desde medidas de amparo psicológico na rede pública até auxilio econômico para garantir sua sobrevivência. O PL 1305/21, por exemplo, propõe pensão de um salário mínimo mensal para crianças que perderam pais e mães. No entanto, quase dois anos após o início da pandemia, nada disso saiu do papel.

 

Em nome de questões fiscais, sempre aplicadas seletivamente, seguimos assistindo com indiferença ao drama dos órfãos da pandemia. É preciso pressionar o Congresso para medidas rápidas e eficazes. Como diz a frase atribuída a Martin Luther King, o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.

 

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