No tempo da Guerra Fria, os conservadores denominavam o Marxismo de “ideologia malsã”. Era essa a terminologia utilizada pelos líderes do “Mundo Livre”, ao fazerem referência aos padrões adotados num outro e estranho mundo, situado atrás da “Cortina de Ferro”.

 

 

A visão maniqueísta facilitava a compreensão ideológica de um mundo bipolar, numa luta sem trégua entre o Comunismo – ateu e desumano- e o Capitalismo, o sistema pronto e acabado, destinado a produzir riqueza, progresso e desenvolvimento. Num ambiente de liberdade permanente.

 

 

O colapso da União Soviética e dos seus satélites, no início da década de 1990, teria representado a vitória da Democracia, com a predominância ideológica do “Mundo Livre”, em todos os rincões do planeta.

 

 

A facilidade do desmonte soviético deve ter causado não apenas euforia, mas interpretações apressadas e, sobretudo, equivocadas por parte dos teóricos – pensadores e estrategistas – do Mundo Livre. Pois o Capitalismo vencedor e sobrevivente, parece ter significado para eles tão somente a hegemonia definitiva, irrevogável, do império norte americano.

 

 

Tão ocupados estavam, que não observaram, muito menos interpretaram, o que estava ocorrendo num país isolado e distante, a China, que vinha fazendo opções políticas alternativas à ortodoxia marxista, desde Mao Tsé Tung, em 1949. E que entendeu ser possível, para seu crescimento/desenvolvimento, sob a liderança de Deng Xiaoping, a junção de partes do que havia de melhor nos sistemas capitalista e socialista. Mas – e isso era um ponto fundamental – guardando toda distância possível das Razões de Estado, ou da Geopolítica. Dito de outro modo, sem sonhos hegemônicos. Descabidos, situando os sonhadores em permanente estado de beligerância. De riscos incalculáveis para a paz mundial, sobretudo quando os contendores dispõem de armas nucleares.

 

 

Buscava a liderança chinesa, da forma mais inteligente e sem preconceitos, se adaptar ao mundo novo que se descortinava nos primórdios do século 21. Num país que detinha 20% da população do planeta. Criando algo que denominou “Socialismo de Mercado.” Obtendo a cada ano, crescentes, inacreditáveis, taxas de incremento do PIB.

 

 

Os que se diziam “vencedores da Guerra Fria” estavam mais preocupados na construção de um novo sistema financeiro que se tornasse, sem alardes, a garantia dos lucros do capitalismo e do poder supremo das elites. Um sistema concentrador de renda; preocupação nula com a variável social; um capitalismo não-produtivo, no qual os direitos do trabalhador deixavam de ser reconhecidos; sua excelência o Mercado assumia o papel de deus: o fundamentalismo do livre mercado. O “regime de sonho capitalista”. Talvez, a novíssima “ideologia malsã”, com o viés indisfarçado do capitalismo financeiro.

 

 

A forma de origem, ou o nascimento do Neoliberalismo foi plena de avanços e recuos. Tudo obedecendo ao rigoroso – discretíssimo –  planejamento estratégico, na criação não somente de um Sistema Econômico. Mais que isso, de um “Sistema de Crenças”, com seus dogmas de fé. Na incessante busca de adeptos pelo mundo, na certeza da permanente irracionalidade das adesões ditas “ideológicas”. Quase uma matéria de “fé religiosa”.

 

 

Nada fácil, portanto, definir a sequência cronológica da implementação da teoria neoliberal. Podendo-se, no entanto, presumir que foi uma sequência plena de avanços e recuos. E, sem exageros, dependente de regimes autoritários – assumidos ou disfarçados – para garantir a manutenção do poder da elite. E a acumulação do capital improdutivo. E, claro, a extinção dos sindicatos trabalhistas. Levando, de roldão, direitos duramente conquistados.

 

 

O Regime Neoliberal, assumido ou “embutido”, quando associado com a barbárie político-ideológica, tende a provocar catástrofes institucionais profundas. Talvez, desmontes irreversíveis da estrutura funcional dos países-vítimas, condenados a serem exportadores de “comodities”, para sempre. Abdicando do seu desenvolvimento econômico, científico, cultural e tecnológico. E de obediência cega – indisfarçadamente servil – ao império americano.

 

 

Avaliações isentas do que está ocorrendo no Brasil, há mais de dois anos sob o comando de um desgoverno assumido como neoliberal, causam graves preocupações. Para outros, que se dizem democratas, seria importante que se dessa continuidade ao desmonte dos governos chamados progressistas, se necessário, com o uso de infalíveis Golpes de Estado, incorporados, parece que em definitivo, à nossa cultura política. E com novos adeptos. Mesmo que isso venha a colocar em grave risco, o futuro natural do país enquanto Estado-Nação e sua ascensão, também natural, ao status de Grande Potência.

 

 

Seremos, apenas, uma republiqueta de bananas. Vítimas de uma Pandemia, perdão, de uma “gripezinha” persistente, que já ceifou a vida de algo próximo a 300 mil brasileiros, a maioria dessas mortes evitáveis. E sem provocar qualquer tipo de sentimento ou preocupação nas  chamadas “lideranças neoliberais”, que exercem, impávidas, o desgoverno do país.

 

 

Os resultados estão aí, visíveis. Para os que querem ver… E la nave va.

 

 

 

(*) Geniberto Paiva Campos é médico e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP)