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Música ponte

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Guia Musical de Brasília nº 9 – Em 1985, o trompetista Moisés Alves saiu de Campina Grande, na Paraíba, e vingou em São Paulo, quer dizer, em Brasília. Aqui Moisés aprendeu que a música une as pessoas, independentemente de raça, credo ou política. É o que ele conta nesta entrevista.

 

 

 

Guia Musical – Por que você veio para Brasília?

 

 

Moisés – Coisa de nordestino, o pai diz “Vamos ver se meus filhos vão vingar lá em São Paulo… São Paulo é todo lugar fora de Campina Grande, pode ser o Rio, Belo Horizonte, Goiás… Brasília vale também!

 

 

Família de músicos?

 

 

Meu pai tocava trombone de pisto na Banda Municipal Euterpina de Timbaúba, Pernambucano, onde minha mãe o conheceu. Os filhos, evangélicos da Assembleia de Deus, que tem uma escola tradicional de música… Eu sou exatamente filho disso.

 

 

Irmãos?

 

 

Sete. Um deles, mais velho que eu dez anos, trompetista, tocava em banda de baile em Campina, eu sempre acompanhava. Mas meu primeiro professor foi um sujeito chamado Bolinha, Ivaldo Amado. Era da Igreja e gostava de tomar uma cachacinha. O pastor tolerava porque ele dava aula, estava equilibrado. Só que em fevereiro ele sumia pra tocar carnaval. Descobri isso anos depois, numa master class em João Pessoa, conversando com o maestro Duda, do frevo do Recife. Perguntei se alguém conhecia o Bolinha, Duda se levantou e disse: “Foi meu primeiro trompete”! O Bolinha me inspirava confiança, tinha amor à música e uma banda chamada Clarins do Senhor. Ele botava muita fé em mim, mas eu era muito preguiçoso, até hoje.

 

Moisés Alves: a música é capaz de unir pessoas de pensamentos diferentes
Moisés Alves: a música é capaz de unir pessoas de pensamentos diferentes

 

 

Ah, você é da escola do Dorival Caymmi!

 

 

Quem dera! (Risos)

 

 

 

 

Como foi o começo em Brasília?

 

 

O meu irmão José Alves, saxofonista, que não seguiu carreira, me incentivou a continuar tocando. Quando chegamos, fomos morar em Sobradinho, onde a Assembleia de Deus, coincidentemente, tinha uma banda sinfônica maravilhosa. Foi o que abriu meus olhos para a música erudita. O primeiro trompete da banda é o Gedeon Lopes, também primeiro trompete da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Ele foi meu professor, e quem percebeu que eu precisava melhorar muito, pois eu não sabia quase nada de teoria. Outro de lá foi o Vadim Arsky, saxofonista, professor da UnB. Na época ele me  botou para ensaiar, ainda sem tocar. A mesma coisa aconteceu na Brasília Popular Orquestra, a Brapo, com o maestro Manoel Carvalho de Oliveira. Comecei ensaiando, sem saber tocar ainda, dessa vez o jazz, a música popular. Junto com isso veio a Orquestra Cristã de Brasília, a OCBrass, com o maestro Joel Barbosa. No meio, eu fiz alguns cursos de verão na Escola de Música, com professores de fora, russos, americanos. Tudo isso foi uma explosão de amor. Brasília me deu todas essas oportunidades num período curto.

 

 

Que peças vocês tocavam na Sinfônica da Igreja?

 

 

Jesus, Alegria dos Homens, do Bach; Aleluia, do Haendel… A gente tocava também uns dobrados, mas ali eu aprendi o vocabulário do trompete clássico, já almejando entrar na Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Quando vi a orquestra do teatro a primeira vez, em 1985, de 16 para os 17 anos, fiquei impressionado. O maestro Emílio de César estava regendo a Quinta do Beethoven. Foi mágico! Eu chorei e pensei: “É isso que eu quero para a minha vida”. Quatro anos depois, eu passei no concurso.

 

 

Quem era o regente da Orquestra?

 

 

O Cláudio Santoro. Eu passei no concurso com ele, e ele gostava de mim.

 

 

Uau, o Santoro compôs 14 sinfonias!

 

 

Sim, e eu gravei as Sinfonias 8 e 9 dele com a Filarmônica de Goiás.  Quando fui convidado, eles nem sabiam que eu tinha tocado com ele. Me pediram uma entrevista para falar disso.

 

 

Quer dizer que os comunistas fazem acordo com os evangélicos, o Santoro com o Moisés! (Para quem não sabe, Santoro foi membro do Partido Comunista Brasileiro)

 

Sempre! (Risos desbragados) Eu morei em Cuba! Daí já dá pra ver que tem acordo.

 

 

Ah, então foi o Santoro que te desencaminhou!

 

 

Exatamente! É porque o seguinte: a música, ela fura, penetra no meio das contradições da sociedade, da política, do racismo. Imagine uma moça milionária que foge com um cara pobre que toca trompete, como na canção Ligia Elena do Rubén Blades. (Moisés começa a cantar a salsa intelectual do compositor panamenho):

 

 

Ligia Elena la candida niña de la sociedad
Se ha fugado con un trompetista de la vecindad
El padre la busca afanosamente
Y lo esta comentando toda la gente
Y la madre pregunta angustiada
¿En donde estará?

 

 

A música tem o poder de juntar pessoas com pensamentos diferentes, isso é profundo. Por isso valorizar a cultura e a música é coisa de Deus! (Risos)

 

 

E a carreira na Sinfônica do Teatro?

 

 

O Santoro começou a cobrar de mim uma posição. Eu era o quarto trompete, o Gedeon era o primeiro. O Santoro de olho em mim… quando o Gedeon faltava… Os Choros 10 do Villa-Lobos tem um solo de trompete muito difícil. Eu estudava a peça em casa, pensando – “Vai que um dia o Gedeon adoece, ou o ônibus quebra…” A gente usava o ônibus 591 de Sobradinho. Um dia o Gedeon falou, e o Santoro não teve desculpa: “Moisés, você vai pro primeiro”! Eu fiquei muito nervoso, suei… Imagine, os Choros nº 10 do Villa-Lobos com o Cláudio Santoro na regência, o Madrigal de Brasília atrás de você cantando aquelas frases indígenas que o Villa-Lobos escreveu, coisa muito bonita!

 

 

Ele inventou, né!, todas aquelas onomatopeias – Jakatá, kamarajá,/ Tayapá, kamarajó, / Ti, Tu, Ti, Tó, Ti, Tu, Kayá! / Tékéré, kiméréyé… (Risos desbocados)

 

… E do nada sai o solo do trompete no meio, super difícil, bonito. Eu fiz!  Quando terminei foi um carimbo. Toda a Orquestra começou a me respeitar. “Esse rapaz aí vai longe”! Não deu outra. Até hoje eu substituo o Gedeon, meu grande amigo, eterno professor e colega de estande. A gente agradece ao Santoro por ter sido um cara visionário.

 

 

E a sua estreia na música popular?

 

 

Bem, veio a bendita música popular, e de novo a Igreja participa. As irmãzinhas e os irmãs da Igreja começam a cantar no meio do culto, e tem um irmão do Nordeste cantando um baiãozinho por trás. Daí o meu instinto indica que ali cabe um solo de trompete, embora a linguagem não seja a mesma do Villa-Lobos. Eu comecei a arriscar uma nota aqui, outra ali, e passei a frequentar lugares não muito cristãos, o Clube do Choro e o Gate’s Pub na Asa Sul, por exemplo. Conheci então um venezuelano chamado Eladio Oduber, que me apresentou ao grupo cubano Irakete (fundado por Chucho Valdés) e o cantor panamenho Rubén Blades. Comecei a ouvir a música latina, a salsa, o danzón, o mambo. Sete anos depois fui morar em Cuba.

 

 

Por quê?

 

 

O governador Cristovam Buarque convidou a maestrina cubana Elena Herrera para reger a Orquestra Sinfônica, e eu me dei bem com ela. Um dia ela resolveu fazer um concerto em Cuba. Quando pisei no aeroporto de Havana, senti algo profundo, percebi que ia viver ali uma vida musical. Aconteceu! Toquei com a Sinfónica de Matanzas, com a Sinfónica de Havana, e também com grupos tradicionais de salsa. Isso foi de 1997 para 1998, quando os velhinhos do Buena Vista Social Club estavam começando a estourar mundo afora. Eu toquei com grupos parecidos, no mesmo estilo. Eu via isso nas ruas de Havana, nas ruas de Matanzas, onde tem um candomblé, e tudo isso eu sendo cristão, sem problema nenhum. Por isso eu digo que o poder da música vai além do preconceito religioso e das posições políticas.

 

 

E na volta?

 

 

Em fevereiro de 1998, voltando, encontrei o produtor do Só pra Contrariar, o Alexandre Pires, um pianista que me conheceu tocando no Gate’s. Ele perguntou se eu não gostaria de tocar no SPC. “Que é isso, rapaz, eu não estou com o nome sujo, não”! (Risos) SPC era o apelido da banda. Ele me deu um cartãozinho, eu pedi licença da Orquestra Sinfônica e entrei na banda, que estava no auge. Depois eu voltei à Orquestra, voltei a gostar da música erudita. Hoje eu vejo que todas essas oportunidades tinham potencial. Foi assim quando eu conheci o Silvério Pontes, parceiro do Zé da Velha, e fui aprender a tocar choro, e nunca mais parei.

 

 

E a sua experiência de professor?

 

 

O Carlinhos Galvão me convidou para um curso de verão na Escola de Música,  e eu indiquei o grande trompetista Daniel d’Alcântara. Dois anos depois, em 97, o Daniel não pôde vir e me pediu para substituí-lo. Pronto, a partir daí comecei a dar cursos em Pelotas, Gramado, Assis (São Paulo), Curitiba, São Luís, João Pessoa. Até em Cuba eu dei master classes de música erudita. Repassei a eles o que eu tinha aprendido com o primeiro trompete da Orquestra Sinfônica de Boston, o Charles Schlueter, um mestre.

 

 

Como está sua vida hoje?

 

 

Continuo na Sinfônica, na Igreja e no Mundo Vivo Galeria, na 413 Norte. Gravando muitos vídeos, com o Vítor Santos, com a Banda Nacional de Gendarmería de Buenos Aires, e com algumas big bands dos Estados Unidos.

 

 

Ô, Moisés, dos grandões do trompete, de quem você gosta mais?

 

Texto publicado, originalmente, no site Brasiliários.Com



 

 

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