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Mundo irreal para pedagogia colonial

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Ditado antigo dizia que todo mundo tem cara e dente, nariz para frente e calcanhar para trás. A mídia hegemônica, sempre no afã de inventar uma realidade, faz uso das desinformações e falácias para obter seu fim. Qual o fim da pedagogia colonial, hoje? Aquele desejado pelo poder das finanças, não aquela do século XIX que, dominante na Inglaterra, se impôs ao mundo sob a colonização da ocupação militar, política, econômica e cultural.

 

Um retrato daquela colonização é a filmagem do negro africano, vestido com roupas absolutamente impróprias para o clima equatorial/tropical, chapéu coco, falando em inglês, numa rua sem calçamento, sobre o progresso.
Hoje isso se repete do modo ainda mais dramático, na defesa da guerra fratricida pelo imaterial “mercado”, realizada por um latino-americano, ao meio da exuberância tropical e da paradisíaca paisagem das praias atlânticas ou caribenhas, com o pretexto da liberdade, democracia e competitividade neoliberal.

 

Se as finanças do século XIX carreavam os ganhos para a aristocracia inglesa ou holandesa, majoritariamente, ou para uma conturbada França, que ao fim do século retorna ao bonapartismo revisado, as finanças do século XXI já são oriundas de crimes agressivos à própria humanidade: drogas, tráfico de pessoas e órgãos humanos, prostituição, contrabando de armas e corrupção de toda ordem.

 

E já não se identificam nacionalmente porque são apátridas e residem em paraísos fiscais.

 

Esta diferença no entanto não alterou seu discurso globalizante, seu ímpeto destruidor de culturas e modos de vida. Capistrano de Abreu (1853-1927), em seus “Capítulos de História Colonial” assim descreve a vida “sem cuidados” que a natureza brasileira proporcionava: “havendo rede, farinha e cachimbo, está em termos. A frugalidade da mesa pode passar se fosse coerente a de beber; e quanto ao mais é expressão vulgar a da seguinte endecha ou trova:

 

Vida do Pará,

 

Vida de descanso:

 

Comer de arremesso,

 

Dormir de balanço.”

 

No início de novembro de 2021 ocorreram eleições na Nicarágua. Foi com Cristóvão Colombo que os europeus chegaram à Nicarágua (1502), mas o evento marcante daquele país, banhado pelo Atlântico e pelo Pacífico, que o colocou nas páginas da imprensa mundial, foi a destituição da mais longa ditadura latino-americana, da família de Anastasio Somoza (06/1936-07/1979).

 

A presença e a ameaça dos Estados Unidos da América (EUA) aos nicaraguenses antecede a chegada da família Somoza ao poder e prossegue após sua derrocada. Em 1848, o País foi ocupado pelos ingleses e, em 1850, ingleses e estadunidenses acertaram o esbulho dos nicaraguenses, levando o aventureiro estadunidense William Walter a governa-lo entre 1856 e 1857, quando a Nicarágua volta a ser palco da disputa anglo-estadunidense.

 

Em 1893 e até 1909, a Nicarágua foi governada por José Santos Zelaia, cuja política nacionalista levou o EUA a depô-lo, passando a controlar diretamente o Banco Central, a Alfândega e as ferrovias nicaraguenses. Esta ocupação estrangeira provocou a revolta de 1912.

 

Os EUA resolvem então enviar seus marines que ficam por 20 anos controlando a vida e economia nicaraguense. Em 1932, para reduzir os custos da dominação, os EUA resolvem treinar a Guarda Nacional Nicaraguense (GNN) e colocar o general Anastasio (Tacho) Somoza García no poder, iniciando a ditadura da família Somoza.

 

Violentos protestos, muitos assassinatos, perseguições e torturas sempre acompanharam os governos Somoza. Os oponentes organizaram, em 1961, a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), uma organização guerrilheira criada por Carlos Fonseca Amador em homenagem a Augusto Sandino, guerrilheiro executado em 1934. O grupo sandinista ganhou apoio crescente dos camponeses sem terra e engajou-se em numerosos embates com a GNN.

 

Em 19 de julho de 1979, em Managua, como no Ano Novo de 1959, em Havana, homens barbudos, vestindo uniformes sujos e rasgados de cor verde-oliva, agitando bandeiras preto e vermelha, aplaudidos pelos nicaraguenses, libertam o país da opressão e da ocupação estrangeira.

 

E como ocorrera com Fulgêncio Batista, em Cuba, também Somoza e família, limpando os cofres nicaraguenses, roubando tudo que conseguiam, fogem para os EUA.

 

É óbvio que os EUA jamais assumiriam ter espoliado ambos os países, como tantos outros na América Latina. Para os estadunidenses eram os comunistas que vinham acabar com a liberdade daqueles seres inferiores passarem fome e serem violentados impunemente, e de democraticamente poderem morar nas ruas e esmolar a comida.

 

O que existe de identidade entre Fidel Alejandro Castro Ruz (1926-2016), Hugo Rafael Chávez Frias (1954-2013) e o presidente José Daniel Ortega Saavedra (1945)?

 

A evidente liderança, capaz de promover a grande mudança da descolonização de seus países, de lutarem e conseguirem a independência nacional. Mas por que estes e não outros que também se sacrificaram por seus países na América Latina, na África, na Ásia e mesmo na Europa e foram derrotados?

 

A resposta não é fácil e, ainda menos fácil, é analisar as derrotas.

 

Cada liderança se forma na identidade do líder com os liderados; caso contrário há apenas imposição e disciplina ou castigo. E como se dá esta identidade? Pela mesma e profunda compreensão e sentimento da nacionalidade. Para evitar esta compreensão e formação que se dá a pedagogia colonial.

 

A pedagogia colonial é uma imersão na irrealidade das ideologias, de valores estranhos àquela comunidade, unida pela mesma formação cultural. Entender esta formação, escandir os traços das culturas, identificar origens e evoluções é um trabalho que os colonizadores impedem de todo modo, com a força da violência física, econômica e da doutrinação, onde está a pedagogia colonial.

 

Iniciei esta reflexão sobre a eleição na Nicarágua com citação de Capistrano de Abreu, poderia fazê-lo com citação de Darcy Ribeiro, de Getúlio Vargas, de Leonel Brizola que conheceram verdadeiramente as necessidades e soluções dentro da cultura nacional para nossa até hoje incompleta independência.

 

O jornal comercial e antinacional “O Estado de S. Paulo”, na edição da segunda-feira, 8 de novembro de 2021, logo após não restarem dúvidas da vitória eleitoral de Daniel Ortega, frauda a verdade à página A10, de notícias internacionais, com a manchete: “Sem oposição, Ortega vence e pode manter poder até 2026 na Nicarágua”, fingindo ignorar que havia seis candidatos. Que os neoliberais já governaram o país e o deixaram pior a cada um de seus três mandatos.

 

O Estadão como toda esta mídia antinacional, editada e vocalizada no Brasil, apenas procuram criar ambiente para a nova invasão que o belicoso presidente estadunidense Joe Biden projeta, iniciando por impor sanções que afetem diretamente o povo nicaraguense. A vingança do ex-senador por um estado que é paraíso fiscal nos EUA: Delaware, e cujos atos são de que advoga a causa dos fabricantes de armas, desde vice de Obama.

 

As sanções pela falta de democracia, vinda de um país onde democracia é restrita à possibilidade de comprar em shoppings e supermercados é um escárnio a todos nós. Em especial a quem tenha sangue mestiço.

 

(*) Por Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

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