Cerca de 200 pessoas passaram hoje (20/8) pelo ato público em defesa do Palácio Capanema, no Centro do Rio de Janeiro. Representantes de associações de arquitetos e urbanistas, vereadores, jovens militantes da cultura de vários partidos, foram unânimes ao afirmar que “o Capanema é patrimônio histórico da arquitetura moderna brasileira e não pode ser leiloado, vendido ou cedido a particulares pelo governo federal”.

 

Para dar continuidade à defesa do Capanema, o vereador Tarcísio Motta (PSOL-RJ) anunciou que na próxima segunda-feira (23/8), às 10h, haverá uma “audiência pública na Comissão de Cultura da Câmara dos Vereadores do Rio para discutir a situação do patrimônio histórico nacional na cidade”.

 

A sugestão do presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), André Ceciliano, de comprar o edifício em parceria com o Estado do Rio, foi rejeitada pelo vereador Tarcísio. Para ele, “o Capanema é um edifício federal e como tal deve permanecer. Ali funcionam diversos órgãos da cultura nacional e essa proposta não faz o menor sentido”.

 

Atualmente, o Capanema passa por uma restauração e encontra-se vazio, mas é para lá que devem voltar o corpo técnico do Iphan que desenvolve ações voltadas para a proteção, difusão e identificação daquele patrimônio tombado. No local funcionam diversos órgãos – Funarte, Biblioteca Noronha Santos, representações dos Ministérios da Educação (MEC) no Rio de Janeiro, entre outros.

 

O Capanema foi construído entre 1937 e 1943, na gestão do Ministro Gustavo Capanema, durante o governo Getúlio Vargas, o Estado Novo. Com a transferência da capital para Brasília, o Palácio Capanema passou a ser ocupado por diferentes áreas do Ministério da Educação e Cultura.

 

O vereador Chico Alencar (PSOL-RJ) disse que o ato de hoje em frente aos tapumes do edifício “é prova da resistência popular aos vendilhões da nação”. E alertou: “Tirem as garras do patrimônio publico”.

 

O leilão do MEC está suspenso, mas nada garante que volte a ser cogitado, por isso a necessidade de manter o movimento em sua defesa.

 

A concepção do Palácio Capanema, inaugurado em 1945, reuniu os nomes mais famosos da arquitetura, do paisagismo e da arte brasileira do século XX. Assinaram o projeto do prédio de 16 andares os arquitetos Lúcio Costa, Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Afonso Eduardo Reidy, Ernâni Vasconcelos e Jorge Machado Moreira. Contou também com a consultoria do francês Le Corbusier. Os jardins suspensos foram planejados por Burle Marx, esculturas de Bruno Giorgi e os azulejos da fachada são de Cândido Portinari.

 

O edifício possui interessante implantação urbanística. Diferentemente dos edifícios vizinhos, o prédio sobressai-se solto no centro do terreno. Com inovador pilotis duplo, as pessoas podem circular pelo pavimento térreo em uma grande praça.

 

O Capanema é um dos primeiros edifícios a utilizar brise-soleil na fachada. Segundo Lucio Costa, esse prédio constitui “uma obra de arquitetura destinada a figurar daqui por diante, na história geral das belas artes como marco definitivo de um novo e fecundo ciclo da arte imemorial de construir”.

 

Fazem parte dessa luta pela preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), o Clube de Engenharia, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU-RJ), o Conselho de Engenharia e Agronomia do Rio (CREA-RJ), o Instituto Internacional de Arquitetos Paisagistas (IFLA) e o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos). Ainda fazem parte do movimento a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), os sindicatos dos engenheiros, dos arquitetos e o Movimento Ocupa MinC.

 

Poema de Vinicius – A propósito dessa polêmica envolvendo o histórico Palácio Capanema, publicamos aqui o enigmático poema de Vinicius de Moraes dedicado aos delicados azulejos de Cândido Portinari.

 

Azul e branco

 

Rio de Janeiro, 1946

 

Concha e cavalo-marinho

Mote de Pedro Nava

 

I

 

Massas geométricas

Em pautas de música

Plástica e silêncio

 

Do espaço criado.

 

Concha e cavalo-marinho.

 

O mar vos deu em corola

O céu vos imantou

 

Mas a luz refez o equilíbrio.

 

Concha e cavalo-marinho.

 

Vênus anadiômena

Multípede e alada

Os seios azuis

Dando leite à tarde

Viu-vos Eupalinos

No espelho convexo

Da gota que o orvalho

Escorreu da noite

Nos lábios da aurora.

 

Concha e cavalo-marinho.

 

Pálpebras cerradas

Ao poder violeta

Sombras projetadas

Em mansuetude

Sublime colóquio

Da forma com a eternidade.

 

Concha e cavalo-marinho.

 

II

 

Na verde espessura

Do fundo do mar

Nasce a arquitetura.

 

Da cal das conchas

Do sumo das algas

Da vida dos polvos

Sobre tentáculos

Do amor dos pólipos

Que estratifica abóbadas

Da ávida mucosa

Das rubras anêmonas

Que argamassa peixes

Da salgada célula

De estranha substância

Que dá peso ao mar.

 

Concha e cavalo-marinho.

 

Concha e cavalo-marinho:

Os ágeis sinuosos

Que o raio de luz

Cortando transforma

Em claves de sol

E o amor do infinito

Retifica em hastes

Antenas paralelas

Propícias à eterna

Incursão da música.

 

Concha e cavalo-marinho.

 

III

 

Azul… Azul…

 

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

Azul e Branco

 

Concha…

e cavalo-marinho.