Aprofunda racha governo-forças armadas

 

O vice presidente da República general Hamilton Mourão decidiu apoiar o presidente Bolsonaro na sua determinação de indicar o general Pazuello para cargo estratégico do governo a fim de fugir da punição a ele pelo comando do exército com base em regimento interno militar constitucional; por que Mourão mudou abruptamente de posição? Até semana passada dissera ser necessário punição exemplar ao ministro que tenta politizar as Forças Armadas; lembrou que o regimente ditaria o destino de Pazuello por ter, como general da ativa, manifestado, politicamente, em evento de apoio ao presidente; ir para a reserva remunerada seria o destino lógico de Pazuello; porém, agora, Mourão dá uma guinada de 360 graus, mudando da água para o vinho: ressurreição de Pazuello passa a ser apoiada por ele; vira-casaca ou não? A posição do general vice presidente fragiliza o comandante do Exército, general Paulo Afonso, propenso à punição exemplar de Pazuello, para manter a tropa em torno da sua autoridade; caso contrário a corporação pode virar casa de mãe joana; seu poder sobre o regimento para enquadrar o general Pazuello se esfumaçaria dentro das Forças Armadas; estaria comprometido o coração da corporação militar; a reviravolta política de Mourão joga o regimento na lata de lixo e estimula a transgressão a ele patenteada por Pazuello com apoio decisivo do presidente Bolsonaro.

 

 

Realpolitik de Mourão

 

Mourão, com sua realpolitik esperta, atiça tensão entre governo e forças armadas; o comandante do exército, Paulo Afonso, passa a não mais contar com o apoio do vice, que renunciou, astutamente, a sua própria sentença; num primeiro momento, apressou-se em garantir independência ao comandante Paulo Afonso, na tarefa de obedecer a Constituição, da qual deriva o regimento militar; num segundo instante, volta atrás e defende a nomeação dele para um cargo público-político que significa, na prática, fuga de Pazuello da punição dos erros que praticou por justamente forçar politização das forças armadas em evento público de apoio ao presidente; na medida em que apoia Pazuello convocado por Bolsonaro, rompe com o regimento militar, flexibilizando-o politicamente; é o abastardamento do regimento pelo presidente com apoio do vice contra o exército, tudo para livrar o general Pazuello, novamente, ministro do poder bolsonarista, de punição exemplar; na prática, Bolsonaro está dizendo para os militares que não quer que os comandantes punam os que o apoiam politicamente na corporação; Bolsonaro, assim, reforma na marra o regimento militar e abre-se ao perigo de anarquia militar com destroçamento da hierarquia.

(*) De César Fonseca, jornalista e editor, e publicado no site Independência Sul Americana