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Morre a poeta Lina Tâmega Peixoto

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Tão significativo quanto deixar como último legado um livro intitulado Prefácio de Vida é partir dela, a vida, no 1o dia de setembro, quando o Cerrado se derrama em flores de ipê roxo, rosa, branco, amarelo, ao olhar dos que precisam sair de casa para trabalhar em plena pandemia. É como dar um toque de mágico ao momento, para todos, tão difícil e sofrido. É como fazer um truque com imagens, que só poetas de primeira grandeza, como Lina Tâmega Peixoto, são capazes de fazer, sem ter planejado.

 

Lina pôs ontem de luto a poesia brasileira. Que o digam, sobretudo, poetas de Brasília, onde ela viveu desde os primórdios da cidade, e os de Cataguases, aonde nasceu e na juventude criou a revista Meia Pataca, que impulsionou e frutificou ainda mais o já fértil solo literário mineiro. É imensurável a perda desta mestra dos versos, também louvada em Portugal, onde estão suas raízes e as pesquisas que a ligaram literária e afetivamente à Cecília Meireles. Lina foi sua pupila e a ela dedicou o último livro, acima citado, publicado em 2010.

 

“Cataguases ! Cataguases ! / Um barco no rio Pomba / e uma menina que pesca / nas águas a própria sombra”, Cecília a descreveria em “Quadra quadro”, poema que antecede o prefácio “Cecília Meireles — estrela e abismo”, com que a própria autora homenageia a ilustre amiga nesse livro intitulado Prefácio de Vida. No texto, Lina conta como se conheceram e se mantiveram próximas e fraternas, até a morte de Cecília.

 

Grandeza – Atenta, grata e reverente a outros poetas, dos quais generosamente revelou também ter recebido lições, Lina em nada ficou a lhes dever. Pavimentou seu caminho na poesia com tal independência, criatividade e beleza no jogo das palavras, tendo a sensualidade como sua característica mais generosa, seu condão de feminilidade, que certamente desconcertou muitos dos poetas do seu tempo — mas não Drummond, que soube reconhecer e enaltecê-la por isso.

 

“Mas que beleza de dignidade erótica em ‘Vórtice’. É das coisas mais puras e nobres que tenho lido no gênero. Ela (a poesia do livro Entretempo) contém a dose de mistério essencial à boa criação lírica e ao mesmo tempo é documento de rara sensibilidade humana. Você deu uma tocante medida de sua alma e de sua capacidade de ver o mundo”, escreveu-lhe Carlos Drummond de Andrade.

 

Lina, jovem, foi grande amiga de Julieta, sua filha, e frequentava a casa do Poeta. Manuel Bandeira foi declaradamente apaixonado por ela. “Fui lendo e perguntando, por que essa mulher não é mais divulgada? A elegância, a singularidade, a maestria, tudo está ali”, Affonso Romano de Sant’Anna certeiramente escreveu a respeito de seu livro Entre Desertos.

 

Quanta história teria nos contado, das tantas que viveu ao longo de oito décadas plenamente vividas, como a cidadã que foi do mundo. Duas entrevistas exclusivas – uma para a TV Comunitária de Brasília, a outra, para uma “live” em que estaria rodeada de poetas — estavam pré-programadas e já aceitas por ela, às vésperas de adoecer. Muito infelizmente para nós, não deu tempo de serem feitas.

 

Ofício – Mas a poeta — que exerceu o magistério na Fundação Educacional do DF e na UnB; que atuou na Funarte, no finado INL e no Iphan; que foi pesquisadora do lirismo peninsular em Lisboa; que foi uma das fundadoras da Associação Nacional dos Escritores (ANE-DF) –, nos fez ricos herdeiros de seus poemas e de ensaios críticos, estudos, dela e sobre ela, em livros, antologias, sites, blogs, revistas, suplementos literários; também, de um livro infanto-juvenil em verso: Os bichos da Vó.

 

Lina nunca parou de escrever. Intelectualmente vital, de espírito admiravelmente jovem em seus 89 anos, estava com uma fileira de encomendas e trabalhando nelas, quando a pneumonia fatal a surpreendeu. Porém, especialmente a nós brasilienses e a mineiros, além da tristeza, do pesar imenso, resta ainda o orgulho de um seu belíssimo depoimento, datado de 1958, como habitante da Capital em construção.

 

“Viver na antevéspera de Brasília, em casa construída de madeira de pinho, transitório teto que se prolongou por sete anos, representou, para mim, estados intensos de expectativas, contemplação, êxtases, participação, sofrimentos e mistérios. O horizonte é inacessível pela falta de montanhas, mas coube ao amor — junto à paisagem seca e árida, mas estufada, muitas vezes, de flores e ao brilho branco e ardente do Cerrado — incorporar ao desenho de minha vida a plenitude do Planalto Central, onde moro até hoje. Firmo-me neste Altiplano com fios de sedução, presos às raízes mineiras, para nunca ser traída no meu jeito de viver”.

 

Um poema de Lina

 

MITO

 

A paisagem

que se rompe deste sonho

cobre minha carne

com crespas escamas de paixão.

Sobreposto e amado,

um deus toca em meus seios

e, súbito, um mito

pulsa no arfar de meu dorso.

 

A entremadura noite de Atenas

acorda minha nudez de existir.

 

(Lina Tâmega Peixoto, em 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor. RJ: Edições Galo Branco, 2008).

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