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Morador de rua detalha operação clandestina da PM em Itajaí: “Falaram que iam nos quebrar”

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Um morador de rua contou à repórter Morgana Fernandes, da NSC TV, como foi a abordagem da Polícia Militar de Itajaí, que tirou dezenas deles da cidade na madrugada da terça-feira (31). A ação foi definida pelo padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo, como “higienista”, cujo objetivo é tirar pobres das ruas em cidades turísticas.

 

Segundo o relato do homem, que não terá o nome divulgado, a abordagem ocorreu sem qualquer justificativa. Ele conta que estava com os demais moradores de rua na região do Matadouro quando viaturas da PM chegaram. Os agentes teriam mandado que eles se sentassem no chão encaixados uns nos outros, como ocorre durante revistas em unidades prisionais.

 

“[Nos trataram] que nem bandido mesmo”, conta a vítima.

 

 

Conforme o morador, por cerca de 20 minutos os militares ficaram no local esperando que outros moradores de rua se aproximassem. Quando isso ocorria, eram colocados sentados juntos com os primeiros abordados. Até que em determinado momento os PMs ordenaram que todos fizessem uma fila e começassem a caminhar rumo à BR-101, sentido Balneário Camboriú.

 

 

Quem ousou questionar as ordens, apanhou, conta o morador. Ele mesmo teria sofrido lesões nas costas por causa dos golpes de cassetete que levou dos policiais. Por quase duas horas eles caminharam às margens da rodovia, percorrendo um trajeto de cerca de sete quilômetros, sendo o tempo todo acompanhados pelas viaturas da PM, como mostra o vídeo abaixo.

 

 

“Bateram em um monte de gente. Teve gente que ali no Matadouro mesmo já saiu tonto, deu até dó. Jogaram no chão e tudo”, conta.

 

 

Um dos moradores de rua teria sido atingido por uma das viaturas durante o trajeto, de acordo com o relato. O grupo teria sido “liberado” quando chegou no acesso a Balneário Camboriú. Mesmo assim, alguns minutos após o fim da “escolta”, uma viatura teria passado novamente por eles. A ordem dos agentes era que seguissem para qualquer outra cidade, mas não voltassem a Itajaí.

 

 

“Eles falaram que se pegassem a gente de novo aqui em Itajaí iam nos quebrar e o outro falou que quebrar seria pouco. Nem tem explicação para falar o sentimento de acontecer uma coisa dessa com a gente”, desabafa o homem.

 

 

A secretária de Assistência Social de Balneário Camboriú disse ter ficado estarrecida com o que chamou de “cena horrorosa” ao perceber a situação ao qual os mais de 30 moradores de rua tinham sido submetidos. Foi a equipe dela que acionou o Serviço Social de Itajaí, para que buscasse os moradores e prestasse auxílio. Segundo a gestora, os homens e mulheres do grupo estavam feridos, com sede e fome.

 

 

Relembre o caso

 

 

O caso chegou ao conhecimento da prefeitura de Balneário Camboriú por volta das 2h desta terça-feira (31) e uma equipe técnica ficou com os moradores de rua até as 8h30min, quando profissionais de Itajaí chegaram. A essas horas, parte do grupo já tinha dispersado. Cerca de 20 pessoas foram levadas ao Centro Pop de Itajaí para atendimento e auxílio.

 

 

A Polícia Militar disse que não se tratava de uma operação institucional — embora seja possível observar ao menos sete viaturas — e frisou que a corregedoria vai apurar os fatos.

 

 

A colunista Dagmara Spautz trouxe com exclusividade a informação de que apenas 12 horas antes da operação clandestina que escoltou pessoas em situação de rua de Itajaí a Balneário Camboriú, a Polícia Militar havia recebido denúncia de agressões recorrentes de policiais a pessoas que vivem nas ruas em Itajaí. A representação foi feita pelo Centro de Direitos Humanos da cidade.

 

 

Em entrevista à colunista e ao repórter Mateus Boaventura na CBN Floripa, o coordenador da Pastoral de Rua de São Paulo, padre Júlio Lancelotti, levantou questionamentos sobre o que inspirou a ação da PM e com autorização de quem ela foi executada. Disse que a prática é cada vez mais comum no Brasil, cujo objetivo é tirar moradores de rua das cidades turísticas.

 

 

Como liderança nacional no combate à aporofobia – aversão a pessoas pobres – ele disse que vai levar o assunto para o Ministério da dos Direitos Humanos e Ministério da Justiça para que a Polícia Federal possa investigar de quem é a responsabilidade da ação.

 

 

“Tem alguém que financiou, alguém motivou isso. Não é uma coisa espontânea. Sete viaturas, com tantos policiais fardados em serviço de repente fazem isso. Isso é financiado por alguém, há em jogo grupos poderosos que querem fazer uma higienização da cidade considerada turísticas e tratar as pessoas em situação de rua como um lixo”, avalia.

 

(*) Por Talita Catie, DCM

 

 




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