O ministro da Educação, o pastor Milton Ribeiro, nomeou, nesta quarta-feira (10), como coordenadora de Materiais Didáticos uma professora aliada ao movimento ideológico, fundamentalista e político-partidário Escola sem Partido

 

 

O Escola sem Partido é um movimento político-partidário e religioso fundamentalista, que alega haver doutrinação política e ideológica nas escolas públicas brasileiras para justificar a privação de um dos maiores sistemas de educação do mundo.

 

 

Na sua metodologia, o Escola sem Partido, mais conhecido como Lei da Mordaça, atua perseguindo a liberdade de cátedra, professores LGBTQIA+, entre outras formas de perseguição a pessoas e pensamentos políticos diferentes dos dele. Defende uma Base Nacional Curricular Comum (BNCC) não científica nem acadêmica e sim, com base em princípios religiosos fundamentalistas.

 

 

 

 

 

A indicação da professora Sandra Ramos foi vista, por técnicos da Pasta, como um movimento de retomada de espaço por parte da chamada ala ideológica — o conteúdo dos livros didáticos sempre foi alvo dos grupos de apoio ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e dele próprio e de grupos fundamentalistas das igrejas cristãs.​

 

 

 

 

 

A nomeação saiu nesta quarta, no Diário Oficial da União (DOU). Funcionários do MEC que não quiseram se identificar indicam, em conversas reservadas, que se trata de um retrocesso e um risco para os materiais didáticos, política central no sistema educacional brasileiro.

 

 

“A nova coordenadora-geral dos livros didáticos no MEC é colaboradora do Escola Sem Partido, movimento que incentiva a perseguição a professores. A boiada está passando”, publicou nas redes sociais a presidente do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz.

 

 

Escola sem Partido busca recompor o grupo de Olavo Carvalho no MEC

 

 

 

A ala ideológica do MEC é liderada pelo secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, aluno do escritor Olavo de Carvalho. O grupo tem entre suas prioridades promover uma guerra cultural contra pautas associadas à esquerda

 

 

Nadalim ainda trabalha, internamente, para enfraquecer o ministro Milton Ribeiro e parte da equipe escolhida por ele. O objetivo é recompor o grupo de olavistas no órgão.

 

 

 

Foi ele quem encabeçou as alterações realizadas no edital do Programa Nacional do Livro Didáticos (PNLD). A nova versão do edital para compra de livros dos Anos Finais do Ensino Fundamental retirou menções à agenda da não violência contra mulher, LGBTQIA+ etc. Por exemplo, a menção da não violência dos critérios de exclusão de obras, o que gerou questionamentos de políticos.

 

 

A intervenção foi feita à revelia da equipe da Secretaria de Educação Básica do MEC, que também não bancou a indicação da nova coordenadora, segundo servidores.

 

Evangélica, fundamentalista e conservadora, Sandra Ramos é pedagoga e professora da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Ela concorreu à reitoria da instituição, em 2020, numa chapa alinhada ao governo Bolsonaro, mas não venceu.

 

Ramos tem um histórico de colaborações com o Escola sem Partido, fez lives recentes com um dos fundadores do movimento, o advogado e empresário Miguel Nagib, e também assinou artigos em um blog que faz críticas com viés ultraconservador ao material didático e à Base Nacional Curricular Comum.

 

 

Entre as críticas no texto do blog há a preconização de que a base curricular deveria excluir menções à cultura africana e indígena e questões relacionadas à violação de direitos humanos na ditadura militar (1964-1985). Ainda há a sugestão para incluir comparações da teoria de Charles Darwin com o criacionismo.

 

 

O texto, do fim de 2018, foi assinado em conjunto por Ramos, pela atual ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, e pelo professor Orley Silva, que já fez parte da equipe do MEC no governo Bolsonaro.

 

A professora critica frequentemente a chamada “ideologia de gênero”, termo nunca adotado por educadores.

 

Antes mesmo da nomeação já havia no MEC apreensão com a chegada de Sandra Ramos para a coordenação-Geral de Materiais Didáticos. As compras de obras são feitas pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), mas é no ministério que são feitas a definições pedagógicas da política.

 

 

O cargo é ligado à diretoria de Articulação e Apoio às Redes da Secretaria de Educação Básica do ministério. Essa subpasta é comandada por Izabel Pessoa, servidora de carreira e que foi uma escolha pessoal de Milton Ribeiro. Ela substitui Ilona Becskeházy, que havia chegado ao cargo por decisão do ex-ministro Abraham Weintraub com apoio de olavistas.

 

 

Funcionários do MEC disseram à Folha, em condição de anonimato, que Nadalim tem agido para desgastar não só Izabel Pessoa como também o próprio ministro.

 

 

A publicação recente de texto no site bolsonarista Brasil Sem Medo apontando que Ribeiro seria demitido foi interpretada dentro do MEC como mais uma manobra do secretário de Alfabetização para minar a gestão de Ribeiro. Nadalim já apareceu como sócio desse site, ligado ao próprio Olavo de Carvalho, e mantém forte interlocução com os gestores do portal.

 

 

Funcionários dizem que, pela distância da rotina técnica, o ministro Milton Ribeiro teria aceitado a indicação de Sandra Ramos apenas por ela ser religiosa, sem questionamentos.

 

 

Além da equipe de Alfabetização, Nadalim tem se aproximado da assessora especial do MEC Inez Augusto Borges, religiosa que defende a adoção de princípios bíblicos no ensino.

 

A Folha revelou no início de 2019 que, na gestão do ex-ministro Ricardo Vélez, houve a supressão, em um edital de livros, de trechos como o compromisso com a agenda da não violência contra as mulheres e a promoção das culturas quilombolas e dos povos do campo. O MEC voltou atrás na ocasião e disse que se tratava de um erro. No mês passado, o edital do PNLD 2023 trouxe as mesmas alterações.

 

 

Também saiu dos critérios de exclusão de obras a necessidade de abordar a temática de gênero igualitária, “inclusive no que diz respeito à homo e transfobia”. O edital atual não trata da questão de gênero e fala de forma genérica sobre o respeito a todos os brasileiros.

 

O governo Bolsonaro já atuou também na censura de temas no Enem. Parecer de uma comissão criada para fazer um pente fino ideológico nas questões do exame mostra que foi sugerido a troca do termo “ditadura” por “regime militar” em um item da área de Linguagens. O tema não foi abordado nas duas edições do Enem sob o governo Bolsonaro.

 

 

O MEC e a professora Sandra Ramos foram procurados pela reportagem, mas não responderam aos pedidos de entrevista.

 

Do UOL com edição do JBP