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Matadouro Brasil

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(Notícia sobre um genocídio tropical)

 

Humano não é o impulso

de partilhar a sorte de alguém,

cujo rosto nunca vimos,

mas por algum sinal do sangue

na parede ou no destino

reconhecemos irmão?

 

Quem de nós ignora

que morremos um pouco

no corpo de quem tomba

ao nosso lado, alvo de um balaço,

ou sufoca a caminho do hospital?

 

Afinal, o que foi feito do berço

de águas e verdes e afetos

que imaginávamos cultivar?

O que foi feito dos sons

do surdo e do tamborim,

da sanfona, triângulo e zabumba,

da viola sertaneja

que nos acalentaram

e desenharam o mapa

dos nossos corações?

 

Devastado pela dor e pelo ódio,

já não o reconhecemos como o lugar

que moldamos para nascer e amar

na geografia afetiva da alma.

 

A palavra do poeta seja sopro

sobre a brasa adormecida

de nossa indignação.

E possa acender as chamas

da ira diante do intolerável.

 

Não temer a ira!

A sagrada explosão da ira

diante do injusto

é que nos faz humanos!

 

Pergunto aos palácios de vidro

erigidos pelas mãos

dos pedreiros candangos:

que país será construído

sobre os ossos dos povos

condenados ao matadouro?

 

Guarani, Kaiowá, Yanomami,

Krenak, Cinta-larga, Tikuna,

Karajá, Suruí, Caiapó, Rikbatsa,

Tapirapé, Kaxinawá, Parakanã, Kamaiurá…

 

Os Xavante,

sobreviveram ao facão,

ao garimpo e aos massacres.

Às roupas contaminadas com sarampo,

à ferocidade do latifúndio,

devorando veredas e buritizais.

Sobreviverão alcançados

pela maldição do vírus

e pelo silêncio cúmplice dos genocidas?

 

Ouço na Esplanada

sob o violento azul do inverno

de nossas desesperanças

um difuso clamor.

Que minha voz ecoe o pranto

das mães Yanomami

em busca dos corpos

de seus filhos enterrados.

 

A morte aqui tem nome e lugar:

favelas, mocambos, aldeias, quebradas.

 

O inverno já nos alcança

enquanto ainda buscamos flores

da primavera pública que se perdeu…

para coroar a tumba dos encantados

nessa semeadura de cruzes.

 

Hoje, cinquenta e seis mil mortos,

sufocados pela peste,

batem à porta do genocida.

Quem responderá pelas vidas

que a indiferença

transformou em cruzes?

 

O holocausto é real.

Os nomes são reais.

A dor é real. O luto é real.

Quem responderá por eles?

 

Sobre nós o sol

e o olho do drone.

O olho do drone não chora,

não conhece o sal das lágrimas.

 

Registra a morte, apenas.

Uma geométrica colmeia de assombros

cavada no barro vermelho

do coração do país.

 

O olho do drone registra o plantio

para entregar um dia aos segadores

a sinistra colheita da morte.

 

O país dos abraços

aprende na dor

das distâncias medidas,

um novo idioma de gestos:

Eu te amo,

mas não te toco.

Eu te amo

e porque te amo

não te toco.

 

Contra o escárnio,

que a palavra do poeta

seja sopro e se faça vento

sobre a brasa adormecida

de nossa indignação.

 

Pedro Tierra é um poeta brasileiro

(Poema lido na Cerimônia de Encantamento na Esplanada dos Ministérios, no domingo, 28/6/20 – Fora Bolsonaro genocida)
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