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Marte e a paz perpétua na Terra

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São cinco tripulantes: uma americana (Hilary Swank), um russo, uma chinesa, um indiano e um ganense naturalizado canadense – órfão de pais assassinados

 

Vivemos em uma época em que, para muitos, um sanduíche de pão preto com alface pode significar a própria natureza. Mas, se o sanduíche é solicitado no celular, o pedido é imediatamente registrado em nossos perfis digitais, para o que der e vier. Qualquer preferência que tenhamos, por menor que seja, é rastreada e catalogada em imensos data centers espalhados pelo mundo, identificando nossos anseios e frustações, desejos e interdições. Neste caso, ponto para o perfil ambientalista.

 

São meia dúzia de empresas globais que se aproveitam desses dados, à nossa revelia: os usual suspects, Google, Facebook, Amazon, Apple, Microsoft… e novos entrantes, como Uber e Netflix. Essa turma destronou petroleiras e fabricantes de automóveis, tornando-se as maiores empresas do planeta. O que eles fazem com a avalanche de dados é segredo guardado a sete chaves: por meio de fórmulas matemáticas complicadíssimas e da indefectível publicidade, ganham montanhas de dinheiro.

 

Os famosos algoritmos da Netflix, por exemplo, captam nossas intempestivas preferências por meio da análise dos cliques que disparamos procurando um filme ou uma série: no tempo que gastamos avaliando os conteúdos, na paciência em aguentar uma narrativa maçante ou na obsessão em assistir um episódio depois do outro – um loop infernal, no-end story. Assim, numa bela noite estrelada, surge na cartela da programação infinita a série Away, sobre uma missão ao planeta vermelho.

 

Não é um futuro longínquo: Trump garante que a NASA vai mandar “americanos” para Marte nos próximos quatro anos, os chineses lançaram em julho último uma espaçonave para pousar no planeta vermelho com veículo Rover, e até os Emirados Árabes Unidos colocou uma sonda no espaço, também em julho, para orbitar no cobiçado corpo celeste vizinho. Rússia e Europa adiaram para 2022 plano conjunto de lançar um robô Rover. E o atual star do capital privado, Elon Musk, tenciona enviar a Marte, até 2050, 1 milhão de pessoas, lançando três foguetes Starship por dia e criando “muitos empregos”!

 

Marte tornou-se palpável, pelo menos politicamente. A Netflix não perdeu tempo e produziu Away, construindo uma ficção a um só tempo científica e melodramática, ao gosto dos cliques que os telespectadores generosamente forneceram à rede. A narrativa oscila entre os percalços da viagem e os dramas pessoais dos cinco tripulantes, cada um em sua particularidade cultural e emocional, mostrados em flashback. Até aí morreu Neves, diria a sabedoria popular: todos sabemos que o espaço exterior já foi dramatizado inúmeras vezes, sobretudo a partir de 2001, uma odisseia no espaço.

 

 

A diversidade da equipe – cinco origens diferentes, resultado de um acordo internacional – e, sobretudo, a gestão dessa diversidade, é o traço inovador da série. Uma americana, um russo, uma chinesa, um indiano e um ganense naturalizado canadense – órfão de pais assassinados – compõem uma espécie de entente científica-exploratória programada para plantar a semente da vida no planeta vermelho. O comando é da americana (Hilary Swank), mas as decisões são consensuais e compartilhadas. Um modelo que parece emanado da paz perpétua kantiana, onde a razão tem mais força do que o poder.

 

Kant, quem diria, acabou em Marte. O filósofo de Königsberg, cuja regularidade de horários ajudava seus concidadãos a acertar os relógios, afirmava que é obrigação da humanidade buscar a paz, mas que esse dever “não pode ser instituído ou assegurado sem um contrato dos povos entre si”. Um tal contrato, continua Kant, seria feito por meio de uma liga de tipo especial, que se pode denominar liga de paz […] que deveria ser distinta do tratado de paz em que este simplesmente procura pôr fim a uma guerra.

 

Pois a liga kantiana, finalmente, começou a materializar-se, pelo menos no mundo etéreo da viagem interplanetária, conforme, de alguma maneira algorítmica, às expectativas de uma parcela da audiência digital. As interações entre os personagens são, em última análise, a matéria ficcional da série, um espaço de diálogo que se eleva acima dos interesses imediatos das nações e projeta-se no espaço interestelar. Em momento de tensão, o russo diz à chinesa: “Pátria é uma ideia… fronteiras não existem”.

 

Os russos sempre cultivaram raízes místicas e filosóficas em seu imaginário cosmológico, apesar dos pesares. A Guerra Fria remou contra esse idealismo, naturalmente. Para Nikolai Fiódorov, pensador cristão ortodoxo do século 19, a colonização do espaço poderia levar à perfeição da raça humana, com uma existência despreocupada e imortal. Uma variante mística de Kant.

 

A despeito do infantilismo de Trump e das reações dos competidores, parece existir entre os cientistas que se debruçam sobre a alteridade espacial um nível de comunicação que extrapola mundaneidades empobrecedoras. Away atualiza essa possibilidade para o reino ficcional das transmissões over-the-top, como são conhecidos os provedores de conteúdo tipo Netflix. Oxalá Kant prevaleça no final da série, nem que seja na segunda temporada!

 

E o Brasil, como é que fica nessa empreitada? Pelo menos já temos um Ministro-astronauta…

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