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Manoel Carvalho, band leader batuta

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Capa da edição nº 10 do Guia Musical de Brasília, que circulou em junho
Capa da edição nº 10 do Guia Musical de Brasília, que circulou em junho

 

A Brasília Popular Orquestra (Brapo), uma das mais antigas big bands do Brasil, completa 40 anos no próximo dia 28 de outubro. Seu fundador, o maestro Manoel Carvalho de Oliveira, 74, continua firme à sua frente, tentando voltar à normalidade na pós-pandemia. 

 

O maestro recebeu o editor e o publisher do Guia Musical de Brasília na sua aprazível casa próxima à Ermida Dom Bosco, cercada por uma densa mata com córregos e bichos, onde ele costuma fazer caminhadas. Foi um papo inspirador. 

 

De início, o maestro contou a sua origem em Palmares, Pernambuco, filho, entre uma turma de onze, de um ferroviário que arranhava o violão e tinha ligação com a banda de música municipal. Quando completou nove anos, Manoel ganhou uma clarinetinha e a ordem para começar a estudá-la. Logo um vizinho que tocava saxofone foi contratado para lhe dar aulas. Com a demonstração de certa facilidade, iria ganhar o próprio saxofone aos 13 anos. 

 

Foi nessa época que ele passou a estudar com o maestro paraibano José Ramos da Justa, que lecionava música e canto orfeônico. Diz Manoel que José da Justa nunca lhe deu uma aula de clarineta. Preocupava-se muito mais com as lições de solfejo e com a “essência da música”. Dispunha de uma vasta biblioteca musical. “Era um músico completo, compositor, arranjador, um gênio perdido no interior de Pernambuco. Foi o melhor professor de música que eu tive na vida”, crava. 

 

Logo em seguida o nosso maestro cogitou a formação de uma banda, provavelmente inspirado na Jovem Guarda.  O nome foi emprestado do band leader ítalo-americano Henry Mancini, pioneiro em levar o jazz para as trilhas de cinema. Mesmo sendo o caçula da turma, o nome que sugeriu pegou: “Os Mancines”, com “e” mesmo. Durante cinco anos a banda fez grande sucesso, percorrendo várias cidades de Pernambuco e Alagoas. Uma vez, acompanhou um dos ídolos da Jovem Guarda, Vanderley Cardoso. 

 

Fraseado – O gosto e o conhecimento musical do maestro continuariam, em casa e nas turnês dos Mancines. Em casa, seu pai continuava comprando discos de 78 rotações, incluindo os vozeirões de Orlando Silva, Nelson Gonçalves e Ângela Maria, sempre acompanhadas por orquestras brilhantes. (Aqui o maestro imita um fraseado de acompanhamento do Nelson Gonçalves com um clarone, a clarineta baixo: “totot.. ototototo… tototo”. É claro que todos nós rimos).   

 

O palco da Rádio Cultura de Palmares também serviu para o aperfeiçoamento dos Mancines. Seu dono, Paulo Marques, convidava a turma para ensaiar no auditório e quando alguma música ficava pronta, ele pedia: “Vamos jogar no ar”!

 

A banda de música municipal, conta Manoel, tinha ligação com a prefeitura e com a Great Western, a companhia inglesa que explorava a rede ferroviária de Pernambuco. “Os ingleses eram muito ligados à música, e fizeram lobby para convidar um sargento da PM do Recife para ser o regente da banda, a Banda 15 de novembro”. A manobra deu certo. Logo chegou a Palmares o sargento Getúlio, que além da regência da banda, assumiu também o posto de delegado da polícia local. “O Getúlio era um cara espetacular. Foi meu segundo pai, inclusive. Ele acompanhou meu crescimento, a minha trajetória. Mas eu só tinha 14 anos, e meu pai ficava preocupado. Daí ele disse ‘Deixe o menino aproveitar seu tempo’”. 

 

“Tempos depois – continua o maestro –, o Getúlio me perguntou se eu não queria um trabalho mais definitivo do que a banda, ‘quem sabe fazer o concurso para a banda da PM no Recife? Se quiser eu te aviso quando você completar 18 anos’. Foi o que aconteceu. Quando eu completei a idade ele mandou me chamar, eu fiz o concurso. Era um banda enorme, mais de 100 homens. O regente pediu para eu tocar alguma coisa, eu toquei uma polca do Jair Pimentel, a Risada da Chiquinha – pápápápá rapapá papá! Como já dominava o palco, foi fácil. O pessoal parou, gostou, aplaudiu. Daí o regente perguntou se eu lia partitura, e pediu para eu pegar uma na estante, antes de me mandar fazer o teste escrito. Resultado: fui aprovado e contratado como terceiro sargento”!

 

Manoel trabalhou ano e meio na banda da PM, alternando os finais de semana com os Mancines em Palmares, a 100 km de distância. Só saiu de lá quando se mudou para Brasília. “Certo dia um oficial da PM, o Soares, um pernambucano, mandou um aviso procurando candidatos para entrar na banda da PM que ele estava organizando em Brasília. Os candidatos deviam se apresentar na casa da mãe dele no Pina, um bairro do Recife. Eu fui, ele mandou eu tocar algumas coisas, e no final fui aprovado”.  Manoel teve que pedir demissão da PM e despedir-se da família e dos amigos, mas o mais difícil foi inventar uma desculpa para encerrar o namoro com uma mulher mais velha do que ele. Disse que iria para Brasília fazer um “curso de aperfeiçoamento”. 

 

O maestro chegou em Brasília em 1968, quando a cidade tinha apenas oito anos desde a inauguração. “Muita poeira, muita coisa nova, tudo muito vazio. O aeroporto ainda era de madeira. Uma aventura, com muita esperança”.  Ele ficou hospedado no hotel de trânsito da Base Aérea quase um ano. Estava terminando o científico e tinha ideia de fazer engenharia, embora não fosse bom de matemática. Fez um acerto para rachar a gasolina do fusquinha de um colega que também estudava à noite, no Colégio Elefante Branco. A banda da PM de Brasília, diz, era uma das melhores do País. Participava das solenidades oficiais, inclusive da posse do general Costa e Silva. 

 

Santoro – Para não ficar parado na Base Aérea, ele resolveu continuar estudando à noite, Ciências Econômicas, na UDF. Surgiu então a oportunidade de fazer o curso de clarineta na UnB. O professor, Gonzaguinha, montou o curso mas faltavam alunos. O problema é que o curso era de dia. Quando descobriu que um regente da banda da PM estava cursando música na UnB, perguntou-lhe se não poderia obter uma autorização para fazer o mesmo. A autorização foi concedida. Em princípio, ficou como aluno especial, depois matriculou-se regularmente, aproveitando créditos do curso na UDF. Quando estava concluindo o bacharelado, descobriu que precisava da licenciatura para fazer o concurso da Escola de Música de Brasília. Tomou providências e completou as matérias necessárias. Em seguida surgiu a oportunidade para integrar a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, criada em maio de 1980 pelo maestro Cláudio Santoro, de quem havia sido aluno na UnB. Obviamente, teve que se desligar da banda da PM. 

 

O maestro Manoel Carvalho lecionou durante 30 anos na Escola de Música, de início como professor temporário. Sob o comando do maestro Levino de Alcântara, fundador da escola, organizou bandas sinfônicas com as turmas matutina, vespertina e noturna. A organização das big bands tornou-se inclusive disciplina regular nos tradicionais Cursos Internacionais de Verão. Depois, na gestão de Carlos Galvão, incubou ali mesmo a Brasília Popular Orquestra (Brapo), da qual participaram vários professores da Escola. Desde o início a Brapo conheceu o sucesso. Tocou na  Sala Martins Pena do Teatro Nacional, e sempre se apresentava no antigo restaurante Moinho. 

 

Quem teria inspirado o nosso maestro para criar a Brapo? O primeiro nome que aparece, claro, é a Orquestra Tabajara, comandada durante 70 anos pelo maestro Severino Araújo. Também foram referências as bandas dos maestros Cipó e Nailor Proveta. 

 

À queima-roupa, perguntamos quem seriam os seus três compositores favoritos? “Clássico ou popular?”, pergunta ele. “Compositores de música boa”, provocamos! O maestro ri e carimba: “Duke Ellington é o carro-chefe, um gentleman!”. Menciona também Stan Kenton, Woody Herman, Quincy Jones, e só depois cita Glenn Miller e outros maestros “mais comerciais”, como Paul Mauriat e Ray Conniff. 

 

Nossa conversa chega ao fim. Com grande paciência o maestro nos convida para mostrar os fundos de sua casa, voltados para a exuberante mata referida no início deste texto. A gente agora compreende por que o trombonista paraibano Radegundis Feitosa costumava dizer que Manoel Carvalho de Oliveira “é tão calmo que dá sono em pé de maracujá”. Com seu jeito de professor nato, disposto a compartilhar sua rica experiência de vida com os interlocutores, é óbvia a razão do maestro ser digno de tanta admiração por parte de dezenas de músicos de Brasília.  

 

(*) Por Antônio Carlos Queiroz (ACQ) – Guia Musical de Brasília n° 10.

 




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