A sacralização da palavra impressa, com o correspondente fetiche pelos livros, é um fenômeno antigo, potencializado pela invenção da prensa mecânica no século XV. Antes, só os muito ricos possuíam livros, objetos raríssimos, copiados um a um a mão. A interpretação deles, então, era privilégio de homens muito poderosos.

No caso da Bíblia, esses caras se diziam capazes de desvendar a mente de Deus e, na condição de seus embaixadores plenipotenciários, impunham o domínio político sobre as massas ignaras e supersticiosas. Em vez de alguma Constituição Cidadã, exibiam as Escrituras Sacralizadas!

Livros sempre foram usados como armas. Na Europa da Idade Média, quando o continente ainda era disputado por mouros e cristãos, poucos conventos possuíam uma Bíblia completa. Surgiram então as “bíblias romanceadas”, mais concisas, paráfrases da Vulgata ou de paráfrases anteriores, como a Historia Scholastica de Petrus Manducator, muito mais eficientes do que a versão canônica na vulgarização da doutrina cristã e no combate aos infiéis islâmicos ou judeus.

Para redigir essas linhas andei folheando a primeira parte de um desses artefatos, o Pentateuco da Bíblia Medieval Portuguesa (@ Heitor Megale), provavelmente composto por volta de 1320, em galego, e foi muito divertido encontrar 15 menções de Jesu Christo logo no Gênesis. Algumas bíblias romanceadas mesclavam o Gênesis com o Apocalipse numa espécie de resumo executivo do Textão Sagrado.

Ora, não foi à toa que o Karl Marx disse que as ideias tornam-se forças materiais quando ganham as massas organizadas. E é exatamente por essa razão que me preocupa o fetiche dos livros e a sacralização da palavra impressa, agora também digitalizada.

Atenção: O Capital do Marx, A Pedagogia do Oprimido do Paulo Freire, e a Areopagítica: Discurso Sobre a Liberdade de Expressão, do John Milton, são livros.

Livro, segundo o Houaiss, é (1) uma “coleção de folhas de papel, impressas ou não, reunidas em cadernos cujos dorsos são unidos por meio de cola, costura etc, formando um volume  que se recobre com capa resistente, e (2) obra de cunho literário, artístico, científico etc. que constitui um volume [Para fins de documentação, é  uma publicação não periódica com mais de 48 páginas, além de capa.]”

Também são livros, portanto, o Mein Kampf, do Adolf Hitler, O Imbecil Coletivo, do Olavo de Carvalho, e Contra a Maré Vermelha, de Rodrigo Constantino.

O grande Monteiro Lobato, criador da Emília, a pirralha mais genial do Brasil (cujo nome é uma homenagem à esposa do educador Anísio Teixeira),  decretou que “uma nação se faz com homens e livros”. Bobagem das grandes! Pra começo de conversa, uma nação se faz com homens e mulheres, sem discutir aqui os gêneros, né! E depois, como é fácil perceber, livros servem também como armas de destruição em massa…

Estão abertas as inscrições para o debate!

(*)  Antônio Carlos Queiroz (ACQ), jornalista e bibliófilo