O vereador Lindbergh Farias, atual líder da bancada do PT na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, fala, nesta entrevista ao site do jornal Brasil Popular, que a principal missão de seu mandato é buscar solução para o enfrentamento da pandemia do coronavírus e da consequente crise econômica no município.

 

Para derrotar Jair Bolsonaro, Lindbergh defende a “união das esquerdas em torno de um projeto de reconstrução do Brasil, da soberania nacional e da geração de empregos”.

 

Para o vereador, “o neoliberalismo perverso que vem sendo aplicado no nosso país [pela dupla Bolsonaro-Paulo Guedes] tem gerado consequências sociais graves e destruição da economia do Brasil. É necessário diálogo com amplos setores [políticos e sociais] que tenham compromisso com a soberania nacional e a geração de empregos”.

 

Sobre a crise que se estabeleceu no Rio de Janeiro, Lindbergh disse que o governador afastado Wilson Witzel [que está indo embora com o julgamento de seu impeachment], o ex-prefeito Marcelo Crivella [que já se foi] e Bolsonaro, “que logo chegará a sua vez”, são os responsáveis pela destruição do sistema cultural do Rio de Janeiro. “Eles odeiam a cultura, mas o povo do Rio jamais vai se deixar dominar por essa corja, produtora de mentiras e falsidades”, conclui o vereador.

 

A seguir, a íntegra da entrevista com Lindbergh Farias, eleito com 24.912 votos:

 

O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade vocacionada para a indústria do turismo como geradora de emprego e renda. O que ainda pode ser feito em termos de infraestrutura para a retomada da tradição do Rio como cidade da cultura, do carnaval, do esporte, durante e após a pandemia?

 

Lindbergh Farias – É importante ressaltar que além do turismo o Rio também é um grande polo de serviços, visto que aqui estão sediadas grandes estatais, como Petrobrás e Eletrobrás, assim como é o Estado que concentra a maior produção do Pré-Sal. Temos também o setor naval que é um grande empregador e está em crise atualmente por causa da política econômica de Paulo Guedes e Bolsonaro, que estão encomendando plataformas de petróleo em outros países e levando os empregos daqui para fora.

 

Em relação à cultura é necessário buscar formas de incentivar a manutenção dos espaços culturais existentes permitindo que os trabalhadores possam ter uma forma de auxílio para poder atravessar o período de pandemia, assim como os trabalhadores do carnaval. Em relação aos esportes, temos um Parque Olímpico que foi completamente abandonado pelo governo Crivella e é urgente que eles sejam ativados para atender a população do Rio, dando prioridade aos alunos de escolas públicas do município, assim como é fundamental a reativação das Vilas Olímpicas para que nossos jovens tenham atividades esportivas.

 

O governador afastado Wilson Witzel e o ex-prefeito Marcelo Crivella destruíram o sistema cultural do Rio. Estabeleceram terra arrasada, tudo fechado, abandonado. Esse processo começou muito antes da pandemia. O que o senhor tem a dizer a esse respeito?

 

L.F. – A esses dois que você citou eu acrescento o Bolsonaro, eles odeiam a cultura e os setores culturais de maneira geral, porque a cultura resgata e preserva a história de um povo e suas lutas e o que eles mais querem é um povo sem memória, sem educação e sem cultura para que eles possam dominar com suas mentiras. Mas o povo brasileiro e em especial o do Rio, jamais vai se deixar dominar por essa corja, o Crivella já se foi, o Witzel está indo e logo chegará a vez de Bolsonaro.

 

A Câmara de Vereadores tem um papel fundamental nesse processo, o município precisa ter políticas públicas claras de incentivo ao setor cultural e cabe a nós vereadores fazer proposições para que isso ocorra. Com a pandemia, os trabalhadores ligados ao setor cultural foram fortemente impactados. Criada pelo Congresso Nacional, a Lei Aldir Blanc foi instituída para auxiliar esses trabalhadores e repercutiu na cidade do Rio através da construção do Cadastro Municipal Carioca, que mapeia os profissionais e espaços culturais.

 

Precisamos manter esse mapeamento constante e articular com o Conselho Municipal de Cultura, de forma a facilitar a retomada do setor da cultura no pós-pandemia, garantindo a geração de emprego e a retomada de postos de trabalho.

 

O Museu de Arte do Rio, o MAR, um dos espaços culturais mais importantes da cidade, que recebia de 300 a 400 mil visitantes por ano, sofreu uma intervenção drástica no apagar das luzes do governo Crivella. O museu foi entregue a uma instituição internacional sem nenhuma tradição de administração de museus, muito menos com a vida cultural da cidade. A Organização Social que administrava o espaço está agora subcontratada para poder utilizar a Lei Rouanet, já que uma entidade estrangeira está impedida de se beneficiar desses incentivos fiscais. O que o senhor acha disso e como intervir no governo Eduardo Paes?

 

L.F. – Essa política de precarização dos empregos dos trabalhadores brasileiros vem desde o golpe que destituiu a presidente Dilma, e vem sendo seguido por empresários e governantes sem escrúpulos como o ex-prefeito Crivella.

Farei um requerimento de informações para a Secretaria Municipal de Cultura para analisarmos as informações e tomar as devidas providências contra mais esse absurdo.

 

Pode-se afirmar que há um projeto neoliberal para privatizar todo o sistema cultural do Rio, retirando do estado qualquer responsabilidade sobre a memória e a cultura. O que o senhor pensa sobre isso?

 

L.F. – Somos contra a privatização não apenas do setor cultural, mas também dos vários setores fundamentais da economia, e nisso os liberais e a extrema direita têm acordo. Estavam sucateando o SUS e agora não param de fazer pose com jalecos do SUS, porque é ele que está salvando milhares de vidas nessa pandemia. Em relação à cultura do Rio é necessário a mobilização de todos os “atores” culturais da cidade para revitalizarmos nossa cultura e exigir, tanto do governo municipal quanto dos governos estadual e federal, recursos, não só para sobreviver mas também para levar cultura a todos os cantos dessa cidade.

 

Diante desse quadro quais seriam as prioridades de seu mandato?

 

L.F. – Existe prioridade nacional que é acelerar a vacinação da população para barrar a Covid, é preciso pressionar esse governo genocida do presidente Bolsonaro e seu General Ministro que atuam a passos de tartaruga para barrar essa pandemia. Aliás, se fosse de tartaruga seria até bom, o que eles são é contra a vacinação da população, para que continuem reféns do medo e não possam ir para a rua se manifestar contra esse desgoverno.

 

O Rio é uma das cidades que mais perdeu postos de trabalho nos últimos tempos. Só em 2020 o Estado do Rio de Janeiro perdeu mais de 100 mil empregos, grande parte na cidade do Rio e na região metropolitana. Nossa luta é para reabrir postos de trabalho no Rio que foram fechando aos poucos com a destruição econômica que vivemos desde o golpe contra Dilma em 2016.

 

Outra prioridade do nosso mandato é a recontratação dos profissionais de saúde e reaparelhamento das UPAS, além reabertura das que fecharam. Posso citar como exemplo a luta que estamos travando em conjunto com as comunidades para reabertura da UPA de Manguinhos.

 

Vamos lutar junto com os sindicatos, movimentos sociais, prefeituras e outras câmaras de vereadores do Estado para reativação do setor Naval, possibilitando a geração de empregos. Vamos cobrar da Petrobras que ela exerça o seu papel como empresa estatal que ela é, defendendo a soberania nacional e investindo em melhorias para o povo.

 

Outra prioridade é a melhoria dos transportes coletivos na cidade do Rio, o BRT está uma vergonha, várias estações completamente abandonadas, sem falar nos vários bairros em que a população não tem transporte adequado. Na zona oeste apenas 28% da frota de ônibus está em circulação no meio de uma pandemia. É um massacre com os trabalhadores.

 

A educação em qualquer época tem que ser uma prioridade de todos os governantes com um pouco de decência, estaremos sempre ao lado dos professores e pais de alunos lutando por melhorias na qualidade do ensino e valorização do professor.

 

O senhor acha que é possível o Rio voltar a ser a cidade da oportunidade, da prosperidade, refletindo a cara do Brasil?

 

L.F. – O Estado do Rio passa por uma crise muito grande, tanto pelo desastre dos últimos governos, quanto o ataque que a Lava Jato fez na Petrobrás e nas empresas brasileiras, gerando uma quebradeira e tendo como resultado milhares de pais e mães de família desempregados. O Rio é o estado mais atingido pelo desemprego, que já é gigante no Brasil. E pensar que nos governos do Lula tínhamos pleno emprego, com o presidente que temos e com um governador interino, dificilmente essa situação mudará. Nossa prioridade é a organização do povo para trazer de volta políticas públicas que beneficiem a maioria da população que está completamente esquecida e abandonada.

 

O que está achando das primeiras medidas do novo prefeito Eduardo Paes em relação à crise sanitária e em relação a vida urbana?

 

L.F. – O prefeito nomeou como Secretário de Saúde um epidemiologista da FIOCRUZ, que está dando voz à ciência e tocando o processo de vacinação e reorganizando o que o Crivella destruiu. Por enquanto, entendo que esteja no caminho certo, um senão é em relação ao fechamento da UPA de Manguinhos, que com certeza com nossa luta conseguiremos reabrir em breve.

Em relação a vida urbana, um mês é muito pouco para se ter uma avaliação.

 

O que o senhor acha do projeto de revitalização do Centro do Rio?

 

L.F. – Acho muito importante e vamos acompanhar de perto, é preciso que a prefeitura dê prioridade à questão habitacional, com foco maior na população trabalhadora e de baixa renda, para que elas possam morar perto do trabalho. O centro do Rio precisa de um projeto de revitalização que estenda os braços para o povo e não se torne um objeto de especulação imobiliária.

 

O Brasil vive um governo cheio de escândalos. O caos vem se instalando dia após dia. Como o senhor está avaliando a conjuntura política, econômica e social em relação ao governo federal? É possível prosperar um pedido de impeachment de Bolsonaro ainda este ano?

 

L.F. – O caos é para o povo pobre e trabalhador, para os milionários, banqueiros e multinacionais o Brasil é o paraíso na terra. O governo Bolsonaro é um governo de terra arrasada, para o pobre, a classe média e a pequena empresa, e isso vem desde antes da pandemia, a crise sanitária só demonstrou o quanto esse governo é incompetente e desastroso para o país. O Ministro das Relações Exteriores, se é que se pode chamar aquilo de ministro, Ernesto Araújo era o capacho do Trump, agora nem a aliança do ex-presidente americano sobrou para eles. Estão mais perdidos do que cachorro quando cai de caminhão de mudança e completamente isolados. Precisamos mobilizar pelo Fora Bolsonaro e denunciar a destruição do Estado e da soberania nacional realizada por esse governo. O processo de impeachment só poderá ocorrer depois de um grande acúmulo de forças e organização dos movimentos populares.

 

O senhor tem defendido a união das esquerdas para enfrentar Bolsonaro. E o que mais é preciso fazer?

 

L.F. – Precisamos de união das esquerdas em torno de um projeto de reconstrução do Brasil, da soberania nacional e da geração de empregos. O neoliberalismo perverso que vem sendo aplicado no nosso país tem gerado consequências sociais graves e destruindo a economia do Brasil. É necessário diálogo com amplos setores que tenham compromisso com essas pautas. Reconstruir a economia do país é dar mais uma vez a oportunidade da população mais pobre sonhar com um futuro melhor com acesso a educação, emprego e renda. Nos tempos de Lula o povo podia fazer um churrasquinho com a família nos finais de semana e sonhar com a casa própria, hoje os preços nos mercados dispararam e as pessoas têm dificuldade de comprar o básico, além disso, a população de rua aumentou absurdamente nos grandes centros urbanos.

 

 

Legenda: “Lindbergh Farias: “É necessário diálogo com amplos setores que tenham compromisso com a reconstrução da economia do país para dar, mais uma vez, a oportunidade da população mais pobre sonhar com acesso à educação, emprego e renda”.