Esta foto de Léon Trotsky, Diego Rivera e André Breton – de Fritz Bach –foi feita em julho de 1938, no momento em que os três preparavam o manifesto da primeira FIARI. Rivera havia conseguido do presidente do México, Lazaro Cardenas, asilo político para Trotsky, que estava sendo perseguido por Stálin

 

 

 

Com o mundo dominado pelo avanço da extrema-direita neofascista na política, com a disseminação das fake news, surge no horizonte uma nova entidade em defesa do humanismo, do respeito à liberdade de expressão, das artes e da cultura. A Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente (FIARI) veio para agitar o cenário.

 

Neste sábado, 31 de julho, foi lançado em reunião virtual o manifesto pela refundação da FIARI. Fazem parte do grupo intelectuais e artistas de seis países: Argentina, Bélgica, Brasil, Espanha, México e Suíça.

 

O manifesto foi escrito em quatro idiomas: português, espanhol, francês e inglês, com onze assinaturas iniciais: Jorge Antunes, Josep Manuel Berenguer, Paloma Carvalho Santos, Luca Forcucci, Manuel Rocha Iturbide, Roberto Rutigliano, Vladimir Safatle, Daiara Figueroa, Gerson Valle, Gabriel Valverde e Françoise Vanhecke.

 

A FIARI original foi criada em 1938, na Cidade do México, por três grandes revolucionários: Léon Trotski, André Breton e Diego Rivera. Essa iniciativa teve vida efêmera porque um ano após sua fundação eclodiu a 2ª Guerra Mundial e dois anos depois Trotsky foi assassinado.

 

“A nova FIARI quer montar barreiras e trincheiras contra a ameaça que paira em várias partes do mundo, com o avanço da extrema-direita”, diz em um dos trechos o documento.

 

No encontro virtual de hoje (31), além da leitura do manifesto foi apresentado o endereço do site www.fiari.art com informações sobre os objetivos da federação internacionalista e convite aos interessados para participar da iniciativa. Em breve será lançado o terceiro número do jornal Clé, primeiro na internet e depois, impresso.

 

 

 

A seguir, a íntegra do manifesto de criação da nova FIARI:

 

 

“No dia 25 de julho de 1938, na cidade do México, um manifesto com análises e propostas que ainda hoje são vigentes foi redigido e divulgado por três grandes revolucionários: Léon Trotski, André Breton e Diego Rivera. Estava fundada a Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente (FIARI).

 

 

Hoje, 83 anos depois, vemos a necessidade de refundação do coletivo

 

 

internacional, porque a luta empreendida pelos criadores da FIARI precisa ser implementada e renovada neste momento grave em que a crise do capitalismo se expressa também em uma crise das artes e da cultura em geral.

 

 

A FIARI teve vida efêmera porque um ano após sua fundação eclodiu a 2ª Guerra Mundial e dois anos depois Trotsky foi assassinado. Em 1938 o stalinismo e o nazismo impunham a perseguição às artes com o autoritarismo e o dirigismo cultural. A nova FIARI, a que agora damos vida, quer montar barreiras e trincheiras contra a ameaça que paira em várias partes do mundo, com o avanço da extrema-direita.

 

 

No Brasil, forças intolerantes que pareciam pertencer ao passado, voltaram à cena política desde meados da década de 2010, com posturas patéticas dignas do pior período da peste negra, a doença política contagiosa que pensávamos ter sido extinta no final da Segunda Guerra Mundial. Na Europa e em outras partes do mundo, esse mesmo vírus parece se desenvolver cronicamente. Testemunhamos em todo o mundo o avanço de partidos de extrema direita e atos de intolerância, racismo e barbárie perpetrados por indivíduos e grupos.

 

 

A ameaça à democracia grassa em várias partes do mundo, com projetos voltados ao nacionalismo xenófobo, ao falso moralismo religioso, à economia neoliberal e capitalista, pautados no costume, na educação e na prática cultural alienante e reacionária.

 

 

Grupos de extrema-direita se organizam dominando meios de comunicação, redes sociais, igrejas, espaços de poder, praticando o proselitismo do atraso. Usando de recursos infames como a mentira, as chamadas “fake news”, e o revisionismo histórico – inclusive no que concerne à história das artes, e em especial à história da música– esses agrupamentos nos ameaçam. Mas ao contrário do que acontecia em 1938 quando o fascismo estava em ascensão, em 2021 vivemos um aumento das forças que exercem resistência contra a injustiça social e a opressão do capitalismo, como demonstram as atuais mobilizações e rebeliões, em várias partes do mundo.

 

 

Ao defendermos a liberdade de criação, não pretendemos absolutamente justificar o indiferentismo político e longe está de nosso pensamento querer ressuscitar uma arte dita ‘pura’ que de ordinário serve aos objetivos mais do que impuros da reação. Temos um conceito muito elevado da função da arte para negar sua influência sobre o destino da sociedade. Consideramos que a tarefa suprema da arte em nossa época é participar consciente e ativamente da preparação da revolução. No entanto, o artista só pode abraçar a luta emancipadora quando está compenetrado subjetivamente de seu conteúdo social e individual, quando faz passar por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e quando procura livremente dar uma encarnação artística a seu mundo interior.

 

 

O imperialismo, o negacionismo, a xenofobia, a intolerância e o fanatismo são algumas das manifestações das forças de extrema direita que ameaçam a paz, a liberdade, a autodeterminação dos povos e também a arte e os bens culturais da humanidade. O nosso repúdio se estende ao gesto hediondo de se destruir uma obra de arte, às guerras e aos crimes nelas cometidos: hoje a destruição deliberada de um bem ou patrimônio cultural durante uma guerra, é considerada como um mero “crime de guerra”.

 

 

Defendemos a tese e proposta de que esse tipo de ação passe a ser caracterizado, pelo Tribunal Penal Internacional, como “crime contra a humanidade”. Isso dará mais ênfase à gravidade dos atos contra os bens culturais, por se constituírem em verdadeiras ações perniciosas que ferem diretamente a essência da dignidade da pessoa humana.

 

 

O luxo, o consumo e a ostentação que o universo burguês copiou da aristocracia se constituem em outra ameaça à liberdade na criação artística. O lucro desenfreado, tratado como lógica do progresso, deve ser repudiado. Os interesses mercadológicos da ideologia capitalista, que se revelam no consumismo, provocam a degradação das relações sociais que, por sua vez, compromete o processo de fruição da arte e o interesse pelas novas e revolucionárias propostas artísticas. A obtenção de lucro, desesperadamente buscada pelos donos dos meios de produção, provocam a alienação e a onomania do consumidor. Assim, o supérfluo, a banalidade, o simplório e a mediocridade, presentes na cultura de massas imposta pela indústria da cultura com seu forte poder mercadológico de persuasão, ocupam integralmente o lugar da real satisfação das necessidades.

 

 

A postura utilitarista na sociedade capitalista determina que aquilo que não gera lucro é inútil para o capital e, portanto, totalmente desnecessário. O capital não tem o menor interesse em erradicar as causas do sofrimento humano e os impactos ambientais são sempre difíceis de ser evitados e combatidos porque os grandes grupos econômicos ganham muito com eles e, como o custo da ecologia é alto demais, eles preferem o marketing de «greenwashing».

 

 

Nesse mesmo cenário não é só o planeta que é vilipendiado, explorado e destruído: o bem estar, a vida humana, as culturas ancestrais autóctones e a vida de todas as espécies são ameaçadas. Neste momento de pandemia, em que um vírus dizima milhões de seres humanos, a ciência avança rapidamente e, com ela, também a indústria farmacêutica. É hora de nosso combate se voltar à luta pela quebra de patentes para que a vacina passe a ser acessível a toda a humanidade com a maior urgência possível.

 

 

A nova FIARI busca uma aliança mundial de artistas independentes preocupados com a vida, com a liberdade de expressão e de criação artística, com a proteção das culturas indígenas ancestrais, com a proteção da biosfera terrestre e com a luta contra todos os tipos de controle e barreiras à arte e à cultura, bem como todas as formas de autoritarismo e dirigismo.

 

 

Vemos-nos ameaçados pelo capitalismo, pela lei do mercado e pela indústria da cultura que pretendem reduzir a arte a um mero serviçal do capital. Mas ao repudiarmos o capitalismo liberticida e ao nos posicionarmos por um projeto que defende a liberdade individual como um valor fundamental baseado em uma organização de ajuda mútua coletiva, repudiamos também qualquer projeto autoritário.

 

 

É urgente a necessidade de os trabalhadores progressistas da área artística e que se identificam com o conceito de independência política da classe operária, se agruparem em uma organização internacionalista. Ainda hoje, o status de artista é pouco reconhecido em todo o mundo e é muitas vezes associado ao trabalhador autônomo, com uma postura de risco que o coloca em uma posição frágil. Isso se evidenciou durante a crise do Covid-19.

 

 

As contradições da luta de classes se escancaram no mundo. A ideologia da classe dominante avança sobre os artistas, e não só sobre as obras de arte, tentando massacrar integridades intelectuais, emocionais e criativas.

 

 

Buscando a emancipação da humanidade e a proteção do planeta Terra, reconhecemos que a arte é questão estratégica nesse mister. Aqueles propósitos só podem ser alcançados com nossa organização revolucionária e internacionalista, praticando e preconizando a arte necessária: aquela que não se resume à mera introdução de variações em modelos pré-fabricados, mas que busca expressar os sonhos interiores da humanidade de nossos dias. A revolução é o processo contínuo e vivo que deve estar presente em qualquer manifestação artística.

 

 

As teses da FIARI continuam atuais. Precisamos atualizá-las porque hoje é enorme a quantidade de jovens que buscam a arte como meio de expressão, e não como simples fazer divertido e decorativo. As novas gerações hão de identificar a produção artística como meio de comprometimento com o sentir e o pensar de seu tempo e de sua história. Reverberando, hoje, as ideias da FIARI, oferecemos ferramentas para que artistas, organizados, se reconheçam como trabalhadores que, mesmo com suas especificidades, têm os mesmos problemas que todos os outros trabalhadores.

 

 

A independência e o compromisso com os problemas da humanidade são condições imprescindíveis para o processo de criação artística em que a imaginação não fica atrelada a constrangimentos e fórmulas.

 

 

Os inimigos da arte revolucionária estão à espreita. O avanço tecnológico, em especial a robótica, tende a provocar o fim de várias profissões, tornando possível a diminuição da jornada de trabalho do ser humano.

 

 

Espera-se que o tempo destinado ao lazer aumente em um futuro próximo. Portanto, é necessário envidar esforços para que as tecnologias modernas sejam democratizadas, acessíveis também nos países pobres. Neste contexto, colocamos na agenda da nossa luta a prática artística e educativa que visa a solidariedade entre os povos, rejeitando o trabalho infantil e exigindo a redução do tempo de trabalho onde esta conquista da sociedade ainda não se concretizou.

 

 

Ao defendermos uma revolução nas artes, devemos também defender uma revolução educacional que garanta o desenvolvimento da sensibilidade humanística nas novas gerações. Isso só será possível com a introdução das artes nos currículos escolares, a partir do jardim de infância.

 

 

A escola tem servido para produzir e educar consumidores, em vez de formar cidadãos. O avanço da extrema direita nas instâncias de poder tende a agravar esse problema. A imaginação, a capacidade de crítica e de opção vêm sendo atrofiadas. Os meios de lazer, entretenimento, a arte vulgarizada, a falsa-arte, ofertados pela indústria da cultura, vêm embrutecendo populações.

 

 

A educação sempre se preocupou em bem formar o indivíduo para o trabalho: agora será preciso que ela também se ocupe de formar o indivíduo para o lazer.

 

 

O objetivo do presente manifesto é encontrar um terreno para reunir todos os defensores revolucionários da arte, para servir a revolução pelos métodos da arte e defender a própria liberdade da arte contra os usurpadores dos poderes. Milhares e milhares de pensadores e de artistas isolados, cujas vozes são encobertas pelo tumulto odioso dos falsificadores arregimentados, estão atualmente dispersos no mundo.

 

 

Numerosas pequenas ações locais tentam agrupar à sua volta forças jovens, que procuram vias novas.

 

 

As artes revolucionárias independentes devem unir-se para a luta contra as perseguições reacionárias e proclamar bem alto seu direito à existência. Uma tal união é o objetivo da Federação Internacional de Arte Revolucionária e Independente (FIARI) que julgamos necessário recriar.

 

 

Não temos absolutamente a intenção de impor cada uma das ideias contidas neste manifesto, que nós mesmos consideramos apenas um primeiro passo na nova via. A todos os representantes da arte, a todos seus amigos e defensores que não podem deixar de compreender a necessidade do presente manifesto, pedimos que ergam a voz imediatamente. Endereçamos o mesmo apelo a todas as publicações independentes de esquerda que estão prontas a tomar parte na criação da Federação Internacional e no exame de suas tarefas e métodos de ação.

 

 

Quando os primeiros contatos internacionais tiverem sido estabelecidos pela imprensa, pela correspondência, pelas redes sociais, procederemos à organização de modestos congressos locais e nacionais, exposições, concertos, publicações. Na etapa seguinte deveremos nos reunir em um congresso mundial que consagrará oficialmente a refundação da Federação Internacional.

 

 

O que queremos:

 

 

– A independência da arte para a revolução, e a revolução para a liberação definitiva da arte;

– Uma cultura livre de opressão e de vigilância;

– Uma educação livre das regras do mercado e da vigilância, fomentando ideias;

– O repudio à lógica do capitalismo de vigilância;

– O repúdio à submissão ao mercado;

– O repúdio à cultura dominante de vigilância;

– O repúdio ao lucro como lógica do progresso;

– O repúdio à violência contra minorias e grupos identitários.

– A arte e a cultura livres, independentes e plurais;

– Uma dimensão ritualística da arte, que inclua a cura, a estética e todos os aspectos mágicos e míticos;

– Uma epistemologia que inclua arte e ciência, e que se estenda às dimensões do saber ancestral dos povos originários;

–  A categorização como “crimes contra a humanidade” para as ações de destruição deliberada de bens e patrimônios culturais;

– A quebra de patentes de insumos de vacinas contra a Covid-19 agora, e sempre que a humanidade for ameaçada por novas pandemias.

 

 

Assinam:

Jorge ANTUNES
Josep Manuel BERENGUER
Paloma CARVALHO SANTOS
Luca FORCUCCI
Manuel Rocha ITURBIDE
Roberto RUTIGLIANO
Vladimir SAFATLE
Daiara TUKANO
Gerson VALLE
Gabriel VALVERDE
Françoise VANHECKE

 

 

 

 

Do Brasiliários