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Junho começa com o depoimento da dra. Yamaguchi na CPI

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Cumprindo todos os rituais e de maneira educada, os integrantes da CPI do Senado Federal receberam a dra. Nise Yamaguchi para o seu depoimento, hoje pela manhã.

 

A dra. Nise é uma especialista em Cancerologia e Imunologia pela USP, com aproximações informais com o serviço público de saúde – leia-se Ministério da Saúde – sem que tenha exercido, formalmente, conforme suas declarações, cargos na estrutura ministerial. No Hospital Sírio Libanês é diretora de Estudos Avançados em Medicina, e teria sido cogitada para Ministra da Saúde, em abril de 2020, em substituição ao ministro Mandetta. Tem um bom currículo acadêmico.

 

A acolhida à dra. Nise prometia um depoimento tranquilo à Comissão Parlamentar de Inquérito. Mesmo com uma agenda com temas complexos e algo controversos. Por exemplo, cloroquina, gabinete paralelo, imunidade de rebanho, déficit de vacinas, tratamento precoce. Enfim, o claro antagonismo nas condutas mais adequadas ao enfrentamento da Covid 19. Com alguns itens politizados, ou até mesmo transformados em matéria de fé religiosa. Incorporando heresias e dogmas.

 

O uso de vídeos durante a inquirição da dra. Nise, inicialmente pelo relator, senador Renan Calheiros, foi um dos fatores de desestabilização da depoente. A qual começou a se mostrar insegura em suas afirmações e com dificuldades para explicar as suas teses, como, por exemplo o emprego da Cloroquina no tratamento precoce do Covid 19.

 

Começou aí a se evidenciar um erro elementar, e que traria sérias consequências à população e ao Governo: não ter criado, no momento adequado, um sistema de coordenação interinstitucional para o enfrentamento da Pandemia. Correndo todos os riscos ao assumir, sozinho, o controle das ações. Através das suas instituições formais e de um gabinete paralelo. Difícil de explicar em debates abertos e mais ainda no âmbito de uma CPI. Sobretudo com o recorde de óbitos – a maioria evitáveis – em decorrência da Pandemia, próximo de meio milhão, atualmente.

 

Diante de tal situação, foi se tornando cada vez mais difícil para a dra. Nise, trazer as explicações, minimamente convincentes, para uma tragédia anunciada, fruto do que foi denominado “Negacionismo”. Uma palavra de certo modo gentil, para explicar tantos equívocos. De fato, uma condução desastrosa, frente a um dos mais sérios desafios sanitários dos últimos tempos. Que não era tarefa para amadores.

 

Valendo lembrar que a dra. Nise é uma profissional muito respeitada na sua especialidade, com vários trabalhos científicos publicados na área da Oncologia e que sempre demonstrou preocupações concernentes às políticas públicas de saúde.

 

Em sua fala inicial ela se mostrou simpática, humilde até, embora sabidamente defensora assumida da cloroquina… Declarou-se “colaboradora eventual de vários governos e uma pessoa sem partidos”. Negou, com veemência, ser participante de “gabinetes paralelos”; se afirmando médica e cientista.

 

O senador Renan, relator da CPI, usou vários vídeos para confirmar suas afirmações, colocando em dúvida certos conceitos e fatos expostos pela dra. Nise. A sessão foi tomando um rumo inesperado e criando um clima mais tenso. Vários senadores e senadoras usaram da palavra, em tom mais incisivo. O ambiente da sessão da CPI foi se tornando cada vez menos harmonioso, o que obrigou o seu presidente, o senador Omar Aziz a fazer uma pausa nos trabalhos, evitando assim tumultos mais sérios.

 

A retomada da reunião foi mais tranquila. Foi sugerido convidar a dra. Nise para uma próxima reunião, quando ela voltaria na condição de testemunha. Ideia que foi objeto de debate, mas não foi aprovada. Em sequência, as senadoras Eliziane Gama e Leila fizeram algumas observações, quando o senador Eduardo sugeriu retomar a reunião e que a dra. Nise não fosse convidada como testemunha.

 

No debate subsequente, sobre tratamento precoce, o senador Renan, apresentou um outro vídeo, cujo conteúdo apresentava algumas considerações do alm. Barra Torres, da ANVISA. No qual, ressalta a sua profunda discordância com possíveis alterações na bula da Cloroquina. Até o final, a reunião transcorreu sem novos incidentes.

 

Valendo registrar a intervenção do senador Otto Alencar, já no período da tarde, dirigindo perguntas à depoente, para testar seus conhecimentos sobre virologia e epidemiologia. Concluindo, após as respostas da dra. Nice, sobre seu desconhecimento sobre itens corriqueiros desses temas. Outros senadores fizeram as suas intervenções, sendo encerrada a sessão sem maiores incidentes. A dra. Nice encaminhou um documento à CPI, no qual faz referência ao dr.  Luciano Dias Azevedo, oficial da Marinha do Brasil, do gabinete paralelo e defensor do uso da Cloroquina, com indicação em bula.

 

Em síntese, o depoimento da dra. Nise, foi muito importante, por deixar cada mais evidente a inescapável responsabilidade da Presidência da República pela forma ineficiente como vem conduzindo o combate à Pandemia. 

 

Quando comparado com diversos outros países, o Brasil apresenta níveis inaceitáveis de contaminação e óbitos. Um pequeno exemplo, tendo como fonte o Boletim Arlete Sampaio, atualizado em 1 de junho de 2021:

 

 

  1. Estados Unidos – casos confirmados: 33. 279.658 / óbitos: 594.853 (+ 294);
  2. Índia – casos confirmados: 28.175.044/ óbitos: 331.895 (+ 2.795);
  3. França – casos confirmados: 5.738/ óbitos: 109.824 (+ 134);
  4. Rússia – casos confirmados: 5. 022.881/ óbitos: 119.830 (+366);
  5. Reino Unido – casos confirmados: 4.500.331/ óbitos: 128.445 (+ 1);
  6. Cuba – casos confirmados :143.325 / óbitos: 965 (+7);
  7. Argentina – casos confirmados: 3.781.784/óbitos: 78.093 (+ 627) 
  8. BRASIL – casos confirmados: 16.624.480/óbitos: 465.199 (+2.408)

 

É preciso ter em mente que há um grande responsável pela terrível situação que estamos vivenciando: o presidente da república. E agora, pela extrema gravidade dos problemas sanitários, o mais urgente a fazer – antes de pensar em eventuais punições – seria estabelecer novas estratégias de enfrentamento do Covid 19. Usando, de forma inteligente e eficaz, todas as armas de que dispomos, para reduzir o número de óbitos e contaminações. 

 

Afinal, temos de aprender a pensar com mais de dois neurônios. Lembrando Camões, o grande bardo lusitano: UM FRACO REI FAZ FRACA UMA FORTE GENTE!

 

(*) Geniberto Paiva Campos, médico cardiologista e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) 

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