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Jornalista resenha livro de Arlete Nogueira da Cruz

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O jornalista Ribamar Correia, um dos mais conhecidos do Maranhão, resenha livro de Arlete Nogueira da Cruz que traça um extenso panorama artístico cultural do Estado desde a década de 50 até o fim do século passado.

 

Ouve-se, com frequência, que o Maranhão, especialmente São Luís, não registra nem preserva sua rica e universalmente reconhecida memória cultural como deveria. Pode-se dizer que se trata de meia verdade. Os registros estão soltos por aí, nas páginas de jornais, em galerias, em pesquisas pouco conhecidas, em acervos particulares, em referências eventuais feitas por estudiosos e curiosos. O que é raro, isto sim, é obra dedicada a montar, com cuidado e fidelidade, roteiro que, se não sistematizado, pelo menos documente eventos, acervos, situações e evidências, sem exigência cronológica, mas corretamente contextualizada e que passe a ideia de uma sequência lógica e coerente, de modo a que o leitor seja brindado com uma ideia panorâmica do que aconteceu num determinado período no universo cultural de um centro efervescente como a Capital do Maranhão.

 

Os maranhenses mais jovens sabem, por exemplo, que nos anos 50 e 60 do século passado São Luís viu nascer e inspirou uma plêiade de escritores e poetas que tiveram seus talentos reconhecidos e consagrados no Prêmio Literário Cidade de São Luís? Que uma livraria, a Galeria do Livro, e uma loja de vender móveis, a Movelaria Guanabara, foram espaços de reunião, debates e difusão do que havia de melhor e mais atual nas artes naquele período? E que na década de 70 do século passado, mesmo sob o tacão repressor da ditadura militar, São Luís viveu uma efervescência cultural ímpar, com verdadeiras revoluções na literatura, especialmente na poesia, no teatro e nas artes plásticas? E ainda que naquele período foram dados passos ousados e definitivos para a estruturação orgânica, pelo Estado, da remota manifestação cultural popular até as artes mais sofisticadas, como as galerias e exposições de artes plásticas?

 

Essas gerações estão devidamente informadas de que – além dos monstros sagrados Josué Montello, Ferreira Gullar, Nauro Machado, Bandeira Tribuzi, José Sarney e João Mohana – também marcaram época na literatura Bernardo Almeida, Lago Burnett, Erasmo Dias, Odilo Costa, filho, Edson Vidigal, Nascimento Morais, Sérgio Brito e Valdelino Cécio? Têm informação e clareza sobre artistas plásticos como Antônio Almeida, Ambrósio Amorim, Marçal Ataíde e Nagy Lajos? Estão informadas, pelo menos razoavelmente, sobre as ousadas incursões teatrais de Ubiratan Teixeira, Reynaldo Faray, Cosme Júnior e Tácito Borralho? Conhecem os primeiros passos de compositores geniais como Chico Maranhão e João do Vale, a reaproximação do consagrado violonista Turíbio Santos com o Maranhão, o trabalho do violonista João Pedro Borges, o Sinhô, e de como surgiu a primeira escola de música do Maranhão, que trouxe para cá um alemão meio anarquista que deu as primeiras e preciosas noções de flauta para Sérgio Habibe? Como foi a fulgurante Galeria Eney Santana?

 

Respostas a essas indagações estão armazenadas, com riqueza de dados e fatos, detalhados com traços fortes de jornalismo e de resgate, riqueza e seriedade memorialística, pitadas de interpretação acadêmica, densidade crítica e, principalmente, preciosismo literário em “Sal e Sol”, livro da lavra genial da escritora, poetisa, ensaísta, memorialista e militante da linha de frente, ativa e entusiasmada da causa cultural maranhense Arlete Nogueira da Cruz. O livro, editado há pouco mais de uma década, reúne artigos, crônicas, resenhas, abas, prefácios, um discurso histórico e uma conferência magistral da escritora, bem como depoimentos definitivos sobre ela e sua militância cultural, como um do insuspeito Erasmo Dias, e do marido, o consagrado poeta Nauro Machado, por exemplo.

 

Nos seus registros, especialmente nas crônicas e nos delicados e honestos memoriais, Arlete Nogueira da Cruz expõe, com fundamentos acadêmicos e filosóficos sólidos e indiscutível brilhantismo literário, sua visão, sua versão e sua própria história, mostrando, com honestidade intelectual, o seu protagonismo nos grandes movimentos e decisões, ao mesmo tempo em que situa e eterniza personagens decisivas da aventura cultural maranhense, na segunda metade do século passado. “Sal e Sol” começa com uma oportuna e justa crônica sobre o respeitável Fernando Moreira, professor de Literatura e escritor e teatrólogo, um dos ganhadores do Prêmio Literário Cidade de São Luís de 1957, juntamente com Domingos Vieira Filho, Cadmo Silva, Lago Burnett, Bernardo Tajra, Nauro Machado e Raimundo Lopes, laureados por um júri composto por ninguém menos que Bandeira Tribuzi, Vera-Cruz Santana, Emmanoel Silva, Clodoaldo Cardoso, José Burnett, Mata Roma e Casemiro Carvalho.

 

Nas três centenas de páginas de “Sal e Sol”, Arlete Nogueira Cruz enriquece a memória cultural do Maranhão registrando, em 56 textos primorosos, homens, obras, espaços e eventos. Registra, por exemplo, a famosa “Exposição Eleutério Varela”, organizada pelo visionário, polêmico e genial poeta Carlos Cunha, que marcou o ano cultural de 1967. Resenha, em seguida, o consagrado “Os Bichos do Céu”, livro de poesia de Odylo Costa, filho; desenha, com as cores das palavras, um perfil definitivo do genial pintor e escultor Antônio Almeida; resgata a emblemática figura do artista plástico Nagy Lajos, um húngaro que desembarcou em São Luís no final dos anos 60, depois de duas décadas fugindo do fantasma do nazismo e que encontrou na Ilha do Amor o refúgio que precisava para dar vazão à sua genialidade artística. “Sal e Sol” fala de Josué Montello e do esforço para criar a Casa de Cultura que preserva seu acervo e sua memória; registra também, e com carinho destacado, a militância cultural de Bernardo Almeida, por cujas mãos a autora iniciou na militância cultural como redatora da lendária revista “Legenda”, ícone da cultura ludovicense os anos 50.

 

Os registros de “Sal e Sol” eternizam a aventura cultural de São Luís nos anos 70 do século passado, dos desafios de fazer teatro politicamente ousado, nas barbas da ditadura, como foram as inúmeras produções, como a peça “Tempo de espera”, que espantou o mundo com a sua estética revolucionária, com destaque para o ator Cosme Júnior. O surgimento do Laborarte pelas mãos do inovador e incansável Tácito Borralho, com a produção intensa do Teatro Experimental do Maranhão (Tema), da surpreendente e definitiva obra fotográfica de Edgar Rocha, de eventos e homenagens a artistas de todas as áreas que marcaram aqueles anos, como o que trouxe João do Vale ao Maranhão, com toda sua grandeza, no Teatro Arthur Azevedo, no final dos anos 70 – o celebre compositor João do Vale ocupa espaço no livro, equivalente ao seu tamanho. Entre os registros, o lançamento da Antologia Poética do movimento Antroponáutica, e a resenha crítica sobre “Titanic-Boulogne – A Canção de Ana e Antônio”, de Luís Augusto Cassas.

 

Arlete Nogueira da Cruz documenta passos decisivos da trajetória do genial poeta e cronista José Chagas, a sua relação de amizade familiar com Bandeira Tribuzi – atribulada por intrigas que, vira e mexe, agitam o meio cultural -, dedica páginas coloridas para destacar o gênio de Péricles Rocha e acentua o decisivo trabalho do jornalista Ubiratan Teixeira como estudioso, autor e diretor de teatro, imortalizado com um alentado dicionário sobre o tema. Em “Sal e Sol”, a autora abriga ainda uma crônica na qual apresenta e traduz Chico Maranhão e sua música com oportuna riqueza crítica e com a intimidade de quem o tem como amigo e militante cultural – no seu disco de estreia, “Lances de Agora”, Chico Maranhão dedicou o poema-crônica musicado “Velho amigo poeta” a Nauro Machado. No livro está também um registro correto, oportuno e justo ao poeta Valdelino Cécio, um dos mais importantes nomes do ativismo cultural maranhense nas três últimas décadas do século passado.

 

“Sal e Sol” é muito mais que uma coletânea de bons textos que resgatam a trilha cultural ludovicense ao longo de seis décadas. Sua densidade e sua importância estão no fato de Arlete Nogueira da Cruz ter sido protagonista, com participação ampla e decisiva em muitos momentos de grandeza daquele período, e com a autoridade de quem esteve no comando de órgãos centrais da política cultural – Teatro Arthur Azevedo, Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria de Educação, Fundação Cultural do Maranhão, e com privilégio de entrar definitivamente para a História da Cultura por ter criado e sido o primeiro titular da Secretaria da Cultura do Maranhão. O livro mostra que na história das últimas seis décadas, poucos tiveram envolvimento tão efetivo e decisivo com a cultura do Maranhão como Arlete Nogueira da Cruz. Isso sem contar a sua genial obra literária, exaltada por críticos renomados, com destaque para o mundialmente conhecido poema “Litania da Velha” – que ganhou vida no primeiro filme do cineasta Frederico Machado, seu filho, obra que resultou de uma saga familiar honestamente relatada pela autora.

 

São produtos literários de Arlete Nogueira da Cruz “A Parede”, “Compasso Binário”, “Cartas da Paixão”, “Canção das Horas Úmidas”, “Trabalho Manual”, João Mohana – 70 Anos”, “Contos Inocentes”, “Nomes e Nuvens”, “O quintal” e “O Rio”.

 

Avalizado por um denso ensaio do crítico Ricardo Leão e ricamente ilustrado por um acervo fotográfico que registra eventos culturais do período, “Sal e Sol” é leitura obrigatória e necessária para quem pretende conhecer e compreender uma visão da movimentação cultural do Maranhão nas últimas seis décadas.

 

 

 

 

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