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Impeachment e as eleições de 2022

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A definição de candidaturas para a Presidência da República em 2022 parece condicionada ao desenrolar das investigações da CPI e de como ficará, ao final, a situação política de Jair Messias Bolsonaro. Se o atual presidente puder disputar o próximo pleito, as projeções apontam como certa a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva. Caso seja impedido de se candidatar, a ausência de Bolsonaro abrirá espaço para uma candidatura de centro ou centro-direita.

 

 

Segundo pesquisa publicada em final de junho, pelo Ipec (o instituto de pesquisas substituto do Ibope), Lula teria hoje 49% dos votos, contra 23% de Bolsonaro, quantitativo superior à soma dos concorrentes. Lula venceria em primeiro turno. Pesquisa da CNT também aponta para vitória de Lula contra qualquer um dos demais pré-candidatos existentes.

 

 

Daí a pergunta: A quem interessa o impeachment de Bolsonaro? À sociedade como um todo, que não terá que aguardar o final do mandato para se livrar de um presidente homofóbico, negacionista, desbocado, avesso ao diálogo, negligente com a saúde pública e a proteção ao meio ambiente?

 

 

Algumas análises, entretanto, denunciam ações “de bastidores”, protagonizadas por setores da elite, cujo objetivo seria “sobretudo – mas não exclusivamente – impedir que o ex-presidente Lula vença as eleições em 2022 e o PT e a esquerda retomem o governo”. (Doyle, H. “Militares, empresários e políticos conspiram para tirar Bolsonaro das eleições”, In: Congresso em Foco, 24/06/2021, disponível aqui.

 

 

Vivaldo Barbosa alerta que as esquerdas estão embarcando em projetos do conservadorismo. Nossas elites “mais uma vez se mexem de forma sorrateira na política, como sempre fizeram. (…) querem promover a retirada de Bolsonaro pelas mãos de seus representantes. (…) precisam com urgência de algum artifício que lhes dê legitimidade e oportunidade para preparar outra solução, enganadora (como sempre!), visando enfrentar as forças populares. (…) sabem que não têm força política, eleitoral e moral para enfrentar a esquerda nas eleições de 2022 dada a liderança popular de Lula.” (Barbosa, V. In: Brasiliários.com, 28/06/2021. Disponível aqui.

 

 

Vivaldo deixa implícita uma crítica à posição da esquerda em relação ao projeto de impeachment, levada por uma estratégia da direita em defesa de seus próprios interesses e contra a esquerda.

 

 

O Brasil é um país de pouca tradição democrática. Em 130 anos de República, teve 35 presidentes, oito deles afastados do poder. A República já começou com um golpe.

 

 

João Goulart foi afastado do governo por golpe militar, sucedido por 25 anos de ditadura. Dos quatro presidentes eleitos no período pós-ditadura, dois foram afastados por impeachment – Fernando Collor e Dilma Rousseff.

 

 

Ninguém duvida que o impeachment contra a presidente Dilma Rousseff foi um golpe. Não o tradicional, ostensivo, com tanques na rua. Mas sutil, disfarçado, sorrateiro.

 

 

O impeachment contra Collor também parece ter sido promovido por setores dominantes – os mesmos que construíram sua candidatura e levaram-no a vencer Lula com ostensivo apoio da grande mídia, notadamente da Rede Globo. Collor foi inocentado, anos depois, dos crimes que lhe foram imputados para justificar seu afastamento.

 

 

Cabe notar que as pressões que precederam o impeachment de Fernando Collor se iniciaram quando estava em curso uma aproximação entre ele e o então governador Leonel de Moura Brizola. Collor mostrara entusiasmo e manifestara intenção de incorporar à sua proposta de governo, em âmbito nacional, o projeto do CIEP.

 

 

Sobressai, portanto, a impressão de que o instrumento do impeachment esteja sendo usado no Brasil como disfarce para acobertar, sob o manto da moralidade e do combate à corrupção, intenções subterrâneas.

 

 

Convém sublinhar que não se quer desmerecer o instrumento em si, recurso legítimo do sistema democrático. O que está em foco é a forma como tem sido utilizado, oportunista e casuística. Ao invés de servir à democracia, estaria servindo ao autoritarismo atuante na condução da política brasileira. Prática velada de golpismo, sem desgaste provocado por um golpe ostensivo perante a opinião pública, interna e externa.

 

 

Parece de todo relevante o alerta dirigido aos movimentos e partidos de esquerda. Um novo golpe parece estar sendo gestado. Não exatamente contra Bolsonaro, mas uma forma de ditar, desde agora, quem será seu sucessor na presidência.

 

 

Militantes da esquerda lotaram as ruas e proveram o apoio que as elites precisavam para legitimar o impeachment contra Fernando Collor. Por incrível que pareça, estiveram presentes também nas “jornadas de junho”, ao lado de movimentos de direita como o MBL, cujo líder pousou em foto de primeira página, esta semana, ao lado de uma sorridente Gleisi Hoffman, unidos na entrega do “superpedido” de impeachment.

 

 

Faltando pouco mais de um ano para terminar o mandato de Bolsonaro, – que provavelmente não será reeleito -, sendo Lula o favorito na próxima eleição, seria consequente, do ponto de vista político, as correntes progressistas respaldarem o impeachment de Bolsonaro? Estarem na rua, facilitando o trabalho da elite?

 

 

É válido que façam coro aos mesmos atores que armaram o golpe contra Dilma Rousseff em 2016? Ou seria melhor assumir postura mais crítica, altiva, desconfiada e cautelosa, ante a lembrança da experiência do golpe disfarçado de impeachment praticado contra a presidente eleita Dilma Rousseff?

 

 

Ora, parece enganosa a ideia de que expurgar Bolsonaro do poder resultaria, por si só, em melhora da situação do País. A narrativa estaria no fundo camuflando a necessidade de mudanças de fato. Pode sair Bolsonaro, mas as elites espoliadoras continuarão aqui, elegendo e destituindo presidentes com o perfil que desejam, e um poder legislativo dominado por representantes seus, para aprovar ou reprovar o que elas querem.

 

 

Seria bem mais consequente aguardar a oportunidade da campanha eleitoral para enfatizar, junto à população, os equívocos cometidos pela direita. Apontar como a campanha de Bolsonaro foi apoiada por grupos empresariais e pela grande mídia – agora querendo se livrar dele com endosso da esquerda.

 

 

Do site Brasiliarios.Com
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(*) Patricia Porto da Silva é professora com graduação em Letras e Biologia e mestrado em Educação. Servidora aposentada da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

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