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Ibrahim, Ibrahim, se não fosse você o que seria de mim?

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Nos fim da década de 1950, a coluna social de Ibrahim Sued, arrogante e pouco instruído jornalista de “O Globo”, era leitura obrigatória para empresários, políticos e do que se denominava “alta sociedade” brasileira, mais especificamente, carioca ou residente no Rio de Janeiro. Com erros de toda natureza, onde nunca se descartavam os do vernáculo, Ibrahim era também motivo de chacota no meio da imprensa, em especial do culto e inteligente Nestor de Holanda, que, no “Diário de Notícias”, escrevia diariamente uma coluna.

Manter coluna diária no jornal nunca foi tarefa fácil, e Nestor de Holanda tinha na qualidade literária de Ibrahim Sued um inesgotável manancial a alimentar seus escritos, o que confessava com o bordão que dá título a este artigo.

Estes fatos vem-me a mente ao ler a “Coluna do Estadão”, página A4, nesta quarta-feira, 6 de outubro de 2021, de O Estado de S. Paulo.
A incapacidade administrativa e os escândalos de toda natureza, que pipocam em ritmo crescente contra o governo Bolsonaro, têm colocado a direita, que embarcou no bolsonarismo, na desconfortável tarefa de ser uma oposição pela metade, pois não pode agredir a base, a origem dos malfeitos, que é o financismo, o neoliberalismo financeiro adotado pelo atual governo.

Esta incômoda situação de não reconhecer a crescente miséria, o desmanche social, econômico e político trazido pelo pensamento excludente, concentrador de renda e, ainda mais, arbitrário, obriga a se defender, atacando. As propostas da situação atual, dos que estão se beneficiando do bolsonarismo, não podem ser explícitas.

E a Coluna do Estadão reflete este desconcerto, atacar se defendendo, propor mudanças sem qualquer objetividade ou materialidade.
Volta-se agora contra a popularidade do ex-presidente Lula, demonstrada em recentes pesquisas de opinião, imputando-as às articulações do ex-ministro José Dirceu. E, de passagem, tentam desmontar duas candidaturas que estariam na oposição ao financismo neoliberal: do senador pelo PDT maranhense Weverton Rocha e do prefeito de Recife, João Campos, do PSB.

E se prevenindo de um relatório da CPI do Covid que vá muito além da simples incriminação de Jair Bolsonaro e atinja a base de apoio econômica (fraudes e assaltos sistemáticos à economia popular praticados pelas finanças e bancos) e de seus representantes políticos, qualifica o relator Renan Calheiros (MDB-AL) de “amigo de Lula”. E já incentiva “relatórios paralelos”, que serão divulgados como mais corretos e “sem politica” (!) pela imprensa comercial hegemônica, em oposição ao do relator da CPI.

E tem mais. Na sequência à defesa do indefensável Preço de Paridade com o Importado (PPI) que serve para a Petrobrás fixar o preço do diesel, da gasolina e do GLP (este fazendo retroceder com sérios danos, inclusive ambientais, o cozimento alimentar) e dos derivados de petróleo em geral nas refinarias, no PRONTO, FALEI!, que encerra a coluna, dá continuação à campanha, iniciada no dia anterior, contra a instauração de uma CPI para investigar a Petrobrás na Câmara dos Deputados.

O Estadão dá razão e voz ao bolsonarismo ao atribuir aos impostos o aumento exorbitante do preço dos derivados de petróleo, quando a origem deste absurdo esta no PPI. Mas como defender que se adote o preço de um produto importado (PPI), com todas as despesas, inclusive de seguro sobre o valor em dólares, se o Brasil tem petróleo, refinarias, tecnologia e capacidade instalada para colocar todos os derivados em qualquer rincão do País e a preços muito menores?

Só se explica se for para beneficiar as empresas estrangeiras e as finanças internacionais. Jamais o povo consumidor brasileiro.
E o Estadão mostra assim quem defende. Desde a criação da Petrobrás, que comemorou, no dia 3 de outubro, 68 anos, esta imprensa antinacional, que sempre depreciou o esforço do povo brasileiro para conquistar sua verdadeira independência, luta contra esta efetividade.
Primeiro dizia que não haver petróleo no Brasil e deveríamos importar derivados, governos populares e nacionalistas construíram refinarias e nos tornamos capazes e autossuficientes na produção de derivados. Depois nossos geólogos e engenheiros descobriram petróleo, culminando, em 2006, com uma Arábia Saudita, no mar territorial brasileiro, em águas profundas.

Então era preciso outro ataque, o este foi feito corrompendo e colocando corruptos na Petrobrás, para dizer que a empresa não era séria, pois não se poderia mais dizer que não havia petróleo no Brasil, que a Petrobrás não detinha tecnologia, e não havia recursos para produzir petróleo e todos os derivados aqui mesmo, em nosso País.

Agora inventa-se o PPI para que o nosso petróleo vá enriquecer empresas estrangeiras ao invés de colaborar com o melhor nível de vida dos brasileiros e promover, como sempre fez a Petrobrás, as empresas genuinamente brasileiras e as engenharias e tecnologias nacionais.
E, de modo sub-reptício, o Estadão vai evitando que se instale uma CPI que poderá trazer à tona, aflorar todo lodaçal que se oculta neste atual estabelecimento dos preços dos derivados do petróleo. Revelar quem ganha com o PPI.

 

(*) Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

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