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Haverá um novo e admirável mundo novo?

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Atribui-se a Santo Antão o diálogo no qual, ao pedir ajuda de Deus para enfrentar a tentação, obteve a resposta: “estou aqui, ao seu lado; mas quero vê-lo lutar”.

 

O Covid 19, seja natural ou produzido em laboratório, encontrou o mundo numa crise política e econômica. E acirrou contradições e recolocou problemas que, desde as últimas décadas do século XX, o triunfante sistema financeiro tem procurado evitar: as questões da globalização neoliberal e os nacionalismos.

O sistema financeiro internacional, o financismo ou como abreviamos a banca, provocara duas guerras registradas como mundiais no século XX.

 

A primeira, que historiadores chineses, talvez mais precisos, denominam Guerra Civil Europeia, foi um acerto colonial com a entrada atrasada da Alemanha e da Itália, que custaram a se formar ou unificar-se como nação, e dos Estados Unidos da América (EUA) que, em sua conquista para oeste, encontrara as colonizadoras Inglaterra, Holanda, França na Ásia e ilhas do Pacífico, para divisão do mundo em domínios destes Impérios.

 

A segunda, clara e insofismável crise do capitalismo financeiro, que produziu a troca de poder da potência financeira – Inglaterra – para a emergente potência industrial – os EUA.

 

Ao longo de meio século os modelos industriais e financeiros disputaram, com vitória do último, a dominação planetária. Mas surgia, com outras armas nesta luta, a Eurásia, liderada pela China com a ressurgente Rússia.

 

A globalização neoliberal, ideal da banca, passou a ter nova oposição, também com objetivo mundial, porém com poder não mais construído nas concentrações financeiras.

 

Alguns bons analistas temiam e temem nova guerra global. Impossível prever até onde pode ir a insanidade dos poderes, especialmente dos liberais malthusianos. Mas podemos pensar que o Covid 19 traz a esperança do nacionalismo, da busca de convivência assentada nas diferenças e no respeito às culturas humanas, ao invés de uma psicopata concentração planetária de ativos e rendas.

 

O experiente embaixador Sergio Amaral, a quem não cabem epítetos de esquerdista ou petista, com histórico em direção de órgãos governamentais e da representação nacional no Reino Unido, França e EUA, entrevistado em 09/04/2020, na Bandnews, enumerou, nas consequências da epidemia, três questões que surgem na prioridade da discussão mundial: o papel do Estado, a desigualdade social, com o fracasso da economia liberal e, como auspicioso recomeço, a solidariedade exemplificada nos voluntários atendimentos aos chamados dos Estados e associações, contrastando com o competitivismo.

 

Antes de analisar cada uma das questões enunciadas pelo Embaixador Amaral permita-me transcrever, em tradução livre, do artigo do bilderberguiano, Secretário de Estado Henry Kissinger, no Wall Street Journal (03/04/2020):

 

“Os indivíduos não podem garantir segurança, ordem, bem-estar econômico e justiça por conta própria. A pandemia provocou um anacronismo, um renascimento da cidade murada em uma época em que a prosperidade depende do comércio global e do movimento de pessoas”.

 

“As democracias do mundo precisam defender e sustentar seus valores iluministas. Uma retirada global do equilíbrio entre poder e legitimidade fará com que o contrato social se desintegre, tanto nacional quanto internacionalmente. No entanto, essa questão milenar de legitimidade e poder não pode ser resolvida simultaneamente com o esforço para superar a praga do Covid-19. A restrição é necessária por todos os lados – tanto na política doméstica quanto na diplomacia internacional. As prioridades devem ser estabelecidas”.

 

O Kissinger e quase a totalidade dos doutrinadores e agentes do neoliberalismo castrador, excludente, letal para humanidade, apostam na ignorância das pessoas, no êxito de sua pedagogia colonial, no controle que exercem da comunicação de massa, convencional e virtual, por todo mundo.

 

Vamos a um exemplo claro e atualíssimo, que o jornalista Marcos de Oliveira divulgou em sua coluna Fatos e Comentários (Monitor Mercantil, 09/04/2020), sob o título “Desenvolvidos vão mal de saúde, a começar pelos EUA”. Transcrevo: “Coreia do Norte é o país com maior relação de leitos hospitalares por habitante. A eclosão da pandemia desnudou alguns fatos que eram escondidos pelos profetas do neoliberalismo. Um, a importância fundamental dos Estados nacionais; outro, como as décadas de Estado mínimo rebaixaram a qualidade de vida das populações. Na saúde, isso é verificável nas ruas e nos números.

 

Os Estados Unidos contam com 2,9 leitos hospitalares para cada mil habitantes. Isto o coloca na 30ª posição entre 36 países ditos desenvolvidos. Atrás de nações que não fazem parte do grupo dos mais ricos, como Coreia do Sul (11,5) e Ucrânia (8,8), mas também perde para Turcomenistão (7,4), Barbados (5,8) e Argentina (5). No mesmo nível que os EUA estão Albânia e Líbano. Com todo seu poderio, os norte-americanos estão atrás da bloqueada Cuba (5,2). E, sim, a nação que encabeça a lista é a também bloqueada Coreia do Norte”.

 

Neste artigo ficamos informados que, na relação leitos hospitalares por mil habitantes, o Brasil tem pífio indicador: 2,2, junto com o Chile (primeira experiência neoliberal com o corrupto ditador Pinochet). Outros países: Japão – 13,4; Alemanha – 8,3; França – 6,5; Itália – 3,4; Espanha – 3; e o orgulhoso Reino Unido – 2,8, um deles ocupado por Boris Johnson, sucessor da desreguladora financeira Margareth Thatcher.

 

Voltemos ao embaixador Sergio Amaral e sua primeira questão: a emergência dos Estados Nacionais. Em recente pronunciamento, o especulador bilionário Georges Soros apontou que o maior inimigo dos rentistas, da banca, é o nacionalismo.

 

Que é o Estado senão a forma organizada de uma população se prover, se defender, se ajudar? O que disse Kissinger? “Individuals cannot secure these things – security, order, economic well-being, and justice – on their own”. Mas dependem de quem, dos marcianos? De seres superiores, como o senhor Kissinger naturalmente? E onde fica a igualdade indispensável para efetiva liberdade? E a tão decantada democracia?

 

E por que detratar países, impor bloqueios, fomentar guerras a pretextos claramente falsos? Ora, porque estes países adotaram políticas nacionais, não copiaram exemplos de realidades que não são suas, nem importaram ideologias, embora sejam rotulados de comunistas.

 

Façamos um rápido resumo da situação da Coreia do Norte, líder mundial em capacidade de atendimento hospitalar que, em 10/04/2020, não reportava uma única morte pelo Corona Vírus conforme estatística divulgada pelo Google.

 

Kim Il Sung (1912-1994), vitorioso nas guerras de libertação da Coreia contra o Japão e os EUA, estabeleceu o nacionalismo Zuche como filosofia de governo na República Popular Democrática da Coreia (RPDC), fugindo das duas maiores pressões – o comunismo soviético e o chinês – e, como óbvio, das colonizações ocidentais e nipônica. Este nacionalismo e a derrota na guerra, onde se usaram todas as armas proibidas para derrotar a Coreia, criaram os mitos divulgados pelos EUA em todo mundo para ultrajar, afrontar e desfigurar a RPDC, assim obtendo os bloqueios e o isolamento do país.

 

Em suas memórias – No Transcurso do Século – Kim Il Sung mostra como chegou à conclusão de que a soberania da Coreia só poderia ser conquistada pelos próprios coreanos. E esta soberania se traduz, hoje, não apenas no poder nuclear, mas na educação e saúde da população e num dos melhores sistemas de mobilidade urbana, mesmo comparado com os europeus.

 

Em “A Revolução Coreana”, de Paulo Fagundes Visentini, Analúcia Danilivicz Pereira e Helena Hoppen Melchionna (Editora Unesp, SP, 2015) lê-se a seguinte frase que Kim Il Sung dirigiu a estudantes universitários:

 

“Mantenham seus pés firmemente plantados nessa terra e observem o mundo. Sejam a confiável espinha dorsal da Revolução Songun, apoiados numa mente nobre e num conhecimento profundo”. A Revolução Songun foi sintetizada por seu filho e sucessor Kim Jong Il, em janeiro de 2003:

“a independência representa a vida do ser social, das massas populares e do país, a nação em geral. E a ideia Juche, centrada no ser humano, é a ideia da independência. Todas as lutas revolucionárias são efetuadas para alcançar a independência. A ideia Juche combina corretamente o amor às massas populares com o amor ao país, à nação, e a independência das primeiras com a dos segundos, e indica de modo científico o caminho para conseguir o objetivo da nossa causa”.

 

Prossigamos no desdobramento da análise do embaixador Sergio Amaral.

 

Países que dispunham de sistema de saúde pública invejável, como o Reino Unido, após 40 anos de políticas neoliberais passam a ser campeões em casos fatais do Covid 19. Conforme a estatística reportada pelo Google que afirma ter a Organização Mundial de Saúde (OMS) como fonte, são os doze países mais atingidos, com o número de casos e de mortes:

EUA             –  477.161 e 17.842;    Espanha   – 157.053 e 15.970;

Itália             –  147.577 e 18.849;    Alemanha – 119.624 e   2.591;

França         –    86.334 e 12.210;    China        –    81.707 e   3.336;

Reino Unido  –  70.272 e   8.958;     Irã             –    68.192 e   4.232;

Turquia         –   47.029 e   1.006;    Bélgica      –    26.667 e   3.019;

Suíça            –   24.184 e      959;    Holanda    –     23.097 e   2.511.

 

Por outro lado, além da RPDC não reportaram mortes, entre outros, o Vietnã, a

 

Guiné Bissau, Camboja, Iêmen, Mongólia, Ruanda e Burundi. Também países com pequena população, mas em Andorra (74.794 habitantes), 25 mortes, bem como no paraíso fiscal luxemburguês, de 602 mil habitantes, suas 52 mortes devem lhe dar indicador relevante.

 

Confirma-se, malgrado a sinuosidade do artigo de Kissinger, que o neoliberalismo, a globalização fazem mal para saúde física, e muitas outras, da população do planeta.

 

A segunda questão levantada por Sergio Amaral é quase um corolário da primeira. Como reduzir as desigualdades se a banca impõe o sistema concentrador de renda em termos globais. Apenas se os países, adotando Estados Nacionais, fugirem da avassaladora, golpista, corrupta ação do sistema financeiro. E, em consequência, serem denominados ditaduras comunistas, com bloqueios, restrições comerciais e de acesso a financiamentos por organismos internacionais.

 

Quanto tempo, fora de uma crise decorrente de pandemia, durará a solidariedade?

 

Kissinger nos ameaça, a brasileiros e a todos: “Precisamos desenvolver novas técnicas e tecnologias para controle de infecções e vacinas proporcionais em grandes populações. Cidades, estados e regiões devem se preparar consistentemente para proteger seu povo de pandemias, através de armazenamento, planejamento cooperativo e exploração nas fronteiras da ciência”.

 

O Clube Bilderberg reunirá sua centena e meia de representantes das finanças mundiais, como o faz desde 1954, no verão do hemisfério norte. A data e convidados ainda não foram comunicados. Um tema que vem ocupando os centros de pesquisa e instituições que são mantidos pelo Clube é do domínio das vontades. Meios informacionais e biofísicos estão em estudo.

 

Com fracasso do modelo neoliberal, os confinamentos testados na contenção do corona vírus (independente da eficácia médica) e outros modos de controle social devem ser analisados.

 

Assim, a resposta aos nacionalismos e às políticas públicas dos Estados pode ser um novo surto opressor, desta vez com mínima reação popular que estará colocada literalmente entre a vida uberizada, escravizada, sem direitos, e a morte pelos isolamentos, pelos confinamentos preventivos de ameaças terroristas, migrações famélicas e o que possa assustar e provocar medo.

 

Temos o dilema que Darcy Ribeiro, em sua genial premonição, deixou registrado em “Os Brasileiros I Teoria do Brasil”, de 1969.

 

“Apesar das prodigiosas máquinas de doutrinação, de suborno e de repressão ideológica montadas para erradicar todo questionamento e qualquer contestação; apesar do domínio estrangeiro, da imprensa, do rádio, do cinema e da televisão, utilizados intensivamente para impor ao Brasil uma nova incorporação histórica; apesar, também, da copiosa produção paracientífica das instituições oficiais de pesquisa” teremos a capacidade de compreender a conjuntura e “formular um projeto nacional realista e motivador de um desenvolvimento pleno, autônomo e autossustentado e apto, ademais, para encontrar a estratégia que permita mobilizar as forças populares para enfrentar a conjuntura de interesses minoritários que mantem a nação atada ao subdesenvolvimento”.

 

Como o corona vírus, o corona Bilderberg também passará.

 

Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado.

 

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