Passaram-se apenas 5 anos do golpe do impeachment, mas parece uma eternidade, desde que o povo brasileiro perdeu seu direito de ter lugar ao sol da justiça social.

Em 2014, explorando os primeiros efeitos negativos da segunda crise econômica internacional e estimulando os medo das classes médias, amamentado pelo racismo estrutural, da ascensão social e educacional da população pobre, preta e indígena, a oligarquia financeira, midiática e a direita parlamentar, militar e judiciária se uniram para derrotar Dilma nas eleições deste ano.

Não conseguiram eleger Aécio Neves, mas a estreita vantagem de Dilma virou na boca do candidato derrotado da direita a senha para o golpe do impeachment. E essa tem sido a senha dos golpes na América Latina, sempre que o candidato de centro-esquerda vence com margem apertada.

A partir de fevereiro de 2015, com a eleição para a presidência da Câmara do chefe da corrupção parlamentar Eduardo Cunha, de onde passou a agir como primeiro-ministro (com a aceitação da mídia e da oligarquia financeira), a presidenta Dilma perdeu a sua condição de governar e de enfrentar a crise econômica, cujo agravamento era politicamente estimulado pela maioria golpista da Câmara.

Esse foi o caminho seguido pela construção do golpe até 31 de agosto de 2016, quando a maioria ensandecida do Senado aprovou o afastamento da presidenta Dilma por meio de um impeachment montado em bases falsas. Depois dessa farsa que custou muito caro para o povo brasileiro, foi o próprio vice traíra Temer que reconheceu o impeachment como golpe de estado.

Entretanto, esse triste e trágico roteiro golpista já é bastante conhecido dos setores democráticos da sociedade brasileira. O que importa agora é dizer que os governos nascidos do golpe de 2016, os governos de Temer e Bolsonaro, fracassara completamente em adotar um projeto econômico minimamente viável para o Brasil.

A principal força da direita, o PSDB, que planejou o golpe do impeachment porque há quatro eleições presidenciais sucessivas não conseguia ganhar do PT, se desgastou tanto com o desastre Temer, que acabou perdendo completamente a condição de eleger em 2018 o seu candidato Alckmin, e por essa via recuperar o governo perdido para Lula no longínquo 2002.

Depois de chegar a prender Lula para impedi-lo de ser candidato, o PSDB/Globo/Moro acabou escolhendo no segundo turno o mais desclassificado e despreparado dos candidatos, o fascista Bolsonaro. Pensava controlá-lo, mas foi por este controlado, pois Bolsonaro manipulou muito bem o medo que a oligarquia tem de Lula.

Hoje, quase 600 mil mortes depois e com o Brasil totalmente a deriva econômica, social e politicamente, as elites neoliberais que organizaram o golpe do impeachment se afastaram do genocida e tentam rearticular nova candidatura, a que chamam de “terceira via”.

Enfrentando a ameaça concreta de autogolpe de estado no dia 7 de Setembro, tais elites neoliberais buscam incutir desesperadamente na classe média a fajuta narrativa de um nome “de centro” para romper a polarização “autoritária” entre Lula e Bolsonaro.

A burguesia liberal, com o Globo e a Folha de S. Paulo como principais porta-vozes, escondem o fato de que se polarização há, não é entre Lula e Bolsonaro, mas entre democracia e fascismo, ou mais amplamente, entre a civilização e a barbárie bolsonarista.

E é para defender a democracia e a civilização que a coisa mais importante que o campo popular e democrático tem de fazer é ocupar as ruas no dia 7 de Setembro para mostrar força e lutar contra o golpe fascista que o isolado e desesperado Bolsonaro pretende dar.

(*) Val Carvalho – escritor e militante de esquerda