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Fui alfabetizado numa “Brizoleta”

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No ano de 1971, iniciei minha alfabetização no interior de Taquara em uma escola oriunda da grande Campanha pela Alfabetização no Rio Grande do Sul lançado pelo governador Leonel Brizola. Eram as “Brizoletas”, também conhecidas como as “escolinhas do Brizola”, que são fruto do projeto denominado “Nenhuma Criança Sem Escola no Rio Grande do Sul” criado por Leonel Brizola em 1946 e implementado a partir 1959, quando é eleito como governador do Estado. Brizola repetiu em escala estadual, o que já havia feito em seu mandato como prefeito de Porto Alegre.

 

Multiplicou as salas de aula, criando uma rede de ensino primário e médio que atingiu os municípios mais distantes, inclusive nas zonas do Pampa, de baixa densidade populacional, criando 5902 escolas primárias, 278 escolas técnicas e 131 ginásios, colégios e escolas normais, totalizando 6302 novos estabelecimentos de ensino. Abriu 688.209 novas matriculas e admitiu 42.153 novos professores.

 

Para possibilitar isso, houve grande mobilização da população e apoio dos prefeitos. As prefeituras cediam terreno e transporte, e mão de obra com os mutirões populares, no passo que ao estado cabia o fornecimento de recursos materiais e financeiros. Essa mobilização possibilitou a construção de muitas escolas em pouco tempo.

 

 

É importante salientar que na época metade dos gaúchos morava no campo, e um terço da população era analfabeta, quando o então governador Leonel Brizola (falecido em 2004 aos 82 anos), decidiu que todas as crianças tinham que ser matriculadas na escola.

 

 

Recordo que os alunos ganhavam calçados e material escolar.

 

Outro dado interessante é que esse que foi o maior programa de investimento em educação realizado até hoje no Rio Grande do Sul, no período que Brizola assumiu o governo não tinha dinheiro no caixa sequer para pagar os funcionários públicos, quem diria para levar adiante algum projeto novo, como o Plano de Escolarização (Nenhuma Criança Sem Escola no RS), Brizola fez como fizeram alguns países, inclusive o Brasil em 1942 no Governo Vargas, em tempos de guerra: lançou as letras ou Brizoletas. Elas eram o equivalente a bônus de guerra. A população passou a usar brizoletas como usava as cédulas de cruzeiro para pagar as contas, abastecer o carro e tudo o mais. As Brizoletas são as cédulas/letras lançadas pelo governador Leonel Brizola, através da Lei 3.789 de 30/07/1959 do Estado do Rio Grande do Sul.

 

Fiz esse pequeno resgate histórico para relembrarmos a relevância de Leonel Brizola e sua obstinação pela educação.

 

Quando criança eu morava em uma localidade onde haviam 16 crianças em idade escolar, e a escola mais perto ficava a 6 quilômetros que eram percorridos a pé, ou a cavalo. Felizmente quando começei frequentar a escola , encontrei uma Brizoleta a poucos metros da minha casa, que foi construida no governo de Leonel Brizola e pelo prefeito de Taquara Willibaldo Samrsla na década de 60. Eram escolas feitas de madeira, aconchegantes que nos enchiam de orgulho, por termos uma em nossa pequena comunidade, a gente tinha um sentimento de pertencimento naquele momento que a alfabetização, o ato de ler, escrever nos colocavam como cidadãos gaúchos e brasileiros e um novo mundo de sonhos se abria.

 

As escolas passaram a ser núcleos de atuação coletiva das comunidades, era um local de reuniões, festas beneficentes, chegaram livros que praticamente não existia nas localidades pequenas e remotas, a alfabetização passou a abrir o mundo para os filhos de uma geração de pais semi alfabetizados que tiveram muita dificuldade para estudar, pois além de poucas escolas, trabalharam duro para criar os filhos e sustentar suas famílias. Uma geração que suou sangue, e nos deixou um legado de honra e ética, que muitos esqueceram.

 

A escola aproximou as familias, as mães dos diferentes lares faziam bolos, doces, pão caseiro e outras guloseimas, e mandavam para a escola, onde era repartido igualmente entre todos.

 

Jamais esquecerei num dia desses vieram vários pares de “conga”, aquela azul e branco de lona, ficamos “faceiros”, cada um saiu com um par de conga nos pés.

 

Muitos dos colegas não tinham calçados, e nos dias frios vinham de pés descalços ou chinelo de dedo, cortando a geada, com o advento da vinda da escola, muitos receberam pela primeira vez na vida um calçado fechado, os materiais escolares que a maioria tinha eram precários, porém com o Programa de Alfabetização, milhares de crianças tinham o básico para frequentar uma escola com decência.

 

A escola passou a ser um símbolo de união e dignidade para a comunidade.

 

Quando vejo as festas de São João, vem na memória as festas que fazíamos na “Brizoleta” Escola Municipal Rui Barbosa, as famílias doavam pipoca, doces, vinho para o quentão, era uma festa onde todos colaboravam, e as famílias todas compareciam. Os nossos rojões era os bambus (taquaras) que colocávamos inteiras na fogueira e cada nó que era queimado dava um “tiro” igual um rojão.

 

O mundo estava em transformação, os estudantes, os intelectuais, os trabalhadores, os artistas, movimentavam-se freneticamente em busca de igualdade, liberdade e humanidade. O lema era: “Faça amor, não faça guerra”. Um horizonte aberto era vislumbrado por uma geração que até os dias atuais ainda resiste, que se indigna com a injustiça e o ataque as liberdades individuais, a democracia e a falta de solidariedade.

 

Mas como diz Marcelo Nova: “”Um dia meu pai chegou em casa, nos idos de 63/E da porta ele gritou orgulhoso, agora chegou a nossa vez /Eu vou ser o maior, comprei um Simca Chambord…

 

Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos/Vieram jipes e tanques que mudaram os nossos planos/Eles fizeram pior acabaram com o Simca Chambord”…

 

Eu incluo que acabaram com o sonho das “Brizoletas” e da liberdade.

(*) Paulo Wagner de Oliveira é representante autônomo Taquara, Rio Grande do Sul

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