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Franz Kafka, uma leitura revolucionária

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Marcello Tarì vê no autor de O processo “um dos maiores comunistas de todos os tempos”. Em livro recém-lançado pela Sobinfluencia, ele argumenta: escritor desnudou em sua obra a lei dos poderosos pelo que ela é – farsa. Sortearemos um exemplar

 

 

Apesar de provavelmente ser um dos autores mais lidos do século XX em diante, Franz Kafka segue eludindo a possibilidade de que sintamos que o interpretamos plenamente bem. Como nota Walter Benjamin em uma reflexão sobre o escritor de Praga, Kafka “tomou todas as medidas possíveis contra a interpretação dos próprios textos”. Eles parecem se referir, em um só movimento, a toda a experiência moderna e a um lugar e tempo não-identificáveis, dos quais conseguimos captar apenas fragmentos. Esta, aliás, é uma das principais forças de sua literatura.

 

 

O pesquisador italiano Marcello Tarì propõe em um escrito recente uma interessante chave de leitura para Kafka, que realça seu caráter revolucionário advindo do desnudamento demolidor das leis e dinâmicas dos poderes que governam. Há poucos meses, esse material chegou ao Brasil pela mão de nossos parceiros da editora paulistana Sobinfluencia: o livro saiu com o título O partido de Kafka, tradução direta de seu nome original em italiano.

 

 

Tarì parte de várias criações do autor nascido no Império Austro-Húngaro para ressaltar a visão bastante clara que ele desenvolveu sobre o lugar que a lei ocupa na construção do poder: sua natureza seria a de um artifício que legitima de forma quase “mágica” a submissão de uns a outros. Como nota o italiano, os poderosos nunca tiveram receio de agir fora ou à margem dela – as consequências do ilegalismo são criadas com o sentido de adestrarem apenas ao povo, punindo-o pela insubmissão.

 

 

Os contos escolhidos para análise, menos conhecidos que A metamorfose ou O castelo, são realmente notáveis. “A questão das leis” (1920), cujo enredo norteia boa parte do argumento de Tarì, trata de  um país onde a legislação é completamente desconhecida de seu povo, sendo propriedade exclusiva dos nobres. Curiosamente, a maioria da população se conforta com isso: alguém com autoridade está cuidando das coisas, e isso basta. Já “Diante da lei” (1914) fala de um camponês que, desejoso de entrar na Lei, é inexplicavelmente impedido durante décadas por um guarda. Assim que o camponês morre às portas da Lei, o guarda abandona o posto. Como não podia faltar, Marcello Tarì também trata de O processo (1925), e dos labirintos burocrático-legais enlouquecedores percorridos pelo réu Joseph K. no romance, para esquadrinhar esse fenômeno.

 

 

Porém, mais que fazer uma viagem de interesse literário pelas aparições da lei no que Kafka escreveu, Tarì atribui um sentido eminentemente político a esse olhar do autor. Para ele, o tímido escritor de Praga está se opondo às táticas de conhecer as leis e delas se apropriar – aplicada “pela maioria do povo” – ou de simplesmente negar as leis que existem – aplicada “por um pequeno partido” – e trazendo uma nova proposta: a de destituir as leis, profaná-las, desvelar que só existem enquanto um fazer dos poderosos, desnudar a farsa de sua existência.

 

 

Por essa visão, Marcello Tarì confere a Kafka o mérito de nada menos que “um dos maiores comunistas de todos os tempos”. Seus escritos, munidos dessa concepção do mundo, seriam um poderoso combustível para a práxis revolucionária de nossa época.

 

 

Instigante, O partido de Kafka tem como influência mais frutífera o Benjamin leitor de Kafka, registrado em ensaios e cartas trocadas com Gershom Scholem. O filósofo alemão nota a riqueza das percepções de Franz Kafka sobre a crise da lei (e suas explorações sobre a pré-história da modernidade, o tempo da lei não-escrita) e como a percepção dessa crise, pelo povo, como transformação do mundo em um inferno, pode abrir uma janela para a alternativa messiânica-revolucionária que vem trazer a redenção do povo.

 

 

O livro foi traduzido para o português por Andityas Moura, professor da UFMG cuja obra recente Para além da biopolítica também foi comentada aqui no Outros Quinhentos. Andityas assina, além disso, o prefácio do escrito de Tarì – autor, aliás, já relativamente conhecido no Brasil por Um piano nas barricadas, uma história do autonomismo italiano dos anos 70.

 

 

Um comentário que é impossível não repetir a cada vez que se comenta um livro da Sobinfluencia: o trabalho gráfico da editora é especial, realmente muito bom. Editora que, aliás, mudou de casa. Desde semana passada, quando rolou a inauguração do novo espaço, você pode encontrá-los na Galeria Metrópole, na avenida São Luís, no centro de São Paulo.

 

 

Em parceria com a Sobinfluencia, sortearemos 1 exemplar de O partido de Kafka, de Marcello Tarì entre os apoiadores do jornalismo de Outras Palavras.

 

 

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