Feministas e ex-alunas lamentaram hoje, 14, a morte da professora titular aposentada do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), Lourdes Maria Bandeira. Ela faleceu no último domingo, 12, aos 72 anos, em decorrência de choque séptico, embolia pulmonar e Acidente Vascular Cerebral (AVC), de acordo com informações da família.

Produtora de conhecimento, Lourdes Bandeira, que estava em tratamento contra um câncer de mama, é referência nos estudos sobre gênero, feminismo, violência contra a mulher, cidadania e políticas públicas.

Ativista feminista, ela impressionava quem tinha a oportunidade de ouvi-la, pela clareza de seus argumentos. O sobrinho da professora, o ator Rodolfo Córdon, afirmou que ela foi “uma mulher à frente do seu tempo”, que deu destaque e relevância à discussão acerca da opressão sofrida pelas mulheres.

Lourdes Bandeira deixa um legado para a luta feminista brasileira, que é reconhecido em depoimentos de feministas e ex-alunas, ouvidas pelo Jornal Brasil Popular.

Depoimentos

Mylena Calazans, advogada, feminista, integrante do Consórcio Lei Maria da Penha e do Comitê da América Latina e Caribe para Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM/Brasil): “Recebemos a notícia da partida da Professora Lourdes com muita tristeza. Uma partida precoce e uma grande perda para a família, amigos/as, academia, feminismo e para o Consórcio Lei Maria da Penha. No grupo do WathsApp do Consórcio tivemos o privilégio de conviver e aprender muito com a Professora Lourdes.  Foi e será uma referência ímpar nos estudos feministas, de gênero e no enfrentamento à violência contra as mulheres. Uma realizadora, aguerrida e sempre precisa nas palavras e ações. Integrante do Fórum de Mulheres do DF, participava do 8 de Março, das Vigílias pelo Fim da Violência contra as Mulheres quando éramos poucas a ocupar a pista do Eixo Monumental na altura do Palácio do Buriti ou na frente do STF com uma faixa na mão reivindicando respeito, reconhecimento aos direitos e a uma vida sem violência para nós mulheres. Lembro da primeira vez que conheci Lourdes presencialmente. Em 2003, no seminário na Câmara dos Deputados quando o Consórcio apresentou o anteprojeto do que viria a ser a Lei Maria da Penha.  Lourdes participou das discussões para elaboração desta importante conquista, assim como da Lei do Feminicídio, em 2015. Na equipe da extinta SPM, soube com maestria fazer a defesa e tecer para que essas normas e a transversalidade de gênero (outro objeto de seus estudos) fossem parte das ações governamentais e da vida das mulheres brasileiras. Lourdes, presente!”

 

 

Analba Brazão, feminista, educadora do SOS Corpo e militante da Articulação de Mulheres Brasileiras:

“Lourdes Bandeira nos deixa muita saudade! Foi e continuará sendo uma das minhas referências nos estudos e pesquisas sobre violência contra as mulheres. Era uma militante feminista que fez a diferença por onde passou. Na academia, na SPM e mesmo no movimento feminista. Lembro da sua altivez nas conferências de políticas públicas para as mulheres! Como ela deixou sua marca! Gratidão, Lourdes! Seus ensinamentos permanecerão conosco.”

 

Andreza Xavier, Secretária de Mulheres do PT/DF:

“A professora Lourdes Bandeira foi uma grande referência feminista no Brasil. Foram muitas as contribuições sobre as relações de gênero, o enfrentamento às violências e ao feminicídio, as políticas públicas para as mulheres. Seu legado permanecerá na história do feminismo. Lourdes Bandeira, presente!”.

 

Isabel Clavelin, jornalista:

“Lourdes Bandeira foi minha co-orientadora de doutorado na UnB. Uma professora na grandeza do substantivo, rigorosa, disponível, inteira. Jamais se intimidou diante do machismo, chegou a figurar entre lista de docentes a serem assassinadas na UnB. Lecionou sobre gênero, produziu conhecimento sobre feminismos e formou estudiosas e estudiosos em teorias feministas. Teve produção intelectual robusta e definidora de debates sobre violência contra as mulheres e feminicídio. Fomos colegas na Secretaria de Políticas para as Mulheres em dois momentos diferentes, nas gestões Nilcéa Freire e Eleonora Menicucci. Ela nos cargos de direção e eu, no assessoramento em comunicação. Fomos amigas, companheiras. Caminhos cruzados pelos direitos das mulheres, que rechearam positivamente os nossos encontros e feitos no governo federal e na universidade”.

Cleide Lemos, feminista, professora e especialista em direitos humanos

“As mulheres brasileiras e, em especial, nós do DF, devemos muito à coragem e à inteligência da professora Lourdes Bandeira. Firme em seus propósitos e posicionamentos, ela foi incansável na defesa das pautas feministas. Nunca se deixou intimidar por nada nem tinha paciência para tergiversações. Sabia o que precisava ser feito e fazia. Foi e continuará a ser referência nacional na luta pela equidade de gêneros, no enfrentamento à violência contra as mulheres e no combate ao feminicídio. A voz dela sempre ecoará em nós! Lourdes Bandeira, presente!”

 

Ricardina Almeida, feminista:

É difícil falar sobre perdas como a de Lourdes Bandeira. Prefiro mais uma vez senti-la aqui do lado, ela e Mireya Soares, desde aquele primeiro governo do PT no DF: estímulo, força, debates com o feminismo nascente e sua luta contra o machismo e a violência contra as mulheres na capital do país. Lourdes não se foi, ficou “encantada” no grande legado que deixou para todas nós, feministas do DF e do Brasil”.     

 

Benedita Nascimento, historiadora e feminista:

“Lourdes Bandeira, foi uma mulher que ensinou a muitas…, além da sua valorosa contribuição, atuando com maestria, na elaboração e consolidação das políticas públicas para as mulheres no Brasil.”

 

Hellen Frida, feminista:

“Quando uma mulher morre todas nós sentimos. É uma de nós que faz a passagem, muitas vezes sem que estivéssemos preparadas. Imagina quando recebemos a notícia de passagem de uma de nós que é também um pouco de cada uma de nós… A professora Lourdes não só foi uma das principais pensadoras e pesquisadoras que possibilitaram a construção da Lei do Feminicídio, como também foi uma das principais influências para o pensamento feminista brasileiro. Enquanto feminista me sinto implicada em continuar a luta inspirada em suas reflexões e ensinamentos. “Nos queremos todas vivas!” Lourdes Bandeira, presente!”.

 

Trajetória Acadêmica de Lourdes Bandeira

Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Lourdes Bandeira tinha mestrado em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), doutorado em Antropologia pela Université René Descartes – de Paris V e Pós-Doutorado na área de Sociologia do Conflito, na École des Hautes Études en Sciences Sociales-EHESS. Desde 2005, fazia parte do Departamento de Sociologia da UnB e coordenava o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Mulher (NEPEM), que registra, em nota, a perda de uma de suas “referências centrais”. Integrante do Conselho de Direitos Humanos da Universidade de Brasília (CDHUnB), foi Editora-chefe da Revista Sociedade e Estado, e membro do comitê editorial da Editora da UnB. Desenvolvia projetos de pesquisa sobre “Feminicídio no Brasil” e “Relações de cuidado e cuidadoras nas redes inter-institucionais de apoio às mulheres vítimas de violência”. Lourdes Bandeira atuou como Secretária de Planejamento e Gestão e Secretária Adjunta da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal (2008 a 2011 e 2012 a 2015). Na década de 1980, Lourdes Bandeira foi professora na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).