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Fanatismo

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Fanum, em latim, significa templo, religião. Daí provém a palavra fanático, seguidor de um templo, imbuído da doutrina, intolerante com outras visões, furioso e delirante na defesa das suas, cego para perceber a realidade. Embora em todos os templos haja fanáticos, nem todos que  frequentam templos o são. Há-los na religião, no esporte, na música, na arte, na política.

 

 

Na conjuntura brasileira das eleições de 2022 nota-se que o fanatismo políticoestá cada vez mais presente nas hostes do autoritarismo conservador neoliberal de Jair Bolsonaro. Esse fanatismo se ancora no símbolo mitificado da pessoa do chefe ou líder cercado de asseclas, organizando-se como máquina de ódio, inclusive com uso dos algoritmos, com discursos de pastores e expressões de violência física. A intolerância fanática está sendo impulsionada nas redes sociais, nos templos, nas ruas.  Essa intolerância se manifesta tanto de forma agressiva como de formadisfarçada pela narrativa distorcida. A forma agressiva do fanatismo xinga adversários, líderes e instituições, ataca templos religiosos, usa armas para matar ou ferir adversários que são demonizados. A intolerância da narrativase transveste de mentira ou fakes paraobter adesão, fortalecer o mito, entusiasmar e cegar os seguidores. Quando revelada ou combatida, a mentira vira desmentido, não se retratando pela autocrítica, mas fornecendo outra versão da mesma, atribuindo-se a versão inconveniente a manobras de um inimigo que passa ser atacado ao invés de se olhar o conteúdo da mensagem. É o paradoxo das fake news. O fanatismo mobiliza os seguidores em torno da luta do bem contra o mal, não importando que a versão seja inventada, contanto que desvie o foco da verificação dos fatos  e mantenha adesões no front da guerra política. Um exemplo é o caso do anúncio da desindexação dos salários e aposentadorias do índice de inflação por parte do Ministro da Economia, Paulo Guedes,inconveniente na campanha política. Ao invés de demitir o Ministro para desmentir a versão divulgada, Bolsonaro muda a versão dada e mantém o Ministro, não assumindo a verdade e desqualificando quem a diz, principalmente quem a divulga. Ou seja, a verdade é contornada para manter a adesão de que o mito jamais vai provocar o mal ou danos. Fanáticos não enxergam a divergência e definem, no jogo das obscuridades e ilusões, que  o divergente é que seja o incrédulo, o resistente ao bem, o imbuído do mal.

 

 

O fanatismo se constrói na estratégia de mobilizar apoios ancorados na cultura da intolerância e da mentiraestruturadapela voz de pastores, pelas fake news como luta do mal contra o bem. Ao adversário se atribuiindevidamente o que é considerado como mal ou ofensa a valores religiosos ou conservadores defensores da  heteronormatividade,  da submissão da mulher, dos banheiros binários.  O fanatismo torna as pessoas cegas aos argumentos divergentes e à realidade em mutação.Busca insuflar a emoção,  exaltando“a pureza” ( por exemplo incorruptibilidade)  do mito, não considerando a  argumentação consistente. Desfoca a visão do contexto para incendiar o ódio a partir de um aspecto ou dimensão particularextrapolada como  violentadora da acomodação confortável no machismo, no racismo, no autoritarismo,  como sendo normais e como vontade divina.Ao invés de argumentar com fatos,  os fanáticos apelam para o imaginário do divino, da pátria, da liberdade, da família tradicional como se fossem  ameaçadas.

 

 

Constroem  mentiras à exaustão de que o adversário vá promover  a  homossexualidade,  o aborto, a destruição da família. Elimina-se até mesmo a abordagem do tema da opção de gênero e de versões diferentes da história nas escolas. Prega-se a liberdade, mas impõe-se o silêncio ou a versão que interesse a ordem dominante e a submissão.

 

 

Diferentemente do fanatismo, a educação política consciente se foca na análise política do contexto e dos interesses em jogo para se construir  um imaginário que emerja do movimento histórico de questionamento da exploração de uns sobre os outros enquanto blocos de poder. Isso não interessa aos fanáticos bolsonaristas, negacionistas da exploração do trabalho , da ciência, da argumentação. Os mais xucros partem logo para o xingamento de baixo calão como é feito em relação a ministros e ministras da Suprema Corte. O fanatismo conduz à destruição da institucionalidade democrática para o exercício do poder ditatorial, como foi o caso de Hitler e é o caso Victor  Orbán na Hungria.

 

 

(*) Por Vicente Faleiros, doutor em sociologia e  professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

 

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