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“Esse amor que nos consome”

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Graças à sugestão de Marcus Mello, amigo que fiz recentemente no grupo Leituras para depois do fim do mundo, criado por Denilson Lopes, assisti ontem à noite ao filme Esse amor que nos consome, dirigido por Allan Ribeiro (*). Queria ver algo distinto, não sabia bem o quê, mas confiei no critério do Marcus, da equipe da Cinemateca Capitólio, da Secretaria Municipal de Cultura, de Porto Alegre. Nesses tempos em que tudo está concentrado sobre um único, urgente e inevitável tema, busco alento, como tantos, no desfrute da leitura e do cinema.

 

Ter entrado, pela primeira vez, em um grupo de leitura foi surpreendente. Conversar sobre grandes romances – esta semana terminaremos o notável, extra-ordinário, O homem sem qualidades, de Robert Musil – num momento em que as emoções de todos estão à flor da pele, tem sido prazeroso e quase terapêutico. Recomendo a experiência, bem como o romance, um retrato do decadente império austro-húngaro, a partir de personagens que, em 1913, preparam uma grande Ação Paralela (patriótica), que nunca acontecerá. É um romance de ideias, por longos momentos absolutamente ensaístico.

 

Esse amor que nos consome é um documentário sobre o mais antigo grupo afro-brasileiro de dança contemporânea, sediado na Lapa, dirigida por Rubens Barbot e pelo argentino e Gatto Larsen, companheiro de Rubens há quarenta anos. Como tantos dos filmes híbridos de hoje, é também um exercício estético, além de registrar o que ocorre com os protagonistas, que são personas que representam a si próprios. No filme e, imagino, na realidade, Barbot e Larsen estão tentando continuar a viver e trabalhar na velha casa decadente (e emprestada) onde a companhia desenvolve seus trabalhos. É uma luta – luta também feita no astral, ajudados que são Barbot e Larsen por seus orixás e apoiados no fato de a mãe de santo de Larsen ter visto, nos búzios, que a casa continuaria a poder ser utilizada por eles – contra as leis da sociedade, no caso a de um banal proprietário que deseja o melhor preço por seu imóvel. Resistir confiando em Iansã e Exu, que aparece no filme em alguns momentos. Talvez estejam resistindo desse modo muitos dos que vemos por aí atirados em todas as ruas de todas as cidades, todos os estados, todas as regiões deste país.

 

O amor que os consome não é o romântico que à primeira vista imaginamos, trata-se do amor à dança. Fundados nesse amor, eles sonham uma variedade de espetáculos, desde Otelo a um outro, do qual nada se fala e que tem o título do filme – o filme se faz, o que é o melhor modo de falar.

 

Querer resistir naquela Casa é querer fazer sobreviver um desejo, um projeto, compartilhado por uma comunidade de artistas espontâneos, pertencentes à camada excluída da sociedade. Há uma cena em que Barbot conversa com um amigo morador de rua a quem promete duas entradas para uma próxima apresentação – bêbado, miserável ele demanda a experiência de ver a dança. Salve essa arte praticada sem lucro, sem mecenas, esses artistas (e técnicos) que estão tentando resistir durante a pandemia, nem se imagina como.

 

A companhia reúne dançarinos pobres, a maioria negra (como Barbot), todos dotados dessa força vital e dessa graça única que dançarinos brasileiros têm, que excedem a simples técnica. Larsen diz, em off, belos textos que pontuam o filme em distintos momentos, textos que imagino escritos por ele, que fala um português impecável. Textos que acompanham imagens do centro do Rio e colocam reflexões poéticas sobre a cidade e o dia a dia de seus habitantes.

 

Gatto e Babot são um casal. Me emocionou ver assim, um casal, um duo de seres semelhantes e distintos que construíram uma vida juntos e formaram uma companhia. O que os move é o companheirismo – tão distante do amor romântico -, a criação, a sensibilidade para o belo. Para os que têm tanta dificuldade de aceitar o amor entre pessoas do mesmo sexo, o filme é mesmo didático. Em todo o filme não há uma cena de sexo ou de erotismo entre eles, apenas a sombra levíssima de um erotismo velado, discreto, intuído. Paira, no entanto, na cumplicidade entre os dois – como no take em que Babot expressa seu desejo de comer risoto de camarão e Gatto acede, dizendo que também precisam de flores na Casa.

 

As cenas de dança do filme são o ponto alto dessa história real e imaginária. Real porque é um documento de luta, o retrato de seres concretos que acreditam no caminhar, no seguir, no resistir pacificamente; imaginária porque talvez não haja orixá que resista à força do capital.   A cena da dança entre Otelo e Desdêmona, em frente ao mar, é apenas deslumbrante; a cena da dança entre os rapazes da noite da pobre Lapa é dura e tocante; a cena de dança final, protagonizada por Babot que a “improvisa” ao ouvir uma música que o companheiro coloca, é de uma sensibilidade a toda prova: fala da relação dos dois, da sutil parceria.

 

Lendo a crítica sobre o filme publicada no AdoroCinema me surpreendeu a frase: “O grande problema do filme é justamente a indecisão sobre o que pretende ser.” Acho que um dos méritos do filme é não pretender ser algo definido, estipulado. É um registro delicado sobre a vivência de dois seres peculiares e seus alunos, além de ser uma declaração de amor à dança e ao amor em si.

 

Na cena final, após um ensaio dos alunos ao som de percussão, Bardot pede ajuda para colocar na janela o pano sobre o qual se moviam os dançarinos, a fim de tomar sol e ar. Querer exterminar o cheiro de mofo do que então vemos ser um enorme tapete, construído pela reunião de vários tapetes pequenos, é pura poesia. O filme termina com o tapete dependurado na velha casa, cobrindo a placa de Vende-se e, à esquerda, Exú fumando pensativo e protetor.

 

Pensei no Brasil, em toda essa gente que produz o que nos alimenta a alma e a inteligência. Pensei nos dirigentes atuais que tudo querem vender, entregar, sem consideração com nosso patrimônio material e imaterial. Pensei nesse horror que ameaça nos consumir e resolvi escrever esta matéria, parabenizando Allan por este filme que mostra a indecisão. O que não queremos são as decisões arbitrárias, autoritárias, irresponsáveis, negligentes.

 

Quão diversa seria a realidade se o mandatário e seus asseclas tivessem exercido, ao longo da vida a dúvida sobre as grandes questões da existência, tivessem se deixado tocar pelo sentimento, tivessem se acercado a algum tipo de amor verdadeiro pelo país, nada a ver com símbolos falsamente sobre utilizados.

(*) Maria Lúcia Verdi – Mestre em literatura, autora de vários livros, poeta.

 

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(*) Esse Amor que Nos Consome recebeu dois troféus Candango no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2012: Direção de arte e edição.

 

Atenção: Este filme, de 80 minutos, pode ser visto aqui, on-line e gratuito, até o dia 30 de abril.

 

 

Reprodução do site Brasiliários

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