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Era uma vez um jacaré-coroa…

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Nem sempre a lágrima sentida é o retrato de uma dor!

 

Era uma vez um menino chamado Santur, que, finalmente vacinado com a Coronavac, virou jacaré, mais exatamente um belo espécime de jacaré-coroa (Paleosuchus trigonatus).

 

Como era de esperar, os pais dele, sardônicos, passaram a chamá-lo de jacaré-corona. Cientes de que o moleque teria uma vida miserável em Brasília, resolveram se mudar para a vila de Lindoia, município de Itacoatiara, às margens do rio Urubu, afluente do Amazonas.

 

Santur Corona passava as manhãs e as tardes nadando, pescando e quentando sol em cima das pedras no meio do rio. À noite ia pra casa dormir na piscina que o pai mandara construir com aquecedor e tudo.

 

Tudo ia muito bem até que o nosso coroninha percebeu que a região havia sido invadida por caçadores de couro de jacaré, fornecedores de uma fábrica de bolsas em Manaus, e que, por esse motivo, ficaram conhecidos como bolsonaristas. Foi uma devastação. O rio Urubu e seus igapós viviam tintos de vermelho, e o cheiro das carcaças nauseava quilômetros em derredor. Quanto ao Ibama, nada, até que uma comissão da ONU cobrou explicações das autoridades.

 

Apenas de vez em quando o nosso jagurizinho ousava ir até o rio para nadar e pegar um bronzeado. Numa dessas escapadas, ele testemunhou a colisão de uma canoa com uma pedra e o naufrágio de seus cinco jovens bolsonaristas, nenhum deles de colete. Sem titubear, tchibum!, mergulhou e nadou vigorosamente em direção aos rapazes. Meia hora depois, um caboclo o encontrou em prantos em cima da pedra, um choro excruciante, de cortar qualquer coração.

 

– Mas o que houve, seu jacarezinho? – perguntou o canoeiro. Por que clamor tão doloroso, de espantar e calar o que restou da nossa floresta tropical? Por que lágrimas tão sentidas e copiosas, concorrentes do rio-mar?

 

Sem deixar de perceber o talento poético do caboclo baré, Santurzinho tentou relatar o que lhe havia acontecido, os soluços entrecortando a voz dele. Não economizou detalhes na descrição daqueles momentos escabrosos de alucinados bracejos, sufocos, estrebuchos, os olhos esgazeados em demanda de oxigênio.

 

O barqueiro ficou comovido com a cena do salto duplo twist carpado desde a margem para o turbilhão dos afogados, o que julgou ser o máximo de desprendimento e generosidade do jagaroto.

 

– Vejo que você tem bom coração e índole cristã, em contradição com o labéu que pespegaram na sua espécie e gênero. Só não compreendo a razão de você ainda estar se lamentando tanto. Quantos afogados você conseguiu alcançar, afinal?

 

– Três, os outros dois escaparam. Ó, injustiça, ó, desperdício! – respondeu Santur, debulhando-se.

 

(Quaquaraquaquá! Adoro piada clássica recauchutada!)

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