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Entrevista || Impacto do excesso de mortes por Covid-19 na demografia e na economia brasileiras

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Em entrevista ao Jornal Brasil Popular, Ana Maria Nogales Vasconcelos, professora da UnB e especialista em demografia, explica o que significa zerar o número de óbitos com o número de nascimentos e o impacto disso na economia

 

 

 

 

“O impacto econômico disso é que teremos uma força de trabalho menor, no futuro, e também uma maior carga da sociedade com a população mais idosa. A gente tem de ver isso”, aconselha Ana Maria. Foto: Divulgação

 

 

 

 

Quem primeiro alertou para o fato de que o número de óbitos poderia superar o número de nascimentos no Brasil por causa do excesso de mortalidade decorrente da Covid-19 foi o neurocientista Miguel Nicolelis, durante o segundo episódio do seu podcast Diário do Front. Desde então a mídia começou a produzir informações com projeções sobre os efeitos da retração da natalidade e a ampliação do excesso de mortes no País.

 

 

Médico, neurocientista e considerado, mundialmente, um dos maiores cientistas em sua área, Nicolelis tem sido duro nas suas projeções que, quando ditas, parecem dramáticas, mas não demora uma semana e começam a acontecer. O cientista tem dito que se não houver lockdown, o Brasil terá 500 mil mortes até 1º de julho. Mas, uma projeção da Universidade de Washington indica que se a taxa de transmissão continuar a aumentar como está, em cerca de 10%, vai chegar a 600 mil mortes.

 

 

Isso impacta na densidade demográfica, na economia e, consequentemente, na vida do povo. No segundo episódio do podcast, Nicolelis fala dos impactos demográficos da pandemia no Brasil para a população economicamente ativa para agora e para o futuro. Revelou que, em 2020 e 2021, foi registrada uma redução significativa no saldo de nascimentos em relação a 2019 e que em alguns estados e municípios já estão ocorrendo mais mortes do que nascimentos em decorrência da escalada da pandemia.

 

 

Parece até jargão falar que o Brasil vive uma tragédia humana (ou desumana) anunciada, resultante do modelo econômico e político adotado pelo governo Jair Bolsonaro (ex-PSL), que não prioriza o Estado de bem-estar social e não dá atenção à pandemia. O Presidente da República considera normal e natural morrerem mais de 350 mil pessoas de Covid-19 em 1 ano, bem como haver um contingente imenso de sobreviventes já infectados e o surgimento, a cada dia, de novas variantes cada vez mais resistentes do coronavírus no País. Nicolelis avisa: essa falta de controle faz o Brasil fabricar novas variantes que podem se espalhar pelo mundo.

 

 

O resultado mais suave dessa tragédia programada é que 108 países já proibiram a entrada de brasileiros em seus territórios. O último, nesta semana, foi a França e já anunciou que é por tempo indeterminado. O Jornal Brasil Popular entrevistou a pesquisadora Ana Maria Nogales Vasconcelos, professora do Departamento de Estatística da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em demografia para entender o que é e as consequências dessa relação entre óbitos e nascimentos. Ela afirma que o descontrole da pandemia e o excesso de mortes, sobretudo de pessoas na idade produtiva, além de antecipar em 20 anos uma situação projetada pelas pesquisas de demografia da UnB, são motivos de preocupação.

 

 

Coordenadora da “Pesquisa População e Desenvolvimento”, a professora afirma que o Brasil passa por um excesso de mortalidade muito forte e que isso vai impactar na economia de forma negativa. Ela compara a situação ao período da Segunda Guerra Mundial quando o número de mortes superou o número de nascimentos. E alerta para o fato de que, aqui, no Brasil de agora, a situação é muito pior do que a da Segunda Guerra porque não se sabe o que irá acontecer com esse número exorbitante de gente contaminada pelo novo coronavírus que não faleceu.

 

 

 

“Ou seja, não se sabe o que essa população ainda terá de incapacidade, reduzindo também o seu potencial em termos de força de trabalho. Essas são questões muito relevantes”, afirma. Confira na entrevista, a análise da professora e pesquisadora Ana Maria Nogales Vasconcelos.

 

 

 

Jornal Brasil Popular – O que significa essa denúncia do cientista Miguel Nicolelis sobre o número de natalidade e óbitos zerarem aqui no Brasil?

 

 

Ana Maria Nogales Vasconcelos – Quando a gente tem o número de óbitos igual ao número de nascimentos em um dado período para um determinado território, isso significa que o crescimento vegetativo é igual a zero, ou seja, não teremos crescimento vegetativo, naquele território, naquele período, ou não tivemos.

 

 

Geralmente, estamos acostumados com o crescimento positivo. Nossa história do século passado até agora o Brasil sempre apresentou crescimento demográfico positivo, ou seja, o número de nascimento sempre maior do que o número de óbitos. Mas isso tem mudado ao longo do tempo.

 

 

Mais recentemente, estamos vivendo a transição demográfica e o envelhecimento da população tem feito com que o número de óbitos, cada vez mais, seja maior e se aproxime ao número de nascimentos com a queda da fecundidade.

 

 

Já temos previsões de que num prazo de 20 anos, nós alcançaremos essa estabilidade, ou seja, esse crescimento zero da população e começaremos a um decrescimento da população brasileira. Esse é um fenômeno que estamos vivenciando já há algum tempo de chegar a um crescimento vegetativo zero.

 

 

Para algumas localidades isso aconteceu agora, num determinado período, por exemplo, numa semana ou num mês, porque tivemos uma alta muito forte da mortalidade devido à Covid-19, então, no número de óbitos superou o número de nascimentos porque nesse mesmo período muitos casais estão adiando a fecundidade, ou seja, a geração de filhos. Diante de crises, isso acontece, como em guerras, por exemplo, quando se tem uma elevada mortalidade e uma redução da fecundidade. Isso é comum em territórios que estão passando por crise.

 

 

No mundo todo estamos vivenciando a pandemia e ainda os efeitos sobre a fecundidade têm sido especulados, não temos aí uma definição, muitos dizem que vai ter uma redução ainda mais forte da fecundidade por essa incerteza no futuro, os casais não querem ter filhos no momento, mas, inicialmente, muitos falaram, inclusive, do efeito de um número maior de nascimento porque todos estariam em casa. Mas isso não é bem assim que está acontecendo. Em muitos locais temos sim uma redução da fecundidade e a mortalidade tem sido muito elevada.

 

 

JBP   O que significa ter crescimento demográfico, ou seja, esse crescimento vegetativo igual a zero?

 

Ana Maria Nogales Vasconcelos – Estamos esperando esse crescimento vegetativo para o País como um todo seja zero por volta do ano 2040, e isso é fruto de um envelhecimento muito rápido da população. Já estamos há algum tempo com taxa de fecundidade abaixo da reposição já há uns 20 anos. Então, estamos caminhando para esse momento em que nós começaremos a reduzir o nosso volume populacional.

 

 

JBP – Isso é bom ou ruim?

 

 

Ana Maria Nogales Vasconcelos – Não precisamos valorar isso como algo bom ou como algo ruim. Não é bom nem é ruim. Isso é um processo nosso da transição demográfica. Claro que a gente tem um impacto econômico muito forte sobre isso, e principalmente numa sociedade que viu essa transição ser realizada de maneira muito acelerada.

 

 

 

Então, brevemente teremos uma população em idades mais avançadas muito volumosa dependendo de uma população em idade produtiva ainda que começa a decrescer. Já temos aí um número de nascimentos que decresce todo ano e um número de jovens que decresce.

 

 

 

Nós atingimos o máximo de população jovem entre 15 e 24 anos a uns 3 ou 4 anos atrás, ou seja, nós estamos numa mudança muito forte de nossa estrutura etária caminhando cada vez mais para um envelhecimento.

 

 

 

JBP – Qual é o impacto disso?

 

 

 

Ana Maria Nogales Vasconcelos – O impacto econômico disso é que teremos uma força de trabalho menor, no futuro, e também uma maior carga da sociedade com a população mais idosa. A gente tem de ver isso. E, agora, em momento como este de pandemia, que sabemos que houve, ou seja, que estamos vivenciamos e verificando o número alarmante, muito mais do que o que se esperava de óbitos, um excesso de mortalidade muito, muito forte, mas temos aí um número de infectados muito grande. Ainda não sabemos quais são as sequelas do adoecimento. O que essa população ainda terá de incapacidade, reduzindo também o seu potencial em termos de força de trabalho. Essas são questões muito relevantes.

 

O crescimento zero em si não é preocupante. Em um determinado momento, podemos ter crescimento zero – menor número de nascimentos e maior número de óbitos –, inclusive ter um crescimento negativo em um determinado momento. Mas isso pode ser superado em determinado momento por um crescimento positivo.

 

O que aconteceu, por exemplo, na Segunda Guerra Mundial, muito estudado, o famoso “Baby Boom”. Depois que terminou a Segunda Guerra, com o excesso de mortes impressionante e uma redução enorme dos nascimentos em vários países afetados, diretamente, pela guerra, logo após o encerramento dela, tem-se uma retomada dos nascimentos, dos casamentos, e uma geração do fim dos anos 1940 e 1950, conhecida como a Geração Baby Boom, ou seja, são os nascidos cujo nascimento havia sido postergado no início da guerra, a partir de 1938, em muitos países, início dos anos 1940, e os casais foram refeitos e decidiram ter, simultaneamente, retomar a sua vida reprodutiva.

 

 

Isso pode acontecer no Brasil de agora. Até o fim do ano a gente pode ter uma reversão, uma diminuição, e é o que a gente espera, uma redução muito acentuada do número de óbitos e a retomada da fecundidade por parte dos casais. É um momento que nos faz refletir sim, mas é um momento também que nos leva a considerar que esse é um futuro que veremos sem pandemia, sem nenhuma crise, mas é o que a nossa sociedade está caminhando para ter um crescimento nulo, inclusive negativo. A redução do nosso volume populacional.

 

 

 

 

JBP  –  A UnB tem pesquisa sobre isso?

 

 

Ana Maria Nogales Vasconcelos – Na UnB, no grupo de pesquisa que eu coordeno, “População e Desenvolvimento”, temos feito alguns estudos de projeção mortalidade, projeção também populacional e sempre em consonância com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e com outras projeções das Organizações das Nações Unidas (ONU) projetamos um envelhecimento populacional forte no Brasil e essa tendência de redução do crescimento, inclusive, chegando a crescimento zero e a decrescimento do volume populacional para o Brasil como um todo, claro que em alguns estados isso é mais acelerado, vai acontecer mais precocemente, enquanto em outros estados vai acontecer depois porque tem uma população mais jovem.

 

 

 

Claro que quando a gente fala de projeções de população outra componente importante é a migração. Tem-se, em países cujo crescimento vegetativo é negativo, ou seja, tem um decrescimento vegetativo, como, por exemplo, Portugal há muito tempo tem um número de nascimentos menor do que o número de óbitos e em alguns momentos equivalente, mas está vendo a sua população envelhecer muito fortemente, tem recorrido à migração para repor a sua força de trabalho.

 

 

 

São políticas migratórias de vários países que mantêm essa força de trabalho, como a Alemanha e o Japão, que, há alguns anos, já tem decrescimento populacional devido a um envelhecimento forte da população, e outros países, como a Coreia do Sul, a Itália, a gente vê alguns países com uma aceleração da redução da fecundidade. São países que têm fecundidade muito baixa e que tem uma população muito envelhecida e o número de óbitos supera o número de nascimentos.

 

 

 

Aqui no Brasil a gente já vê esses fenômenos em alguns municípios, principalmente municípios pequenos na área rural do sertão nordestino, por exemplo, que já perderam muito a população jovem por causa da migração e, no último Censo, por exemplo, a gente viu uma redução muito forte do número de mulheres com filhos. Isso mostra também que esses municípios pequenos têm um número de nascimentos muito pequeno e o número de óbitos supera esse número de nascimentos.

 

 

 

 

JBP  – Em pelo menos sete estados, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, o número de óbitos se aproxima, perigosamente, do número de nascimentos. Por que a imprensa está dizendo que isso é “perigoso”?

 

 

 

Ana Maria Nogales Vasconcelos –  Pois é. A questão de ser perigoso o número de óbitos se aproximar do número de nascimentos. Eu não classificaria como perigoso. O que estamos vendo é a Covid-19 muito, muito violenta, muito forte que está matando, um excesso muito forte de mortalidade. Então a gente viu que esse excesso é muito forte em idades adultas jovens. Isso é preocupante sim.

 

 

 

 

É preocupante o excesso de mortalidade entre a população adulta jovem porque é essa população que é a nossa força de trabalho, é a população produtiva, que é a população responsável tanto por crianças como por idosos, é a população em idade reprodutiva, então isso vai afetar não somente a economia, mas a sociedade como um todo. Ver pais deixando filhos pequenos ainda, em formação e, filhos, adultos jovens, morrerem antes de seus pais idosos a quem eles poderiam cuidar. Então isso é preocupante.

 

 

 

Agora, a relação propriamente dita entre o número de nascimentos e o número de óbitos, isso mostra o excesso atual da mortalidade, evidencia isso. Claro que a gente tem de ver no longo prazo como é que esse excesso de mortalidade vai afetar a fecundidade. O que a gente está vendo agora é uma mudança no calendário da fecundidade.

 

 

 

Isso quer dizer que muitos casais estão decidindo postergar o momento de ter filhos. Não agora, mas futuramente. Isso pode impactar muito a fecundidade total, por exemplo. Mas temos de aguardar um pouco mais para ver quais seriam os impactos sobre a fecundidade dessa elevada mortalidade que estamos vendo no Brasil atual.

 

 

 

 

 

 

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