Cultivar jardim e colecionar flores foi mais do que um hobby para Emily Dickinson (Daisy para os íntimos) e Rosa Luxemburgo (a Rosa era uma rosa era uma rosa…)

 

 

Emily Dickinson (1830-1886), a maior poeta americana, talvez do mundo, começou a estudar botânica aos nove anos. Ela costumava acompanhar a mãe nos cuidados do jardim de sua casa. Por volta dos 17, organizou um herbário de flores secas prensadas mais ou menos no mesmo período em que passou a compor poemas de maneira sistemática.

 

 

O herbário, hoje depositado na Biblioteca Houghton de Livros Raros em Harvard, contém 424 flores da região de sua cidade natal, Amherst, Massachusetts, classificadas com os nomes científicos.

 

 

Na tradição dos poetas e filósofos como Epicuro (341 a.C. – 271 a.C.), São Bento, Bashô e Henry David Thoreau, que preferiam ficar a sós do que mal acompanhados, Emily se afastou da sociedade para cultivar o seu jardim como se fosse um paraíso particular. Num poema de 1860, ela diz:

 

 

Some keep the Sabbath going to Church –
I keep it, staying at Home –
With a Bobolink for a Chorister –
And an Orchard, for a Dome –

 

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Alguns guardam o Sábado na Igreja –
Eu o guardo no Quintal –
Com a triste-pia de Corista –
E um Pomar de Catedral –

 


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Rosa – A polaco-alemã Rosa Luxemburgo (1871-1919) foi outra mulher forte a organizar um herbário, desde maio de 1913, em Berlim, até meados de outubro de 1919, na prisão de Breslau. A coleção está espalhada em 18 cadernos cujos fac-símiles foram reunidos e publicados em livro em 2019 pela editora Karl Dietz de Berlim.

 

 

O sonho de infância de Rosa Luxemburgo era ser botânica, mas o  Império Russo de então, incluindo parte da Polônia, proibia as mulheres de cursar a universidade. Por essa razão, depois de concluir o colégio em Varsóvia, Rosa fugiu para Zurique, Suíça, para estudar Economia Política e Direito. Lá conheceu o companheiro lituano Leo Jogiches e se entregou à causa da Revolução.

 

 

 

 

Nunca abandonou, porém, a paixão pela botânica e as ciências naturais. A coleção de flores, para a qual contribuíam muitos de seus correspondentes, era um consolo nos momentos de angústia. Numa carta ao camarada Wilhelm Liebknecht, de 24 de novembro de 1917, Rosa disse: “Estou bem, trabalhando ativamente com a  geologia, a qual me interessa imensamente porque combina várias coisas – mineralogia, química, física, zoologia, botânica, astronomia –, envolvendo um pouco de tudo isso e compondo um belo quadro geral. É uma pena que a vida seja tão curta, e a política imponha outros deveres, senão eu gostaria de me dedicar a isso”.

 

 

Um ano e dois meses depois, Rosa Luxemburgo, Karl Liebknecht e Wilhelm Pieck, líderes do Partido Comunista da Alemanha, seriam massacrados pelo Freikorps, um grupo paramilitar precursor da SS nazista.

 

Texto publicado, originalmente, no site Brasiliários
(*) Antônio Carlos Queiroz (ACQ) – é jornalista