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Em segundo mandato à frente da UnB, Márcia Abrahão garante que intensificará ensino, pesquisa e extensão

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Reeleita para o cargo de reitora da a Universidade de Brasília (UnB), em um processo atípico, devido à crise da pandemia do Corona Vírus (Covid-19), a professora Márcia Abrahão Moura vai comandar a instituição, no quadriênio 2020-2024, intensificando projeto iniciado no seu primeiro mandato, que tem foco nas atividades-fim: ensino, pesquisa e extensão.

 

A chapa Somar, encabeçada por Márcia e tendo como vice-reitor o acadêmico Enrique Huelva, foi eleita, logo no primeiro turno, por 54% dos votantes – docentes, técnicos e estudantes da UnB. Mas não foi fácil atravessar este momento. Márcia e sua chapa também enfrentaram o fenômeno das fake news (notícias falsas), que tentaram “deslegitimar o processo”, conduzido pela Comissão Organizadora da Consulta (COC).

 

Nascida no Rio de Janeiro, mas, residente em Brasília desde sua adolescência, Márcia Abrahão figura na história da UnB como a primeira mulher reitora da instituição, onde leciona desde 1995. Ao exercer a função de decana de Ensino de Graduação, entre 2008 e 2011, Márcia coordenou o Programa de Reestruturação Universitária (Reuni), período em que foram criados 36 cursos de graduação na Universidade. No DF, Márcia contribuiu para a ampliação dos campi da UnB em Ceilândia, Gama e Planaltina.

 

Defensora da educação pública, inclusiva e de qualidade, a expectativa de Márcia, agora, é de que o Conselho Universitário considere a decisão de docentes, técnicos e estudantes e que o governo respeite a autonomia universitária. Ao Jornal Brasil Popular, Márcia Abrahão concedeu a seguinte entrevista, feita por meio digital, devido às restrições impostas pela pandemia.

 

JBP – A chapa da senhora propôs a continuidade de uma gestão voltada à educação superior pública, gratuita, inclusiva e de qualidade, com autonomia universitária, excelência acadêmica em ensino, pesquisa e extensão, produção científica e saúde mental. A senhora credita sua vitória à aceitação destas propostas e a sua forma de administrar?

 

Márcia Abrahão – Acredito que sim. O fato de termos vencido a consulta à comunidade acadêmica em primeiro turno, com 54% dos votos, mesmo com outras três chapas concorrentes, indica o reconhecimento do trabalho que estamos fazendo ao longo desses quase quatro anos. Fizemos uma gestão pautada pelo diálogo e pelo cuidado com as pessoas. Mesmo assuntos difíceis foram trazidos ao conhecimento da comunidade. Fortalecemos os órgãos colegiados, que voltaram a discutir e deliberar sobre temas relevantes para a Universidade. Também fizemos a escolha de investir nas atividades-fim, o ensino, a pesquisa e a extensão. Mesmo em um cenário de dificuldades orçamentárias, priorizamos as unidades acadêmicas, que tiveram orçamento 38% maior, em média, no período. A comunidade da UnB decidiu seguir neste caminho e estou muito feliz com isso.

 

JBP – Sua chapa também defendeu propostas tais como incentivo à carona solidária e bicicletas compartilhadas. São demandas atuais da comunidade acadêmica da UnB, conectadas com a mobilidade urbana e o meio ambiente? É isso?

 

Márcia Abrahão – Trata-se de uma demanda não apenas da comunidade da UnB, mas de toda sociedade. É urgente que busquemos uma nova relação com o meio ambiente, para que possamos ter um futuro de qualidade. No nosso mandato, realizamos uma série de ações que deixaram a UnB mais sustentável. Criamos a Secretaria de Meio Ambiente, vinculada à Reitoria, e aprovamos um plano de logística sustentável. Todos os campi têm agora usinas solares fotovoltaicas para geração de energia limpa. Conseguimos regularizar passivos ambientais e reduzir o consumo de copos plásticos, em 48% e resmas de papel, em 32,5%. Mais de 90% da poda das árvores do campus Darcy Ribeiro vai para a compostagem e os contratos assinados pela Universidade têm cláusulas ambientais. Essas propostas mencionadas na pergunta se encaixam nisso e temos muitas mais, como a de aproveitar a água da chuva para irrigar os jardins.

 

JBP – Esta eleição foi diferente das demais. Feita por meio on-line devido a maior pandemia de Covid-19, que já ceifou a vida de mais de 123 mil pessoas. Mesmo assim, envolveu estudantes, docentes e técnicos administrativos. O que foi mais difícil neste processo?

 

Márcia Abrahão – De fato, foi uma eleição atípica. Sentimos falta do contato pessoal, de dialogar olho no olho com as pessoas, mas recebemos muito carinho e demonstrações de apoio em modo virtual. Foram mais de 120 vídeos de apoiadores, manifestos, cartas e mensagens diversas, que nos deram bastante entusiasmo ao longo da caminhada. O mais difícil foi lidar com notícias falsas que surgiram para macular a imagem da nossa chapa e deslegitimar o processo conduzido pela Comissão Organizadora da Consulta. Conseguimos, porém, deixar a nossa idoneidade clara e renovamos o nosso compromisso com o debate franco de ideias durante a campanha.

 

JBP – O processo ainda não terminou. Será formada uma lista tríplice, que será avaliada pelo Ministério da Educação e a nomeação do titular ficará a cargo do presidente da República. A senhora acha que Bolsonaro vai respaldar a escolha da maioria, respeitando, assim, a autonomia nas universidades?

 

Márcia Abrahão – Essa é a nossa expectativa. Esperamos que o Conselho Universitário considere a decisão de docentes, técnicos e estudantes na elaboração da lista tríplice e que o governo faça o mesmo. Esperamos que a autonomia universitária, prevista na Constituição, seja respeitada.

 

JBP – Sendo nomeada, como será sua gestão, neste segundo mandato?

 

Márcia Abrahão – Vamos seguir o mesmo caminho que iniciamos há quase quatro anos e manter o foco no que a UnB sabe fazer de melhor: o ensino, a pesquisa e a extensão. A comunidade pode esperar mais bolsas de iniciação científica e de extensão, mais editais de apoio à publicação em periódicos e à participação em congressos. O cuidado com as pessoas continuará sendo uma prioridade. Teremos anos difíceis à frente, devido ao desafio imposto pela pandemia de covid-19. A Universidade precisa estar unida, coesa, para enfrentar os momentos que virão. Vamos trabalhar para garantir isso e para seguir na defesa da UnB e da educação pública, inclusiva e de qualidade.

 

JBP – Na semana de sua reeleição, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, afirmou por meio da imprensa, que algo em torno de 60% dos que frequentam universidade federal têm condições de pagá-la. O que a senhora tem a dizer sobre esta afirmação?

 

Márcia Abrahão – Respeito a opinião do vice-presidente. Entretanto, não é isso que demonstram os mais recentes levantamentos sobre o público que compõe a comunidade universitária. Um estudo do ano passado da Andifes (Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior) indicou justamente o contrário: mais de 60% dos estudantes das universidades públicas federais têm renda familiar per capita inferior a um salário mínimo e meio. Seriam, portanto, elegíveis para receber apoio da assistência estudantil. Além disso, a gratuidade do ensino superior é um preceito constitucional. Não é verdade também que mensalidades possam cobrir o custo necessário para manter as universidades.

 

JBP – A senhora comandou a UnB enfrentando restrições financeiras, impostas pela EC-95, resultante do governo Temer. Como foi administrar uma instituição educacional de nível superior tão importante, praticamente sem recursos?

 

Márcia Abrahão – Foi bastante desafiador. Quando assumimos, houve uma queda de 45% no orçamento discricionário, o que nos obrigou a fazer ajustes. Abrimos os dados para a comunidade e buscamos alternativas. Também precisamos lidar com bloqueios e contingenciamentos orçamentários, que dificultaram sobremaneira a gestão orçamentária da Universidade. Ainda assim, conseguimos ter uma execução exemplar, de quase 100% dos recursos. No nosso caso, pleiteamos junto ao Congresso (Nacional) a flexibilização da emenda do teto para que possamos utilizar livremente os recursos de nossa arrecadação própria. Hoje, só podemos usar até o limite definido na Lei Orçamentária, o que funciona como um desestímulo aos pesquisadores que arrecadam recursos com projetos.

 

JBP – A senhora foi a primeira mulher eleita reitora para a UnB. Agora, é a primeira mulher reeleita para o cargo, vencendo em primeiro turno. Qual a contribuição que sua vitória dá à luta das mulheres por mais participação nos espaços de poder e decisão, não apenas nas universidades, mas, em todos os espaços políticos?

 

Márcia Abrahão – Costumo dizer que tenho uma responsabilidade ainda maior por ser mulher. Infelizmente, ainda ocupamos poucos cargos de gestão. No Congresso (Nacional), só 15% das cadeiras são ocupadas por mulheres. Na UnB, não é diferente. Embora sejamos maioria entre estudantes e docentes, apenas oito das 26 unidades acadêmicas são chefiadas por mulheres. Em contraponto, na Administração Superior, cinco dos oito decanatos são liderados por nós – entre eles, os dois responsáveis pela gestão orçamentária e financeira, algo inédito na história da Universidade. Penso que a maior participação feminina em cargos de liderança ajuda a mudar o olhar das pessoas sobre o nosso papel na sociedade e a trazer para o debate questões importantes, como as políticas públicas para a instalação de creches e o aumento da licença maternidade.

 

JBP – Que contribuição a UnB pode dar para a superação da crise da pandemia do Covid-19?

 

Márcia Abrahão – A UnB já vem atuando de maneira forte, desde o começo da crise. Internamente, criamos um comitê de especialistas que acompanha de perto a evolução dos dados epidemiológicos e orienta nossas ações. Depois, realizamos duas chamadas públicas para projetos de pesquisa, inovação e extensão de combate à Covid-19. Quase 200 propostas, de excelente qualidade, foram aprovadas. Há de tudo: estudo do vírus em si, da eficácia de medicamentos e vacinas, produção de álcool em gel, máquina para descontaminação de máscaras N95, acompanhamento da epidemia em mais de 100 localidades, combate a fake news relacionadas ao vírus, e muitos outros. Nosso desafio, entretanto, tem sido o de buscar parceiros para financiar esses projetos. Recebemos apoio da FAP-DF ((Fundação de Apoio à Pesquisa do DF) e do Ministério da Educação, mas ainda há 150 aguardando recursos.

 

JBP – O que a senhora espera deixar como legado, após dois mandatos à frente da UnB?

 

Márcia Abrahão – Espero consolidar algo que já deixamos claro no primeiro mandato: é possível ser uma Universidade de excelência e inclusiva. Nos últimos anos, avançamos em rankings e fortalecemos a vocação democrática e inclusiva da UnB. Retomamos o vestibular indígena, instituímos cotas para negros, indígenas e quilombolas na pós-graduação e implementamos as cotas para PCD (Pessoas com Deficiência) na graduação. Somos mais diversos e, assim, cumprimos de maneira mais efetiva a nossa missão institucional, que é a de formar pessoas e também mudar a realidade do país.

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