A edição nº 26 da revista semanal Focus Brasil, da Fundação Perseu Abramo, traz uma entrevista com o padre Júlio Lancellotti, um pedagogo e presbítero católico, pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, localizada na Mooca, um bairro da cidade de São Paulo.

Alvo de críticas e até de ameaças de morte da extrema direita, ele é responsável também pelas missas realizadas na capela da Universidade São Judas Tadeu, situada na mesma rua. O líder religioso é conhecido por seu trabalho, diuturno, com a população em situação de rua na capital paulista. Confira a entrevista.

 

 

ENTREVISTA | JÚLIO LANCELLOTTI

“O nível de intolerância e violência está descontrolado”

O homem que luta todos os dias contra a desigualdade no Brasil, ajudando moradores de rua e todos os desvalidos que cambaleiam por uma cada vez mais indiferente cidade de São Paulo, está preocupado com os rumos do país. Ele se mostra assustado com o aumento da miséria e da fome. “Vivemos uma garantia de direitos fundamentais cada vez mais frágil”, lamenta Pedro Camarão

 

 

A pandemia do coronavírus ocorre no momento em que o Brasil já vinha feri do pelo golpe de 2016 e pelo lawfare direcionado contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É evidente que ambos são partes de um único processo e o objetivo é implementar uma agenda neoliberal radical no País.

Na perspectiva do padre Júlio Lancellotti, desde o golpe de 2016 as políticas sociais só degringolaram. “O povo brasileiro está ferido”, afirma o pároco da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. O receio do religioso é que a situação piore ainda mais com a radicalização do movimento neofascista que se mobiliza no Brasil neste momento sob o lema “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos” — cuja similaridade com o slogan nazista “Deutscland Über Alles”, adotado por Adolf Hitler, não é coincidência.

O padre considera o neoliberalismo uma epistemologia e afirma que ele está se impregnando na sociedade brasileira, o que dificulta ainda mais a luta por uma sociedade mais justa. Lidando diaria- mente com vítimas do sistema injusto e desumanizante, Lancelotti declara que ninguém consegue ter clareza sobre o que vai ocorrer daqui para frente no Brasil.

Ele diz que o 7 de Setembro será um momento muito delicado e que pode ser arriscado estar nas ruas. Teme que os participantes do Grito dos Excluídos sejam apontados como os causadores de atos de violência e prega que é necessário agora muito discernimento. Para que seja possível compreender esse momento tão lamentável da história brasileira, o padre diz ser fundamental olha para o passado. “Não podemos perder o fio da História”, lembra, nesta entrevista à Focus Brasil:

Focus Brasil — O senhor tem denunciado o aumento do número de pessoas que vivem nas ruas da cidade de São Paulo. Qual é o quadro agora?

Padre Júlio Lancelotti — Foram realizadas pesquisas e um censo da Escola de Sociologia e Política [USP] – porque os censos da população de rua não são feitos pelo IBGE, porque o governo só faz o censo por domicílio. Então tem que ter uma metodologia própria para fazer esse censo. Esse censo começou na gestão do prefeito Celso Pitta, feito pela secretária Alda Marco Antônio. Naquela época, apontava 7 mil pessoas em situação de rua. Fez-se então uma definição. A Fipe, da USP, foi trabalhando bastante essa metodologia. E chegou-se à definição de que a população em situação de rua é a população desabrigada nas calçadas ou que está nos centros de acolhimento mantidos pela prefeitura. Essa definição é bastante restritiva, mas foi mantida de um censo para o outro para poder fazer um comparativo. Ficou um dilema sobre quem está em barraca e os que estão em barraco. Existem pessoas em situação de rua que fazem barracos embaixo de viadutos ou próximos de vias públicas e não são consideradas.

— Por quê?

Nunca se considerou nesses censos que a popula- ção de rua que está aprisionada, que tem um Centro de Detenção Provisória específico ou com a grande maioria dos detentos em situação de rua. Essa popu- lação não é considerada. Mas, saindo do CDP, eles voltam para a rua. Então, seria necessário que essa contagem também fosse feita, e mais hospitais e clí- nicas. O censo mostra o retrato de um momento, mas não para alimentar “política pública”. Eu não gosto desta palavra porque dentro do neoliberalismo se refere àqueles que não vão receber nada ou vão re- ceber o resto, os descartados. Acho até que se po- deria pensar em outro termo para a população em situação de rua. A população de rua é muito maior do que o censo enxerga. Seria necessário utilizar algumas estratégias diferentes das atuais.

Mas o censo feito pela Escola de Sociologia e Políti- ca levantou um dado alarmante: a população de rua em São Paulo cresce mais do que o crescimento demográfico da cidade.

— Isso piorou de 2016 para cá?

A partir do golpe que depôs a presidenta Dilma, com o agravamento da situação social, econômica e política, a população de rua teve um aumento. O censo de 2019 foi feito por uma entidade do Espírito Santo chamada Qualytest e teve um péssimo resulta- do. Chegou a 25 mil pessoas. Mesmo assim aponta aumento de 53% da população em situação de rua. Mas esse número está aquém da realidade. Só o CadÚnico, apontava, naquele momento, 32 mil pessoas. O número do censo é ruim porque ele aponta o número de consultórios de ruas que deveriam existir. Ou seja, o número hoje certamente é mais baixo do que o necessário. De qualquer forma, esse último censo mostrou que mais de 50% da população de rua não estava acolhida. Isso ocorre porque os centros de acolhida são idênticos ao primeiro albergue criado em São Paulo. A única mudança é que os de hoje tem tomada para carregar celular. Desde a dé- cada de 1940 a estrutura é a mesma. Esses centros de acolhida são de tutela, não são de autonomia. Eles são mantenedores da miséria, da situação de dependência. A população de rua é muito heterogênea e a resposta do Estado é homogênea – quem sabe a Fundação Perseu Abramo pudesse pensar sobre soluções para isso. É uma única resposta dada para todos. Hoje, há um aumento do número de grupos familiares, de mulheres com crianças, do grupo LGB- TQIA+, mas as respostas são sempre as mesmas.

— Nesse momento de crise social, a população de rua está em situação mais difícil?
— Alguns municípios acham que acolher a população de rua é muito caro. Então, eles mandam embora. Isso se repete no Brasil todo. São Paulo não consegue fazer isso e muitas cidades trazem a população de rua para cá. Alguns dos municípios da Grande São Paulo tem como política comprar passagem e mandar a pessoa embora. A população de rua sabe disso e pensa: “Eu quero chegar em Salvador. Então, sei até onde eu vou para me mandarem para tal lugar e desse vão me mandar para outro até que eu chegue lá”. Hoje, com o fenômeno da pandemia e com o agravamento da política social, econômica e política, há uma grande movimentação no Brasil. Acho que desde as grandes ondas migratórias, agora é o maior momento de circulação de gente pelo Brasil. Existem polos. A população de rua está aumentando muito no Recife, aumenta de maneira alarmante no Rio de Janeiro. A situação do Rio é alarmante. Em São Paulo, qualquer pessoa que ande pela cidade salta aos olhos a quantidade de pessoas morando nas ruas. A Praça da Sé é um acampamento. A Praça Princesa Isabel, na Luz, é um grande campo de refugiados. A cidade está tomada. O que se vê nisso é que a prefeitura percebe que a estratégia de repetir sempre a mesma resposta não dá certo, mas não muda a estratégia. Esse modelo de tutela que nivela todos como se tivessem as mesmas necessidades faz com que a situação se agrave.

E há um ponto muito sério. Ser tratado de maneira desumana, desumaniza. E esse indivíduo reproduz a desumanização. Então, estamos causando um impacto de desumanização na população de rua que, dificilmente, em pouco tempo vai haver uma rever- são.

— Qual a importância do Grito dos Excluídos?
— Este é o “grito dos descartados” como chama o Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Eu acredito que, nesse momento, como em outros momentos, ele acaba não sendo ouvido. Ele é uma resistência, mas é um grito que o poder não ouve. Por uma série de razões históricas, o Grito dos Excluídos foi sendo sufocado. Os movimentos populares enfraqueceram. As pastorais sociais enfraqueceram. A própria Igreja não grita toda junta, nem os sindicatos, nem os vários grupos representativos. O Grito dos Excluídos é mantido de maneira profética, como forma de resistência, mas se formos lembrar desde o primeiro até agora, poderíamos dizer que agora estamos fazendo um “sussurro dos excluídos”. Inclusive por causa da repressão. A gente não sabe o que vai acontecer nesse próximo 7 de Setembro e

o risco que vai ser estar na rua. Vivemos uma democracia formal, uma garantia de direitos fundamentais cada vez mais frágil. Veja a situação aqui na cidade de São Paulo com os camelôs. O crime organizado é muito forte – usando o conceito de crime organizado como aquele que tem a participação de agentes do Estado. A questão política está latente e muito forte. Hoje, não sei se alguém tem um quadro claro sobre o dia de amanhã. Não sei se alguém consegue ter um quadro claro.

— O senhor falou que a Igreja Católica não grita unida, mas a posição da CNBB sobre o Grito dos Excluídos é assertiva e crítica ao governo.
— A gente não pode dizer que são todos os bispos. Mas é bom que uma entidade que tem o peso histórico da CNBB se manifeste nesse momento. Veja que a própria declaração da Fiesp e outras foram adiadas. Há um racha no agronegócio. Estamos vivendo um momento nebuloso, dramático, de crise social profunda, com aumento da fome e de todos os sintomas de miserabilidade e de descarte do povo. O número de desempregados é de 14 milhões. Mas a ideologia dominante ainda é muito compacta.

— Como o senhor viu a tentativa do governador de São Paulo, João Doria, de impedir o Grito dos Excluídos?
— Eu acredito que o próprio governo está perplexo, sem saber como agir diante de tudo isso e porque há uma violência latente muito forte. Então, pode ser que tenham pensado em proibir os que são menos violentos do que proibir os que são mais violentos. Uma das coisas que está muito preocupante é o que vai acontecer na cidade nos espaços públicos. O nível de intolerância que chegamos e de exacerbada violência está descontrolado. Acho que o que aconteceu em Araçatuba é um sintoma do desespero e da fragilidade da chamada segurança. Até agora está todo mundo olhando para Araçatuba preocupado com o que aconteceu e não é uma cidade pequena. É uma cidade de grande porte. Até que ponto isso também não vai favorecer a direita? Porque essas imagens es- tão martelando na cabeça do povo. Na conjuntura, até 7 de Setembro, Araçatuba vai estar na cabeça do povo. É uma cidade bastante conservadora, que foi alvo de uma ação extremamente complicada e pen- so que o ocorrido tem muitos sintomas de crime organizado.

— Mas o senhor considera que é um momento importante de ocupar as ruas para protestar?
— Eu acredito que o espaço da rua tem que ser de manifestação, não pode ser só de confronto e de confronto entre grupos que desejam manifestar suas posições. Eu sei que não podemos negar o conflito, que está presente. Estamos vivendo o conflito e nós somos a parte ferida do conflito, não somos a parte que fere. Eu, diariamente, vejo as pessoas feridas. Fisicamente, psicologicamente, feridas pela fome, feridas pelo frio, pelo abandono, pela sede, feridas por uma série de questões. Eu estou do lado das pessoas que estão feridas. Se essas pessoas se manifestam, elas serão vistas como as violentas. Essa conjuntura exige um discernimento muito grande. Tenho ouvido notícias e hoje conversei com o pessoal da CUT que me disse que a mobilização que alguns pastores estão fazendo para o 7 de Setembro é enorme. Há uma questão religiosa muito forte. Então, é um dilema que a gente está vivendo. Uma situação difícil, na qual o confronto e o conflito vão estar presentes. A gente não sabe a que preço.

 

— O senhor falou que está do lado dos feridos, que o conflito é inevitável. É comum assistirmos ataques ao senhor e ao seu trabalho. Recentemente, foi a deputada Janaína Paschoal. Sob Bolsonaro, com essa direita no poder, os ataques têm aumentado?

— Sim. Não adianta mirar como único inimigo o Bolsonaro. A grande questão é o bolsonarismo e essa direita radical, violenta, que assume o bolsonarismo com discurso cívico, patriótico e religioso. É bastante complicado e é muito difícil de entender. É “Deus acima de tudo, Brasil acima de todos”. Essas coisas são de uma conotação extremamente preocupante. É próxima ao fascismo e vai causar ainda mais sofri- mento ao nosso povo, que já está muito ferido. Mui- to ferido. Ferido pela miséria, pelo crime organizado, pela desumanização. Aquela imagem que mostraram do Afeganistão em que alguém está dando alguma coisa pela janela do carro e todos do lado de fora estão se digladiando para pegar o que está sendo dado, é um retrato do sistema. Você imagina que alguém que esteja ali do lado de fora vai pensar em ou- tro que esteja precisando mais e vai pegar para doar a alguém? A gente não vê isso, em nenhuma instância. Penso sobre duas coisas que têm me atormentado muito. Tanto a ambição quanto a necessidade extrema se sobrepõem à ética. É como gente irritada com o velhinho na fila da vacina e quer que esse velhinho suma da fila para que ele possa ser vacinado logo. Essa questão do privilégio, da meritocracia, da competição, ela entrou em nós. E aí, uma coisa que eu gostaria de dizer, que acho fundamental superarmos: o neoliberalismo não é só econômico, social ou político. Ele é uma epistemologia. Nós pensamos de maneira neoliberal e agimos de maneira neoliberal.

— Como é possível que pessoas cristãs sejam apoiadoras do bolsonarismo? É um paradoxo.
— É o fundamentalismo. Isso tem uma história. Não começou do dia para a noite. Desde a revolução da Nicarágua, a CIA acendeu um alerta. Foi quando as igrejas americanas e as igrejas neopentecostais fundamentalistas começaram um grande avanço na América Latina, com a desmontagem da Teoria da Libertação e das comunidades eclesiais de base. Houve uma luta para acabar com o movimento ecológico. Por que mataram o Chico Mendes? Ou Dorothy Stang? E Margarida Alves? Marçal Tupã-i? Existe um ressurgimento da luta popular e uma reação contrária. Acho que a Revolução Sandinista, com todos os erros que teve e que gerou um Ortega hoje, teve um caminho que contou muito com as comunidades de base, movimentos populares, e houve uma contrarreação. Temos hoje Steve Bannon. Ele não tem 21 anos. Deve estar pelos 70. O Olavo de Carvalho não tem 25 anos. Então, toda a criação desse pensamento da retórica do ódio não surgiu agora. Há uma reação muito grande. O João Cezar de Castro Rocha naquele livro sobre a retórica do ódio [Guerra Cultural e Retórica do ódio: Crônicas de um Brasil Pós-político] fala do orvil, de toda a questão de como esse pensamento foi sendo construído. E um povo, principalmente na América Latina, tão religioso e que teve Dom Oscar Romero [arcebispo metropolitano de San Salvador, capital de El Salvador, assassinado em 24 de março de 1980]. Por que ele foi morto? É um ponto importante. Por que mataram Dom Angelelli [bispo da Diocese de La Rioja, Argentina]? Por que calaram Dom Hélder Câmara? Por que perseguiram tanto Dom Paulo Evaristo Arns? São figuras religiosas muito perseguidas e maltratadas. A erupção dos pobres na América Latina com a Teologia da Libertação depois do Concílio Vaticano II, a Conferência de Medelín, de Puebla, foi trazendo uma movimentação que foi gerando também uma reação ou uma marcação de posição. Nós não podemos perder o fio da História.

 

Da revista Focus Brasil/Fundação Perseu Abramo

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