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‘Eleita’, sátira política com Clarice Falcão, é a melhor sitcom brasileira do ano

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Série da Amazon Prime Video faz rir do caos reinante no Rio de Janeiro

 

 

Cena da primeira temporada da série "Eleita", com Clarice Falcão - Divulgação/Amazon Prime Video
Cena da primeira temporada da série “Eleita”, com Clarice Falcão – Divulgação/Amazon Prime Video

 

Todas as 27 unidades da federação são capazes de eleger nulidades, mas o Rio de Janeiro é imbatível nesse páreo duríssimo. Eu posso criticar porque nasci lá, embora meu domicílio eleitoral sempre tenha sido em São Paulo.

 

 

Mas não é preciso ter lugar de fala para se espantar com um estado que deu 37.035 votos a Glaidson Acácio dos Santos, acusado de liderar um bilionário esquema de pirâmide financeira. Se não tivesse sua inelegibilidade declarada pelo TSE, o chamado “Faraó das Bitcoins” seria eleito deputado federal, mesmo amargando um xilindró.

 

 

Por isto, não chega a ser inverossímil o fato de o estado escolher uma influenciadora digital absolutamente despreparada para o cargo de governadora. Ambientada num futuro próximo, com o Rio de Janeiro vivendo um caos ainda maior que o atual, a série “Eleita” tem como protagonista Fefê Pessoa, uma youtuber de sucesso que resolve se candidatar “só por zoeira”.

 

 

Assim como aconteceu com Volodomir Zelenski, o humorista que se elegeu presidente da Ucrânia, Fefê também sai vitoriosa das urnas, e não tem a menor ideia do que fazer. Adepta de raves, drogas sintéticas e dancinhas no Tik Tok, a nova mandatária desconhece todas as responsabilidades de sua função, e logo se vê rodeada por políticos experientes que querem manipulá-la.

 

 

Com apenas sete episódios, a primeira temporada de “Eleita” chegou à Amazon Prime Video menos de uma semana depois do primeiro turno das eleições. Um timing questionável: com a campanha eleitoral ainda a pleno vapor e repleta de baixarias, uma sátira política talvez não seja o entretenimento escapista que muitos brasileiros procuram nesta época

 

 

Acontece que, de longe, “Eleita” é a melhor sitcom brasileira de 2022. Criada há cinco anos pela atriz e cantora Clarice Falcão e pelo roteirista Célio Porto, a ideia se concretizou num momento em que a política brasileira adquire tons surrealistas. Mais um pouco, a realidade talvez ultrapasse a ficção –como aconteceu com as americanas “Veep” e “House of Cards “, que perderam a mordacidade depois de serem atropeladas pela eleição de Donald Trump em 2016.

 

 

Clarice está perfeita no papel de Fefê, uma personagem que, segundo sua criadora, tem todos os seus defeitos multiplicados por 10. Carente, desorganizada e com uma capacidade de concentração menor que a de um cachorrinho, Fefê falta a reuniões importantes para pular Carnaval, brincar com seu porquinho de estimação ou simplesmente dormir.

 

 

O elenco coadjuvante também é todo ótimo. O destaque inevitável vai para os veteranos Diogo Vilela, que faz Netinho Júnior, deputado que quer ser a eminência parda da nova governadora, e Luciana Paes, como a inescrupulosa deputada-pastora Hosana, que sonha em transformar o dízimo pago às igrejas evangélicas num imposto obrigatório a todos, sem exceção. Mas caras menos conhecidas como Pablo Pêgas, Polly Marinho, Rafael Delgado e Bella Camero também merecem aplausos.

 

 

“Eleita” não faz ataques implícitos a nenhum político real, mas nem a esquerda escapa de ser alvo de piadas. Algumas delas, aliás, talvez precisem de uma certa familiaridade com a política fluminense para serem bem entendidas: a família Barata, que controla boa parte do transporte público no estado, aqui vira a família Mosca –e sua figura de proa, Lígia, é encarnada com verve por Ingrid Guimarães, na primeira aparição em sua nova casa, a Amazon Prime Video.

 

 

Mesmo pintando uma imagem desoladora do Rio de Janeiro, “Eleita” conseguiu gravar muitas cenas não só na Assembleia Legislativa do estado como também no deslumbrante Palácio das Laranjeiras, a residência oficial do governador fluminense.

 

 

A série ainda faz em seu sexto episódio uma brincadeira comum na TV americana, mas ainda inédita por aqui: um capítulo musical, em que todos os personagens principais têm direito a um número. O melhor deles é digno de um filme de Ginger Rogers e Fred Astaire, com Fefê bailando com o fantasma de Getúlio Vargas –encarnado por Netinho Júnior– no terraço do palácio. Ele, é claro, está tentando convencê-la a se suicidar.

 

 

Com direção-geral de Carolina Jabor e direção de Rodrigo Van Der Put, “Eleita” é capaz de fazer rir os adeptos de todas as correntes políticas. Tomara que, mesmo se o Rio de Janeiro e o Brasil estiverem melhor, a segunda temporada venha tão demolidora quanto esta primeira.

 

 

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