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Editorial I || A desesperada guinada euroasiática de Bolsonaro 

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A semana já foi premiada com dois episódios indicadores de uma guinada na política externa bolsonarista e de um desespero do Presidente da República em razão de sua crescente perda de popularidade, de seu isolamento constante mesmo nas hostes conservadoras (vide carta dos banqueiros) e da incontornável pressão dos efeitos desastrosos trazidos pela ausência de políticas de Estado para enfrentar, verdadeiramente, a pandemia do novo coronavírus.

 

 

 

Na segunda-feira (5/4), o novo e quarto ministro da Saúde em 1 ano, Marcelo Queiroga, reuniu-se com o embaixador da República Popular da China no Brasil, Yang Wanmig, de quem recebeu garantias que o gigante asiático tem o compromisso de fornecer insumos necessários para a produção de vacinas contra a Covid-19 no Brasil. Leia matéria aqui.  A reunião, solicitada pelo ministro brasileiro, é uma revogação taxativa da política de hostilidades primitivas que o ex-chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, buscou imprimir contra o maior parceiro comercial do Brasil.

 

 

 

Jair Bolsonaro (ex-PSL) teve de engolir todos os sapos do mundo e reconhecer, depois do silêncio sepulcral dos EUA aos pedidos de socorro do governo brasileiro para o envio de vacinas, que a China não é uma parceira apenas para a exportação de produtos primários, mas também para o fornecimento de produtos industrializados para a telefonia 5G, e, muito especial e urgentemente, para cooperar na produção de vacinas, em grande volume, ante a estarrecedora escalada da mortandade aqui.

 

 

Um dia depois, Bolsonaro, engolindo mais uma tonelada de sapos, toma a iniciativa de telefonar para o presidente Vladimir Putin para solicitar, esta é a palavra exata, uma ação conjunta para que a vacina Sputnik V possa ser fabricada no Brasil. Em vídeo divulgado pelo Palácio do Planalto, o presidente surge elogiando o alto nível da reunião com o mandatário russo, encontro que contou também com a presença do ministro Queiroga e a do diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), instituição que rejeitou, por cinco vezes consecutivas, os pedidos para o ingresso da vacina russa em solo brasileiro. Bolsonaro não deixou de mencionar, no vídeo, que os entraves ainda existentes deverão ser superados, num tom mais de promessa do que de condição.

 

 

As duas reuniões têm uma overdose de mensagem geopolítica, exatamente no momento em que o presidente dos EUA, Joe Biden (Democrata), em reiteradas oportunidades, manifesta, em tom de pito, que o Brasil deve adotar as medidas ambientais adequadas para a preservação do riquíssimo território da Amazônia, sem responder, concretamente, entretanto, aos vários pedidos feitos pelo governo brasileiro para o fornecimento de vacinas.

 

O resultado dessas duas reuniões com China e Rússia pode ser uma maior aproximação com os esses dois gigantes, apesar da paradoxal postura ideológica e filosófica de Bolsonaro de rejeição aos euroasiáticos. O que parece cada vez mais evidente é que, depois da troca de seis ministros, quem está sendo obrigado a uma adaptação aos novos tempos é, exatamente, o Presidente brasileiro. Tal como está obrigado, hoje, a uma difícil e delicada adaptação a um Congresso de aliados exigentes e pouco confiáveis, no plano externo Bolsonaro desperta para o fato evidente de que a unidade cada vez maior entre Rússia e China é um fator geopolítico incontornável e com um potencial de relações cooperativas de larga amplitude, ao passo que dos EUA , até o momento, em vez de novas possibilidades para maiores relações bilaterais, surgem apenas vetos e pitos, como a ameaça do embaixador norte-americano no Brasil, Jeff Tobbe, afirmando que o Brasil “sofrerá consequências caso admita a entrada da tecnologia chinesa 5G na telefonia celular do País”.

 

A guinada desesperada do governo Bolsonaro também pode ser percebida no discurso de posse do novo chanceler brasileiro, Carlos Alberto Franco França, que, apesar da cerimônia a portas fechadas, escancarou uma substantiva mudança de tom no Palácio do Itamaraty. Primeiramente, ao afirmar que a política externa brasileira vai praticar uma “diplomacia da saúde”, buscando vacinas onde quer que possam ser encontradas. E, em seguida, ao mencionar que a nova diplomacia brasileira vai buscar cooperação “sem preferências e sem exclusões”,  ou seja, não apenas o fanatismo terraplanista de Ernesto Araújo foi sepultado, como Bolsonaro, no labirinto de seu isolamento crescente, descobre que a China e a Rússia podem ser bem mais do que uma solução prática emergencial para a vacinação do povo brasileiro, mas, também, uma área  de manobras geopolíticas, para um governo que, como grande parte dos contaminados, também precisa de um respiradouro político para sobreviver, razão fundamental para essas guinadas. Sem dúvida desesperadas.

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