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Economistas neoliberais insistem em ignorar legado de governos do PT

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No final de semana, a Folha publicou o artigo “Lula presidente?”, do economista Rodrigo Zeidan, no qual o autor comenta a possibilidade de sucesso de um novo governo Lula e deixa claro que prefere uma suposta “terceira via”. Na conclusão, diz que o saldo dos governos petistas foi negativo e acusa a esquerda de incompetência.

 

Cada cidadão brasileiro tem o direito de ter suas preferências políticas. Mas isso não autoriza a distorcer os dados e a história para forçar a realidade e se enquadrar nas suas preferências ideológicas. Assim só se criam narrativas fantasiosas que tantas vezes enganam o cidadão eleitor.

 

Não há dados que sustentem a surrada narrativa de que o sucesso do estilo de desenvolvimento distributivista dos governos petistas tenha sido um sucesso apenas no primeiro governo Lula. Para ‘demonstrar’ seus desejos, o autor ignora completamente a rápida superação da crise de 2008-2009, a saída do mapa da fome, a contínua redução da pobreza, da miséria e do desemprego, todas conquistas posteriores a 2007.

 

Além disso, o autor omite que a dívida pública líquida, mais importante indicador fiscal de um país, seguiu em queda durante todo o segundo governo Lula e o primeiro governo Dilma, partindo de 62%, em 2002, para 34% do PIB em 2014.

 

Omite também que, em todo esse período, o Brasil manteve a inflação controlada e que as reservas cambiais aumentaram mais de 20 vezes (de US$ 16,3 bilhões para US$ 368,7 bilhões, entre 2002/2015) –evento relevante, que encerrou um longo histórico de crises cambiais no Brasil.

 

O autor também fecha os olhos à evidência de que a dívida externa líquida, que era de 37% do PIB, em 2002, quando o Brasil estava quebrado no FMI, passou a ser negativa a partir de 2007. Ou seja, nos governos do PT o Brasil passou a ser credor em moedas estrangeiras, tendo inclusive emprestado U$ 15 bilhões ao próprio FMI na grave crise internacional de 2009.

 

Curiosamente, o autor também esquece de analisar os governos dos partidos que atualmente compõem a chamada “terceira via”, que ele tanto defende.

 

A trajetória fiscal nos governos tucanos, por exemplo, foi marcada pela ampliação da carga tributária (de 27% para 33% do PIB), ao mesmo tempo em que a dívida pública líquida dobrou, saindo de 29,5% (1995) para 60,4 % do PIB (2002). E esse endividamento acelerado foi acompanhado da privatização empresas estatais estratégicas, no setor elétrico, financeiro, telecomunicações, siderurgia, mineração, dentre outras.

 

Além disso, o Brasil quebrou mais de uma vez, tendo que recorrer ao FMI, devido à conhecida e prolongada âncora cambial, e fechou aquele o ciclo com um apagão de energia.

 

No governo golpista de Temer, com sua a agenda neoliberal da suposta “ponte para o futuro”, os resultados fiscais, econômicos e sociais foram igualmente desastrosos.

 

O quadro foi marcado pelo alto desemprego, o PIB estagnado e o crescimento da desigualdade. Do ponto de vista fiscal, mesmo após a aprovação de diversas reformas que retiraram direitos da população e limitaram a atuação do Estado, a dívida pública líquida seguiu aumentando (56% do PIB em 2018) e, na ausência de crescimento econômico, o déficit primário permaneceu elevado. Por estes e outros motivos, o governo golpista de Temer foi o governo mais mal avaliado da história recente do país.

 

Na realidade, esse movimento de travestir como sucesso o fracasso dos governos da “terceira via”, sempre obriga supostos analistas a fechar os olhos ao evidente sucesso dos governos de esquerda no Brasil. É um movimento que tem uma raiz ideológica viciosa: parte de uma ojeriza a atuação do Estado como coordenador, indutor e promotor do desenvolvimento econômico.

 

É o que fica claro quando o autor afirma que PAC teria sido um misto de “megalomania e corrupção”, confundindo investimentos públicos fundamentais para o desenvolvimento do país com acusações (muitas delas comprovadamente infundadas) de desvio de recursos.

 

Vejamos alguns dados exemplares. Com o planejamento estratégico do PAC, a capacidade instalada do setor elétrico cresceu 133%. Em 2001, as hidroelétricas representavam 83% da geração de energia e, apesar da construção de quatro grandes usinas, sua participação relativa caiu para 62%. As fontes de energia foram diversificadas; com as eólicas chegando a 15%, as térmicas representando 10%, além da biomassa (9%) e da energia solar.

 

As linhas de transmissão, interligando o sistema, passaram de 70 mil km para mais de 164 mil Km em 2020. O PAC também modernizou os portos, os aeroportos, expandiu linhas de metrô e corredores de ônibus, entregou mais de 4 milhões de unidades do Minha Casa, Minha Vida, grandes obras de recursos hídricos para o semiárido nordestino, com mais de 3 milhões de famílias beneficiadas pelo Luz para Todos e 1,6 milhões de cisternas, para ficarmos só nisso, numa análise bem ligeira.

 

A boa notícia é que os economistas neoliberais estão sendo ultrapassados pelo avanço do debate econômico mundo afora. Enquanto os EUA discutem o “Plano Biden”, a Europa discute o “Next Generation UE” e os países asiáticos ampliam sua aposta na ação coordenadora do Estado, a ortodoxia neoliberal local segue prisioneira da distorção da história e de sua fracassada agenda econômica.

 

Mesmo após a crise econômica agravada pelo golpismo, com agressão à democracia e à institucionalidade republicana promovida por setores do Judiciário, do Parlamento e da mídia em 2015, o legado dos governos de esquerda no Brasil é extremamente positivo, incomparavelmente superior a qualquer governo do campo da atual dita “terceira via”, que apoiou eleitoralmente e segue sustentando essa tragédia histórica que é o desgoverno Bolsonaro.

 

Durante os governos do PT, aprendemos que é possível conciliar crescimento econômico, redução da pobreza, distribuição de renda, estabilidade macroeconômica e democracia, sem perder de vista a ampliação dos serviços públicos e a preservação ambiental. É esse legado que sustenta as pesquisas de opinião onde Lula aparece como presidente mais bem avaliado da história e líder destacado na preferência popular do povo brasileiro.

 

Se alguns economistas da ortodoxia neoliberal fazem questão de esquecer dos fatos, o povo faz questão de obrigá-los a se lembrar, a cada pesquisa divulgada, de quem verdadeiramente o ajudou a melhorar de vida.

 

(*) Por Eduardo Fagnani e Guilherme Mello
Publicado, originalmente, no jornal Folha de S. Paulo

 

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