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E quando for a hora da vacina cubana?

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Nas condições de fervura psiquiátrica do Bolsonaro nestes dias, pode-se imaginar qual será a reação de seu governo – se ele ainda estiver no exercício do cargo – quando, possivelmente em julho, a vacina cubana contra o coronavírus estiver disponível.

 

 

A medicina cubana tem uma história de grandes avanços e conquistas que vem de muito antes de Fidel Castro, mas Fidel potencializou, fazendo de Cuba um país de primeiríssimo mundo, no qual a mortalidade infantil só é comparável aos melhores índices dos países escandinavos e é muito melhor que os índices dos Estados Unidos.

 

 

Essa herança vem do grande médico e cientista cubano Carlos Finlay, cujo trabalho, nas últimas décadas do século 19 e primeiros anos do século 20, foi responsável pela identificação da causa e controle de enfermidades mortíferas como a febre amarela e viabilizou a construção do Canal do Panamá, em cujas obras os trabalhadores morriam às centenas, vítimas do mosquito que a transmitia.

 

 

Com tais antecedentes, essa vacina chegará endossada pelos êxitos passados e recentes da história médica de Cuba e será disponibilizada para o mundo inteiro em condições muito mais favoráveis que as outras.

 

 

É previsível que o governo federal nada queira com a vacina cubana, da mesma forma que criou todas as dificuldades para a vacina de origem chinesa produzida pelo Instituto Butantan. Como esperar que se candidate à vacina cubana um governo que expulsou os médicos cubanos que, se ainda estivessem aqui, teriam prestado serviços inestimáveis no combate ao coronavírus?

 

 

Mas é previsível também que governadores de Estado como os do Nordeste queiram comprá-la. Quando isso acontecer, o que que vai fazer o Bolsonaro (se ainda estiver lá)? Vai ao Supremo para tentar impedir? Ou vai impedir na marra?

 

 

 

Bolsonaro acaba de entrar no Supremo com ações diretas de inconstitucionalidade contra os governos da Bahia, do Rio Grande do Sul e do Distrito Federal, que adotaram medidas restritivas da atividade econômica e da locomoção pessoal para reduzir a transmissão da Covid.

 

 

Como o Supremo já decidiu que Estados e municípios têm competência concorrente com a do governo federal para adotar medidas sanitárias ainda que drásticas, Bolsonaro quer agora que essas medidas sejam antecipadamente aprovadas pelas respectivas assembleias legislativas no caso dos Estados, e pela Câmara Distrital no caso do DF. E já anunciou que não vai permitir que “seu Exército” cumpra ordens de governadores. (“Meu Exército” – foram as palavras que ele usou, com ar de proprietário, como se falasse seu carro, de sua moto ou de sua lata de leite condensado,)

 

 

Foi o surto diário de uma escalada que tem sempre como cenário o ajuntamento de fãs que se reúnem na entrada do Palácio da Alvorada à espera de sua novidade, seu pão espiritual de cada manhã, e daí se espalha por suas redes sociais e invade o noticiário das TVs e da própria mídia alternativa.

 

 

Não sei qual seria a mais provável avaliação psiquiátrica desse Grand Guignol, mas com certeza Bolsonaro estuda antecipadamente e talvez ensaie diante do espelho as frases de efeito que vai cometer.

 

 

Elas não ficam sem consequência e numa dessas ele pode ultrapassar o amplo limite que infelizmente lhe tem sido tolerado, como aconteceu com o Trump ao incitar a multidão de arruaceiros que invadiu o Capitólio em Washington.

 

 

 

Uma coisa logo aconteceu. Bolsonaro associou a seu protesto contra os governadores uma alusão a estado de sítio e logo recebeu um telefonema do Presidente do Supremo, Ministro Luís Fux, até aqui condescendente com ele, mas agora cobrando explicações. Outros ministros do Supremo também reclamaram, o que revela que seu pedido não será atendido

 

 

 

Astucioso como é, e como são as personalidades psiquiátricas do feitio da sua, Bolsonaro pode querer exatamente isso, o arquivamento de seu pedido, para depois se queixar de que o Supremo, tanto quanto o Congresso, não lhe deixa espaço e poderes para proteger os direitos de “seu povo”.

 

 

 

Cobrado pelo Presidente do Supremo, Bolsonaro respondeu que não pensa em estado de sítio, que tudo foi um mal-entendido. Respondeu apaziguadoramente, como sempre faz ao ser cobrado e os que recebem sua resposta ficam na expectativa de as coisas vão melhorar daqui para a frente. Ele então observa um breve intervalo obsequioso e depois ataca outra vez. Até quando? E até onde?

 

 

E quando chegar a hora da vacina cubana?

 

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

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