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Dos esquadrões da morte às milícias

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Documentário histórico, ‘Você também pode dar um presunto legal’ é referência na luta contra a violência policial que recrudesce hoje e perdura há quase um século no Brasil

 

 

As circunstâncias que abarcam a realização e a exibição do documentário de Sergio Muniz intitulado Você também pode dar um presunto legal (1970/71) constituem um filme em paralelo. Os detalhes e as origens dessa história de extrema e impune violência policial que é mais uma vez discutida com urgência no Brasil, nos dias de hoje, são apresentados na introdução desse filme que se encontra disponível no Youtube.

 

O documentário será exibido também no Cine Macunaíma, da Associação Brasileira de Imprensa, amanhã, dia 01 de junho. Às 19h30m o diretor do filme participará de debate com o cineasta Silvio Tendler, o diretor de fotografia Zetas Malzoni, o ex- Ministro da Cultura e o cineasta João Batista de Andrade. O jornalista Ricardo Cota será o mediador.

 

Você também pode dar um presunto legal é construído com relatos e imagens – jornais, revistas e programas de TV da época – sobre a atuação do esquadrão da morte na época da ditadura civil-militar (1964/1981). Apesar de ter sido filmado na década de 70, ele só foi lançado em 2006 com o objetivo de proteger a vida dos seus produtores, do autor, dos atores e da equipe técnica.

 

Agora, é inadmissível que meio século depois seja necessário retornar ao assunto, que parece insolúvel (!), como acaba de alertar a vereadora pernambucana Liana Cirne Lins, alvejada em manifestação pacífica do 29M nas ruas de Recife, no último sábado, assim como os dois cidadãos atacados e cegados pela Polícia Militar, os quais nem participavam dos movimentos. ”É urgente enfrentar o bolsonarismo dentro das forças policiais e necessário estabelecer um protocolo rigoroso da polícia em ações como essa”, denuncia Liana Cirne Lins.

 

Na sua apresentação, Muniz registra: ”Este filme foi produzido e filmado em 1970/1971 e montado, sonorizado, mixado e copiado em 71/73 com a ajuda de companheiros e amigos do Brasil, da França, da Itália e de Cuba. Eles sugeriram, sabiamente, que evitássemos apresentá-lo no Brasil, em 1974/75. Nós e os atores que generosamente participaram dele poderíamos correr sérios riscos de vida – de segurança. Uma cópia de VHS então foi guardada na expectativa de que algum dia ela seria deixada em alguma cinemateca.”

 

Em 2003, após os negativos localizados em um arquivo do ICAIC, o Instituto Cubano de Cinema e Indústria Cinematográfica, em Havana, o filme foi reeditado, mantida ao máximo a montagem original, e foi mostrado num seminário da Faculdade de Sociologia da UNESP, da professora Anita Simis. Desde 2006, Muniz exibe esta versão, sem muito alarde, em universidades e mostras sobre direitos humanos.

 

doc relembra ações do Esquadrão da Morte e do famigerado Delegado Fleury, chefe do DOPS/São Paulo. Nele, se inserem trechos de encenações de Brecht, A Resistível Ascensão de Arturo Ui (Teatro de Arena) e de O Interrogatório, de Peter Weiss, no Teatro São Pedro. Os atores Othon Bastos, (fazendo o promotor Helio Bicudo), Gianfrancesco Guarnieri (Arturo Ui) e Lafayette Galvão (interpretando, às vezes, Sergio Fleury) fazem parte do elenco.

 

É bom rastrear, a partir dessas origens das milícias de hoje apresentadas destemidamente por Sergio Muniz e sua equipe em Você também pode dar um presunto legal, e traçando uma linha do tempo anterior à ditadura de 64, essas criminosas práticas policiais no Brasil.

 

Execuções sumárias, severas intimidações a todo e qualquer cidadão – em especial das minorias e dos pobres -, prisões arbitrárias e torturas sistemáticas em delegacias. Elas perduram até hoje desde os anos 30 ao ser criada a tropa de choque, a P.E., Polícia Especial e braço armado da Delegacia de Ordem Política e Social – o DOPS.

 

No Rio de Janeiro – nunca é demais lembrar – seus agentes costumavam aterrorizar a população que cruzava pacìficamente o Largo da Carioca, no Centro da cidade, quando saíam dos quartéis ali localizados fazendo malabarismos montados nas suas motocicletas.

 

É um modelo que se tenta restaurar hoje caso não sejam tomadas severas providências. E o documentário de Sergio Muniz alimenta o debate necessário que é cada vez mais urgente. Importante assisti-lo.

 

Você também pode dar um presunto legal está disponível no Cine Macunaíma até a próxima segunda-feira, 07/06. Clique aqui para acessar o canal da Associação Brasileira de Imprensa no Youtube

 

 

 

(*) Por Léa Maria Aarão Reis/ Revista Carta Maior

 

 

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