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Do caos virtual à vinda do Coronavírus

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O bonde de Bolsonaro parece ter se descarrilado do comboio que tomou de assalto o metiê da política tradicional, fazendo uso da cólera como o potente combustível que tem incendiado vários países e conquistado seguidores ao redor do mundo. As jogadas e declarações de Jair Messias para manter-se no poder não se diferem das de Trump e dos premiers do Reino Unido, da Hungria e da Itália, orientados que são por “spin doctors”, ideólogos, cientistas dos algoritmos, analistas da Big Data, esses criadores do novo jogo político, atuantes desde o início de milênio.

 

“No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Viktor Orban, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento e esse já é eclipsado por outro, numa espiral infinita que catalisa a tensão e satura a cena midiática”, explica o cientista político de origem francesa Giuliano Da Empoli, diretor do centro de pesquisa “Volta”, em Milão, Itália, e autor de “Os Engenheiros do Caos”. Lançado há menos de dois meses no Brasil pela Editora Vestígio, o livro revela os bastidores do trabalho empreendido nas redes por esses estrategistas do populismo, para nós, ilustres desconhecidos, à exceção de Steve Bannon.

 

A nova ordem política que se impõe nos EUA e na Europa é um engenho de fato incendiário, como mostra Da Empoli. França e Alemanha também caminharam por uma linha paralela à desse horizonte arrepiado, tendo os refugiados como o principal bode expiatório deles todos. Na França, 300 mil Coletes Amarelos nutriram-se de protestos explosivos ocorridos em série por todo o país. Os ingredientes: raiva de determinados segmentos populares e o algoritmo do Facebook para espalhar uma epidemia de ódio, do plano virtual ao real. É o retrato da democracia mundial, e não só a brasileira, em vertigem.

 

Sobre esse tema da imigração, que desperta fortes emoções como medo e ódio, a direita populista acabou se unindo com a esquerda populista, como ocorreu no Reino Unido, por ocasião do Brexit; na Itália, quando Salvini decretou o fechamento dos portos e na campanha do “Fora!”, contra ciganos; na Hungria, com a violenta perseguição por meio de mentirosas acusações de Orban e seus spin doctors  (marqueteiros) a grupos de refugiados e de judeus; na Alemanha, com o movimento “De Pé” (“Aufstehen”). Tudo isso para dar cabo “da boa consciência da esquerda sobre a cultura do acolhimento, que ameaça a homogeneidade e a identidade cultural dos povos europeus”, segundo relata Giuliano Da Empoli em seu livro.

 

Outro denominador comum entre todos esses é a aversão que nutrem por certos temas e grupos, tal e qual os da extrema direita cá de baixo, como um front contra a ditadura do politicamente correto e dos direitos das minorias que varrem os valores da TFP de lá e de cá. Nos Estados Unidos, Trump usufruiu do mesmo expediente pela mão de Steve Bannon, este, auxiliado por videogamers da internet profunda e por outros colaboradores, a fim de conquistar o poder.

 

As referências bibliográficas da pesquisa de Da Empoli preenchem várias páginas do livro e atestam o olhar vigilante dos autores europeus para o fenômeno do populismo digital que, gestado poucos anos antes, eclodiu no planeta a partir dos anos 2000.  Ainda em 2013, políticos de partidos tradicionais não poderiam imaginar que a besta, alimentada de ódio, da paranoia e da frustração dos outros, estava já muito próxima. O diretor da campanha vitoriosa do Brexit, Dominic Cummings, deu o seguinte recado em seu blog: “Se você quer fazer progresso em política contrate físicos e não experts ou comunicadores”.

 

No Brasil – Nesse contexto dos países analisados por Da Empoli, Jair Bolsonaro, o primo pobre de espírito, o bobo da corte e do mau-gosto, o colonozinho medíocre e histérico, abaixo da linha de crítica, mas muito bonzinho para os planos megambiciosos do Grande Mano em relação à nossa América, configura-se apenas como capacho da casinha do cão da Casa Branca, para o trânsito dos interesses do hemisfério Norte. Mesmo assim, o autor de “Os engenheiros do Caos” dedica uma página à estratégia populista que lhe deu o trono do Planalto.

 

Giuliano Da Empoli aponta para o drible da campanha promovida pelos comunicadores desse “Messias” no Facebook, comprando milhares de contatos para bombardear usuários de WhatsApp com fakenews. “Assim foi que os brasileiros assistiram nos últimos anos a ascensão de uma nova geração de extrema direita, que soube explorar o algoritmo da plataforma para multiplicar sua visibilidade e seu faturamento”.

 

O autor cita o caso dos vídeos conspiracionistas pró-Bolsonaro no youtube para a difusão do vírus da Zika, a partir de 2015, contra os esforços médicos para conter sua expansão; outros vídeos, incriminando as vacinas pela propagação do vírus, levando muitas famílias a recusar os procedimentos imprescindíveis para a sobrevivência dos filhos. Também aqueles vídeos que denunciavam um suposto complô de professores de esquerda para espalhar o comunismo nas escolas e, ainda, os do Movimento Brasil Livre, fundado durante o impeachment de Dilma Rousseff por jovens como Kim Kataguiri e outros seis garotos também postulantes a cadeiras no Parlamento.

 

Essa gente, que ajudou com empenho na construção do antipetismo, “levou um ex-militar de extrema direita, também muito popular nas redes, à presidência da República”: conta Da Empoli: “O vídeo dos apoiadores de Jair Bolsonaro reunidos em Brasília no dia de sua posse, que gritavam alegremente os nomes do Facebook e do YouTube, rodou o mundo”.

 

Os trolls – A mídia tradicional e o cidadão brasileiro caem (tal e qual os norte-americanos com Trump), em todas as provocações grosseiras e nos incontáveis disparates do beligerante imitador do chefe do “troll”. No caso de Trump, os jornalistas americanos “fazem publicidade e dão credibilidade para um bilionário nova-iorquino ser o candidato anti-establishment”, ironiza o cientista político. E arremata: “sem os gritos cotidianos e escandalizados dos comentaristas políticos e os intelectuais vestidos de preto, seria difícil para Trump credenciar-se como porta-estandarte da raiva dos abandonados contra o sistema”. O beliscão, aliás, cai muito bem também aqui, para nós do ramo, quanto ao nosso caso.

 

Para Milo Yannopoulos, parceiro de Bannon na campanha,Trump é um troll . “E os trolls, por trás da superfície da tela, são os únicos que dizem a verdade, revelando a nudez do poder, como os bufões da Idade Média”. Nesse ponto, cá pra nós, Bolsonaro mais se assemelha a um trolado que ao conceito de troll, sem graça, sem charme, sem carisma algum para interpretar o papel. Ainda mais agora, que o resultado do exame de sua contaminação pelo coronavírus já não é surpresa para ninguém, mas o enrola em maus lençóis, dando a impressão de estar jogando a toalha – apesar de sua claque leal, sua raivosa e infeliz plateia.

 

Já Bannon, observando as forças poderosas e pulsantes sob a superfície das redes, pela frustração e fúria dos que se sentem excluídos da sociedade americana, percebeu ter achado o rumo certo. Foi assim que Trump, ostentando a mensagem “deixe-me ser o porta-voz de sua ira”, chegou à Casa Branca.

 

Ao expor com riqueza de informações e texto primoroso a situação típica de cada país nessa perigosa e inquietante plataforma digital, o autor de “Os Engenheiros do Caos” não deixa pontas soltas e ainda traz a revelação, dada por Steve Bannon, de que o epicentro dessa revolução é a Itália. Em 2000, o marqueteiro Gianroberto Casaleggio contratou o comediante Beppe Grillo para o papel de primeiro avatar de carne e osso de um partido algoritmo. Nascia então o Movimento 5 Estrelas, coletando dados de eleitores e  suas demandas, livre de base ideológica. Casaleggio, aliás, foi o real criador e primeiro disseminador das fake news, ainda em 2007.

 

“Quando o muro de Berlim caiu, a Itália se transformou no Vale do Silício do populismo. A operação Mãos Limpas já representava uma abordagem populista: os pequenos juízes contra as elites corruptas. A Itália antecipou em mais de 20 anos a grande revolta contra o establishment, que hoje agita os hemisférios Norte e o Sul, mas seu caso passou despercebido, no âmbito dos alarmes sobre a ascensão da direita e do retorno do fascismo”, protesta Giuliano da Empoli.

 

A esquerda brasileira, portanto, que abra o olho e leia esse livro com atenção e responsabilidade, se não quer, ela própria, se ver descarrilada da História, em seus novos e desafiadores tempos políticos.

 

…E voltando daí para Lugano, na Suíça

 

Em 1999, quando o ovo da serpente já estava bem chocado, outra cientista política e escritora, a franco-americana Susan George, hoje octogenária, lançava na Inglaterra um livro aterrorizante, que chegaria ao Brasil pela Boitempo Editorial, em 2002, a tempo de ser lançado no 2º Fórum Social Mundial de Porto Alegre. “O Relatório Lugano” teve grande repercussão à época, mas pouco depois silenciaram-se os rumores em torno das previsões nele anunciadas.

 

O enredo focaliza-se em uma reunião de especialistas e intelectuais, contratados por “think tanks” e governos para definir o futuro do sistema capitalista, nebuloso, diante de uma população mundial de 7 milhões de habitantes. Os debates ocorrem na pequena cidade suíça de Lugano, ponto de pouso de milionários do planeta. E a solução lá encontrada pelo colegiado, para a salvação do capitalismo, é o extermínio de um terço da população mundial.

 

Além da terrível saída oferecida, o grupo sugere as formas de a barbárie ser efetivada a custos baixos, pois dispensam equipamentos especiais e quase não empregam a força humana. Os princípios gerais consideram os erros dos velhos métodos de genocídios como “provinciais e incapazes” e a conclusão é de que o modelo de Auschwitz é o oposto do pretendido.

 

O método traçado resulta, então, no estímulo a conflitos regionais, epidemias, catástrofes e desmonte de regiões inteiras, tudo sob as aparências de inevitáveis fatalidades. No prefácio à edição brasileira, Susan George diz que o que o leitor lerá é “uma verdade fictícia ou uma fantasia realista”, escrita três anos antes do 11 de setembro nos E.U.

 

Mais adiante, ela afirma não crer em conspirações, embora sim em interesses e que “não ficaria muito surpresa se um relatório dessa espécie viesse a surgir dos subterrâneos de algum escritório de informações de algum governo ou de um grupo de pensadores de direita”.

 

Vinte e um anos depois de vir a lume, quando o mundo submetido ao desastre neoliberalista e aos subterrâneos da internet vive a pandemia do Coronavírus, “O Relatório Lugano” continua perturbadoramente atual e com ares de arauto de profecias, deixando os desconfiados de sempre com muitas interrogações coçando-lhes a cabeça.

 

Ficam aqui essas duas dicas de leitura para desfrute durante a quarentena, que pode ser arrastar por mais tempo que o desejado.

 

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