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Diagnósticos contraditórios, soluções ineficazes

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No domingo, 20 de setembro de 2020, o jornal O Estado de S. Paulo (Estadão), publicou, em página inteira (H6), a divulgação do livro “Internacionalismo ou Extinção”, recente obra do linguista e pensador estadunidense Noam Chomsky, que é também entrevistado na matéria “A crise segundo Chomsky”.

 

Os trabalhos deste linguista o colocam entre os pensadores inatistas, aqueles que aceitam condições gerais idênticas em todos os seres humanos: “as características gerais da estrutura gramatical são comuns a todas as línguas e refletem determinadas propriedades da mente” (Noam Chomsky, Linguística Cartesiana, Editora Vozes, Petrópolis, 1972).

 

E a consequência política desta crença é realçada na matéria de André Cárceres, no Estadão: o internacionalismo como resposta à atomização da vida, à busca por soluções particulares e deste modo formando “indivíduos isolados … vulneráveis e fáceis de controlar”.

 

Estas condições radicais, do tudo ou nada, têm sido frequentemente usadas neste mundo neoliberal de hoje que é corretamente atribuído às ações políticas de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, nos anos 1980.

 

Mas as possibilidades não são da internacionalização ou da extinção. E são sobre estes extremos, estes radicalismos que trataremos.

 

O neoliberalismo criou a falsa impressão do homem herói, daquele que “se faz por si mesmo”, do empreendedor sempre vitorioso, esta figura difundida pelos meios de comunicação que englobarei no termo “hollywoodiano”.

 

Antes mesmo da II Grande Guerra, o “think tank” do poder estadunidense, coordenado pelos Rockefeller, colocava a comunicação de massa ao lado de outras estratégias para “substituir o Império Britânico como potência dominante. A criação das Nações Unidas foi um movimento crucial. Os irmãos Rockefeller doaram a terra em Manhattan para o Quartel General da ONU (e no processo acabaram lucrando bilhões de dólares pela valorização dos terrenos adjacentes, também de propriedade dos irmãos)”, conforme F. William Engdahl, “O asqueroso legado de David Rockefeller”, 04/05/2017, (http://www.informationclearinghouse.info/46776.htm).

 

Mesmo proprietários de empresas de petróleo, os Rockefeller promoveram as crises do petróleo para atacar o industrialismo, favorecendo o sistema financeiro internacional, onde também participavam com o Chase Manhattan Bank e fizeram do vice-presidente do Chase, Paul Volcker, o presidente do Federal Reserve sob o governo Carter. Este implementou o choque da taxa de juros que salvou o dólar em queda e os lucros de Wall Street, incluindo o Chase (hoje JPMorgan Chase), à custa da economia mundial.

 

Esta ação foi importantíssima no Brasil para combater os governos militares, que haviam adotado a política desenvolvimentista nacionalista. E resultou na Nova República ou “redemocratização” de caráter neoliberal, mostrando a articulação para estabelecimento do novo poder mundial: da banca, ou seja, do sistema financeiro dos paraísos fiscais.

 

Não foi difícil trazer para este capitalismo financeiro, exclusivista, concentrador de renda, as esquerdas, especialmente aquelas com ideologias igualmente globais, de aplicação universal, e de religiões de toda humanidade.

 

Formou-se então a geleia geral da globalização, de diversificadas tendências e de partidos até ideologicamente opostos, mas de um único vencedor: a banca.

 

Esta matéria do Estadão, jornal de reconhecidas posturas conservadoras, promovendo livro de pensador considerado de esquerda, mostra bem que o lado do ganho econômico não se equivoca.

 

O maior prejudicado nem é citado na entrevista: o Estado Nacional. Ao ser perguntado como poderia ser defendida a democracia, responde o linguista: “educação, organização, ações apropriadas às circunstâncias”. Lugares comuns, próprios de pequenos burgueses, incompatíveis com o intelectual Noam Chomsky. Mas, em minha modesta avaliação, esta resposta já estaria elaborada na opção globalizante, universalista do pesquisador da linguística.

 

No entanto, malgrado toda a campanha da banca e das ideologias globais, é o nacionalismo, a atenção primeira às realidades locais, nacionais, unidas pelo sentimento da pátria, da nação que vem oferecendo as mais consistentes respostas. E a Rússia, que sofreu profundamente com globalizações e liberalismos, mostra que foi a resposta soberana, de um estado nacional, que deu melhor e mais democrática resposta. Mas, por favor, ela é exemplo para os russos. E também já deixou de ser comunista há 30 anos. O Partido Comunista russo nem está no governo, nem tem significativa aceitação popular. É um entre tantos que tem democraticamente oportunidade de defender suas ideias.

 

Depois dos governos militares, em especial do Presidente Ernesto Geisel, e do falecimento do Governador de dois Estados, Leonel Brizola, está vaga a posição de líder nacionalista no Brasil.

 

O mundo de hoje está colocado diante de problemas que exigem independência intelectual, espírito inovador, e, em especial, análises políticas que conduzam às soluções específicas, adequadas aos diversos recursos naturais e culturais de cada país.

 

Arriscaria afirmar que nosso problema é sobretudo político e tem sua maior dificuldade no bloqueio que a pedagogia colonial nos colocou nestes cinco séculos, sempre abertos às influências externas, raríssimas vezes, se houve alguma, buscando em nós mesmos as respostas, como foi o momento do desenvolvimentismo trabalhista de Getúlio Vargas. A Era Vargas que Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro, cada um ao seu tempo, de algum modo combateram.

 

A humilhação do Chanceler, do Presidente, de vários membros do Governo diante dos representantes dos Estados Unidos da América (EUA) também nos atinge, e não significa uma simples docilidade ideológica ou medo do desconhecido. É a confissão da incapacidade destes dirigentes e nossa. E nisso reside todo sentido em colocar no extraterreno, no mágico, no milagre neopentecostal parcela do governo, do poder administrativo brasileiro. Não é um comportamento teísta, nem mesmo da religiosidade tão encontradiça entre nossos irmãos; é um sinal de incompetência, de inabilidade, de se reconhecer inútil.

 

Outro aspecto é a hostilidade aos militares. Num governo onde os principais poderes são oriundos da banca, do hollywoodianismo e dos neopentecostais, a imputação de erros aos militares é, também, um modo de ocultar os verdadeiros responsáveis pela atual situação brasileira. Não procuro desculpar verdadeiros erros dos militares, que também os governos de Médici e Geisel, reconhecidamente nacionalistas, cometeram, mas para ressaltar os radicalismos dos tudo ou nada, do internacionalismo ou extinção.

 

Precisamos melhor analisar o Brasil, seu presente e sua história, dele tirar os recursos e a força para reagir, enfrentar esta dominação que degrada nossa vida e a consciência nacional.

 

Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

 

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