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Déspotas Esclarecidos e Democráticos Milicianos

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“Collor, tu és o suco dos ministros:

És pernóstico, és besta, és falastrão;

Tocas bombo, clarim, guitarra e xistros,

Charanga reles da Revolução!

Bradas ao Povo, em todos os registros:

“Eu sou o portador da salvação!”

Mas quem não vê teus cálculos sinistros

Por trás da tua nova orientação?”

(José Oiticica, “Ao “Chefe” Collor”, in Ação Direta, Editora Germinal).

 

 

O historiador francês Georges Adolphe Mongrédien (1901-1980) escreve que “a calma sempre sucede aos períodos de forte autoridade” (A vida quotidiana no tempo de Luís XIV, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/data).

 

Não vivemos a calma. Muito ao contrário. Temos mais uma crise do capitalismo financista, à qual se soma uma pandemia e a inquietação social típica das épocas que antecedem grandes guerras ou comoções sociais.

 

Nestes momentos de crises, são os pensadores, aqueles cientistas, historiadores, políticos que se debruçam sobre as questões da sociedade que podem oferecer as saídas, as soluções ou, ao menos, refletir com mais profundidade e rigor conceitual sobre as ocorrências.

 

Na história da Europa, no século XVIII, ocuparam os tronos, monarcas que buscaram a aproximação e o conselho das personalidades reconhecidas pelo talento nas artes, ciências e letras. Era um dos períodos de autoritarismo no poder, levando assim à designação genérica de “despostas esclarecidos” tais governantes.

 

São citados os soberanos: na Rússia: Pedro I (1672-1725) e Catarina II (1729-1796); no Sacro Império Romano: Maria Teresa (1724-1780) e José II (1741-1790); na Prússia, Frederico II (1740-1786); na Espanha, Carlos III (1716-1788), e em Portugal, José I (1714-1777), da Casa de Bragança, graças ao seu executivo Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal (1699-1782).

 

Curiosamente, estes ilustrados monarcas tinham os mesmos amigos franceses: Diderot, Voltaire, Montesquieu e D’Alembert. Mas não só.

 

A tzarina Catarina II, viúva de Pedro III, também se correspondia com o médico inglês Thomas Dimsdale (1712-1800), a respeito de quem se narra um feito importante para nossos tempos de Convid 19.

 

A narração colhida está no artigo “Dr.Thomas Dimsdale and Smallpox Inoculation in Russia”, de Philip H. Clendenning, no Journal of the History of Medicine and Allied Sciences, volume XXVIII, abril/1973, disponível na internet.

 

A inoculação do vírus da varíola na pele já era conhecida no século anterior, na Polônia e em Nápoles, porém restrita a classes sociais mais baixas. Mas a epidemia começa a chegar à aristocracia inglesa e alerta Catarina II, que convida Dr. Dimsdale à Rússia e se faz inocular.

 

A governante se preocupava com a doença, não só pela sua saúde e do seu filho, como a da população russa, onde a recente epidemia havia morto 20.000 cidadãos. Além do que uma das suas ambições era a modernização da medicina russa, e uma doença que causava uma em cada 10 mortes no continente europeu era um bom começo.

 

Portanto, a 28 de julho de 1768, Dismdale e o seu filho partiram para a Rússia, para descobrir na chegada que a sua tarefa essencial era a inoculação da Imperatriz e do seu filho primogénito. Uma notícia que poderia ter assustado qualquer médico. Mas, como num conto de fadas, tudo saiu bem e ficaram todos felizes. Ganharam a monarca, o médico, o povo e a ciência.

 

Coube realmente a aqueles déspotas o adjetivo esclarecido.

 

Muitas análises usam um tipo de terminologia para obter o que com a precisão conceitual, as informações e a pesquisa não conseguem: construir a argumentação convincente. Já nem se diga de slogans e agressões, tão em voga nesta segunda década do século XXI.

 

O que nos interessa discutir neste artigo são os conselheiros do rei, quem está ao lado dos dirigentes para ajudá-los a compreender a sociedade, a encontrar meios de atender o povo, pois quer tiranos hereditários quer presidentes eleitos, só se justifica o poder sobre uma sociedade, um povo, uma nação, se for para melhorar a vida de todos, encontrar soluções para os problemas e as carências que os afligem.

 

Tem se insistido, repetido como argumento conclusivo, que o dirigente eleito repercute a decisão, retumba a vontade popular. Será verdade?

 

Vejamos quem está a seu lado orientando ou impondo as decisões.

 

No Brasil de hoje, me perdoem a comparação, mas os Diderot, Voltaire, Dismdale são conhecidos por 01, 02, 03. O que significariam estes zeros? As capacitações? Mas não as mesmas que fizeram o Marquês de Pombal, enfrentando o terremoto de Lisboa, possibilitar a Dom José I, o codinome de O Reformador.

 

Apenas um único dado tão sensível para esta época de financeirização da vida e da política. Antes de Pombal entrar para o Conselho, Portugal nada tinha e ainda devia à Inglaterra alguns milhões de cruzados. Após sua passagem, o tesouro possuía quarenta e oito milhões de cruzados e no cofre das décimas ou dos dízimos, contavam-se trinta milhões. E longe de tranquilo, Portugal além do terremoto, enfrentou a invasão das forças armadas de Espanha e França (Pacto de Família), a sedição do Porto, a poderosa Companhia de Jesus (jesuítas) e promoveu o desenvolvimento naval, incentivou a produção e realizou a reforma administrativa do Reino (Emílio Aquiles Monteverde, Manual Enciclopédico para Portugal e Brasil, Lello & Irmão, Porto, 1952).

 

Tendo conselheiros em seus filhos e no Posto Ipiranga, o Brasil retrocede na economia, nas condições de vida da sociedade, dos habitantes, afunda no conceito das nações e faz propaganda de um remédio que, pelo que noticia a UOL, tem participação acionária em sua fabricação do Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump.

 

Não me venham com acusação de ditatorial, fascista ou totalitário. É a democracia que não existe no Brasil. Reduzir a democracia ao voto periódico é um sinal de tacanhez intelectual ou medo do povo. E aí estão todos partidos e políticos que não usam suas estruturas formais para instruir o povo brasileiro a entender nossa realidade política, social, econômica, histórica. Os caminhos que as diversas filosofias apontam, os instrumentos para reivindicações e para participação direta na administração, na decisão dos governantes.

 

Os déspotas não usavam seu poder apenas para gozar a boa vida. Eles tinham orgulho de seus encargos e se viam responsáveis pelo País e pelo povo. E tinham a humildade e a consciência de seus limites; buscavam os mais sábios para esclarecê-los. Quem procuram hoje os dirigentes? Cúmplices, aliados nos saques, nas campanhas de ódio e destruição. Não se trata de opor civis a militares, isto é um erro e uma desculpa de demagogos e ignorantes, senão indigentes intelectuais.

 

O Presidente Ernesto Geisel, na entrevista que concedeu a Maria Celina D’Araujo e Celso Castro (Ernesto Geisel, FGV, RJ, 1997), afirmou: “Diziam que eram contra a corrupção e contra subversão. Como seria possível construir o Brasil com a divisa de ir contra? Era preciso construir, e não só destruir. O problema da corrupção subsiste até hoje. Se o comunismo está sendo combatido desde 1935 e nós estamos além de 1970 e ele está cada vez mais forte, cada vez mais poderoso, então o método de luta que estamos adotando não serve, está errado! A solução atual de matar, de esfolar, de brigar não serve”.

 

O sistema financeiro invadiu toda estrutura do Governo, domina a comunicação social, em todas as formas, e, como é de seu modo de atuação, corrompe onde não convence.

 

Por essa razão se busca qualificar de ideológico e militar um conselho que é, antes de tudo, subordinado à banca, às finanças nacionais e internacionais, aos interesses geopolíticos do sistema anglo-americano-israelense, e a grupos marginais cariocas.

 

Os que saem à rua, em plena pandemia, para cantar loas aos governantes, cabe a frase do dadaísta francês, o poeta Jacques Rigaut (1898-1929): “Tentem deter um homem que viaja com seu suicídio pendurado na lapela”.

 

Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado.

 

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