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Desafio sob a Torre Eiffel

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O desafio eleitoral, na França, para as eleições presidenciais mais incertas das últimas décadas, está prestes a começar, e, aliás, pela primeira vez as dois desafiadores do atual presidente, Macron, são duas mulheres que, apesar de estarem na antípoda do espectro político francês, enfrentarão obstáculos comuns na disputa presidencial.

Coincidentemente ou não, as duas desafiantes escolheram o mesmo dia para lançar seu desafio, domingo, 12 de setembro. Mas quem são elas, essas temerárias?

Uma é a socialista, prefeita de Paris, Anne Hidalgo, enquanto a outra é a candidata do Rassemblement National, Marine Le Pen, que, para participar da disputa, deixou o cargo de presidente do partido fundado por seu pai.

Falando no teatro romano de Frejus (o antigo Fórum Iulii), Marine Le Pen declarou que a próxima competição eleitoral representará uma “escolha de civilização. A escolha seria entre a dissolução de um país submerso pela imigração e o reencontro saudável do país em torno da ideia de Nação”.

A outra frente, a de Anne Hidalgo, é representada pela campeã da esquerda “liberal”, ao estilo inglês, do municipalismo e da afirmação de um novo modelo, que se baseia na inclusão e na sustentabilidade, que já aplicou, em Paris, da qual é prefeita, desde 2014.

Mas esse fato a deixará sujeita a pesadas acusações, pelo fato de ser uma figura política excessivamente parisiense e, portanto, incapaz de captar os pedidos vindos da nação e longe da dialética política que nos últimos anos levou ao colapso aquele partido socialista, que pertencia a Mitterrand, devido à incompetência do presidente Hollande.

Por isso, Hidalgo escolheu como teatro, para lançar a sua candidatura, a capital da Normandia, Rouen, região que é protagonista de uma política de reconversão industrial, ligada à transição ecológica, tema caro aos socialistas.

As duas candidatas, embora representem posições políticas antitéticas, evitam confrontos diretos por dois motivos: um de caráter programático, por parte de Le Pen, e outro de caráter ideológico, pela Hidalgo. A razão é simples. A primeira já assistiu, nas eleições presidenciais anteriores, ao esvaziamento de sua base eleitoral de direita pelos republicanos, aliados de Macron, por falta de propostas alternativas válidas em seu programa para a França.

Por sua vez, Hidalgo, para consolidar o inesperado resultado do Partido Socialista nas recentes eleições locais, não terá de poupar esforços para voltar a conquistar uma grande fatia do eleitorado operário e da França periférica. A partir dessas premissas surge a convergência dos interesses das duas desafiadoras contra Macron.

Na verdade, em suas críticas a Macron, o julgamento básico é essencialmente convergente: a presidência do ex-ministro da Economia da era Hollande foi divisionista. Uma divisão interpretada, por Hidalgo, em termos econômicos e sociais, como a administradora socialista pôde vivenciar na capital, com o surgimento do movimento dos Coletes Amarelos e o mal-estar por eles manifestado; enquanto, para Le Pen, a oposição se deve mais a uma forma de identidade, de acordo com a fratura entre o centro e a periferia.

Ambas acreditam que a divisão entre o centro e a periferia se deve, sobretudo, ao caráter autorreferencial da presidência de Macron. Marine Le Pen denuncia a insegurança nas periferias das cidades francesas e, ao mesmo tempo, a crescente marginalização dos menos favorecidos. Hidalgo lamenta a retirada das camadas mais pobres da população dos planos de transição econômica e energética.

Ambas expressam uma opinião comum: o presidente Macron, eleito em 2017, representou a síntese da tradição republicana francesa, que não conseguiu consertar, mas, ao contrário, aumentou as fraturas internas da nação com sua atitude vacilante, acompanhada de excessiva atenção para uma restrita elite econômica e política.

Essas críticas substanciais e claramente visíveis servem a Le Pen para consolidar seu domínio sobre a base, enquanto permitem que Hidalgo se livre do rótulo de “parisiense”. Além disso, refletem um sentimento comum entre a população francesa sobre a presidência do ex-funcionário do alto escalão.

Em conclusão, Hidalgo e Le Pen, pelo menos a médio prazo, têm um objetivo comum, ou melhor, um adversário comum: o atual presidente, Emanuel Macron. Por isso, tendo em vista as eleições de 2022, as duas desafiantes, mulheres líderes na política francesa, evitaram lançar ataques diretos, apesar das hostilidades mútuas.

 

(*) Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália) e editor da revista Italiamiga.

Publicado, originalmente, no site do Monitor Mercantil

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