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“Deixem a mangueira em pé”: Quilombolas defendem seus territórios simbólicos no norte do Tocantins

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“Eles querem matar esta árvore por que não conseguem me matar, é a mim que eles querem, mas não sabem eles, que um ataque a ela é um ataque a mim, esses galhos caídos, esse tronco ferido me dói, sinto também na minha pele a dor desse pé de manga…”

 

Lucelina Gomes dos Santos,

matriarca do Quilombo Dona Juscelina,

24 de julho de 2020

 

As comunidades tradicionais brasileiras são vítimas diretas das ondas neofacistas e neopentecostais que tem se dissipado pelo país e boa parte do mundo. A Comunidade Remanescente de Quilombo Dona Juscelina localizada na cidade de Muricilândia no Tocantins com suas 236 famílias quilombolas, tem sido alvo constante desses ataques aos seus costumes, seu território, seus símbolos, sua cultura, exatamente por não seguir nem acatar os padrões e desmandos considerados pelas “ondas” citadas.

 

Nos últimos dois anos o Quilombo tem enfrentado conflitos internos e externos que põem em risco sua existência. Embates pela manutenção da identidade e em defesa das heranças ancestrais afro-brasileiras são travados cotidianamente no espaço urbano enquanto os quilombolas lutam também pela titulação do seu território original assegurada pelo Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias e regulamentado pelo Decreto nº 4.887 de 20 de novembro de 2003, território esse expropriado na década de 1960, por pecuaristas e grileiros de terra. Os remanescentes consideram que a desterritorialização e reterritorialização que passaram estão por completo ligadas aos acontecimentos sofridos nos últimos anos, em razão do enfraquecimento das tradições e das relações com elementos culturais, naturais e simbólicos que servem de sustentáculo para a comunidade.

 

No último dia vinte e quatro (24) de julho véspera do dia Nacional de Tereza de Benguela e dia Internacional da Mulher Latino-americana e Caribenha, ocorreu no quilombo a tentativa de derrubada de uma árvore sexagenária, uma mangueira, que é um dos mais importantes símbolos locais assim como o muricizeiro, árvore que deu-se o nome do município, isso por se tratar de uma planta nativa da região, ter presença abundante em todo o território ancestral e está intimamente associada com o dialogismo entre as gerações (crianças; jovens; adultos; idosos.), a data do ocorrido, véspera do 25 de Julho, torna evidente que o ataque foi também direcionado a força matriarcal regente, representada principalmente por Lucelina Gomes dos Santos, a matriarca e presidente de honra da comunidade.

 

“Eles querem matar esta árvore por que não conseguem me matar, é a mim que eles querem, mas não sabem eles, que um ataque a ela é um ataque a mim, esses galhos caídos, esse tronco ferido me dói, sinto também na minha pele a dor desse pé de manga…”, a angustia dessa potente liderança comunitária na altura dos seus 90 anos de idade é palpável, mas sua resistência é permanente e seus frutos visíveis, a tentativa de derrubar a mangueira foi impedida por uma moradora, que como inúmeras mulheres, “Marias ou não” são guiadas pelo legado e força de dona Juscelina, e se impondo, não permitem que  no caso em questão os perseguidores saiam vitoriosos.

 

No período em que vivemos é do conhecimento de todos que os responsáveis pelas incessantes tentativas de destruição do patrimônio material e imaterial ancestral são direcionados pelo fanatismo político e religioso em vigência na atual conjuntura política nacional, seus feitos absurdos como a derrubada desnecessária de uma mangueira plantada em um terreno pertencente ao Quilombo Dona Juscelina faz parte de um suposto projeto utópico de progresso, que em ênfase é violento e amparado pelo patriarcado machista, pelo monopolista latifúndio agrário que derriba árvores, destrói florestas, polui rios e contamina o solo, pelo genocídio das populações originárias e tradicionais, pelos investimentos na desconstrução identitária e cultural que enfraquece e dedica-se a exterminar as minorias, que organizadas subsistem.

 

O progresso, nas realidades quilombolas só é considerado como tal se tiver assegurado nos saberes e fazeres passados, pois para os mesmos, “não se existe futuro sem passado”, o Quilombo Dona Juscelina em detrimento disso possui um Conselho de Griôs composto por pessoas de mais idade e conhecimentos tradicionais encarregados da transmissão dessas teorias e práticas para os mais jovens, para que por eles haja a manutenção contínua da perpetuação histórica dos seus povos. O Conselho de Griôs é também uma vítima diária de ataques desses grupos disseminadores de ódio e devastação, mas munido pelos ensinamentos antepassados permanece firme em seu dever de preservação dos elementos culturais e ambientais.

 

Dona Juscelina em resposta aos seus perseguidores e algozes do bem estar e segurança da sua comunidade manifesta: “Eles tão vendo esse pé de manga como atraso, mas nós vemos ele como esperança, ah, é só um pé de manga falam, e eu respondo que eles não devem estar vendo o mesmo que nós estamos vendo…”, a matriarca explica que a árvore não é e nem será um empecilho na construção da tão almejada sede do quilombo, mas sim somará com a beleza e imponência que representará o espaço.

 

O movimento popular contrário ao abate da mangueira e aliado ao que é defendido por dona Juscelina, espera dos demais quilombolas e sociedade civil o respeito e consideração pela cultura e relação com a natureza, aqui representada pela importante e frondosa árvore, que nessa estação está florida e os frutos começam a crescer, e pedem pra que juntos vislumbrem o quanto será extraordinário a realização de rodas de conversas e/ou reuniões debaixo da considerável copa que possui a mangueira, acompanhadas pela degustação das mais deliciosas mangas, e por fim validem a não necessidade de destruir para construir.

 

Quilombo Dona Juscelina, 30 de julho de 2020

 

 

 

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