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De pai para filho

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Quando o atual prefeito de São Luís passar o comando do palácio La Ravardière, sede da prefeitura, ao seu sucessor em 2021, talvez tenhamos uma fato inédita na história da nossa capital. Pela primeira vez um político, que surgiu por ser filho de outro político, terá como sucessor alguém na mesma condição: um outro filho de político (pelos menos 4 pré-candidatos se enquadram nessa condição). Essa possibilidade parte da visão dos analistas que apontam os pré-candidatos mais bem posicionados até aqui. É possível até que haja um recorde de candidatos “herdeiros” nesse próximo pleito municipal.

 

Do ponto de vista ideológico, existem “herdeiros”, pré-candidatos, pra todo gosto. Tem da direita, do centro e, pra surpresa geral, tem na esquerda de novo. Exatamente a “Ilha Rebelde”, assim chamada por ter posicionamentos tradicionalmente independentes nas eleições, parece estar adotando uma inclinação pelo “voto familiar”. É preciso reconhecer que a condição de “herdeiro” político não torna ninguém pior, em princípio, em relação aos demais candidatos, mas também, e com toda certeza, não o torna melhor. É bom que se diga que estão apenas exercendo o seu direito democrático de se candidatar. Mas fica uma sensação estranha. Fica parecendo que tem alguma coisa errada no nosso sistema político local.

 

O que reforça a estranheza é que, além de serem herdeiros diretos do capital político familiar, há também uma forte vinculação a outros políticos que já detêm mandato em outras esferas de poder. E não é por conta de questões de partido, não. Os pré-candidatos são anunciados antes mesmo de qualquer evento partidário. Estão vinculados a candidatos interessados no jogo das eleições lá de 2022. Apesar de bem posicionados, os herdeiros não possuem “luz própria”. São “reflexos” de outras imagens. Constituem a “linhagem dos Júniores”. Tem até uns dois que não são filhos de políticos, mas têm padrinho tão forte que acabam compondo o mesmo grupo dos demais “herdeiros”.

 

A intenção não é apontar o dedo pra ninguém. A ideia aqui não é combater nenhum “príncipe” em especial, mas lançar um olhar sobre o “princípio”. Podemos até, neste momento, considerar que todos os “herdeiros” são bem-intencionados e tal. Mas a chegada da esquerda ao poder estadual, no aspecto da democratização do acesso ao poder, soa decepcionante, na medida em que se multiplica na própria esquerda essa situação de candidaturas ungidas por laços genéticos. Em sua maioria, os candidatos não apresentam vinculação com entidades da sociedade, não tem militância social e apresentam um perfil muito próximo exatamente do que a esquerda tem por hábito combater. Um estereótipo que lembra muito a sociedade patriarcal que se busca tanto superar.

 

Existem outros candidatos que se apresentam fora do universo parental e que se destacam pelo esforço próprio de sua trajetória de vida. Até agora parecem não ter condições de mudar o rumo da eleição. Mas podem se tornar uma opção de voto mais diversificado, mais independente, digamos assim. O que não é garantia de êxito em uma gestão municipal, diga-se de passagem. Surge um boato forte sobre um “consórcio” de candidatos, mas isso já merece um outro texto. O certo é que a democracia que parece algo tão complexo, às vezes repete características típicas das oligarquias. Nos mostra com tranquilidade que o processo de construção do poder é algo que, em muitas ocasiões, simplesmente vai se eternizando e se renovando no sentido de que a política, na direita ou na esquerda, mantenha sempre garantido um espaço cativo e reservado de pai para filho.

 

Steffano Silva Nunes é médico veterinário e estudante de Economia – steffanonunes@gmail.com

 

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