A ascensão de uma nova direita no mundo, alimentada de ódio, da paranoia e da frustração dos outros, com forte atuação nas plataformas digitais, é o tema do livro Os Engenheiros do Caos, de Giuliano Da Empoli. “No mundo de Donald Trump, Boris Johnson, Viktor Orban, Matteo Salvini e Jair Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento e esse já é eclipsado por outro, numa espiral infinita que catalisa a tensão e satura a cena midiática”, afirma o autor

 

 

 

 

O bonde de Bolsonaro parece ter se descarrilado do comboio que tomou de assalto o metiê da política tradicional, tendo a cólera como o potente combustível para incendiar vários países e conquistar seguidores ao redor do mundo. Suas diárias jogadas para se manter no poder já não têm convencido mais o país, como ocorreu com Donald Trump à frente da Casa Branca. Parece que algo deu errado na estratégia, que também favoreceu os premiers do Reino Unido (Boris Johnson), da Hungria (Viktor Orban) e o da Itália (Matteo Salvini), orientados por spin doctors (marqueteiros) e cientistas do Big Data, os criadores do novo jogo político, segundo relata Giuliano da Empoli, em Os Engenheiros do Caos.

 

 

“No mundo de D. Trump, B. Johnson, V. Orban, M. Salvini e J. Bolsonaro, cada novo dia nasce com uma gafe, uma polêmica, a eclosão de um escândalo. Mal se está comentando um evento e esse já é eclipsado por outro, numa espiral infinita que catalisa a tensão e satura a cena midiática”, explica o cientista político franco-italiano, diretor do centro de pesquisa “Volta”, em Milão, Itália, Giuliano Da Empoli.

 

 

Lançado no Brasil pela Editora Vestígio, às vésperas da chegada da Covid 19, Os Engenheiros do Caos revela, desde as origens, os bastidores do trabalho empreendido por esses estrategistas do populismo, para nós, ilustres desconhecidos, à exceção de Steve Bannon. Segundo Da Empoli, o engenho incendiário da nova ordem política europeia e norte-americana tem os refugiados e outros segmentos populares como bode expiatório.  Conhecemos bem os ingredientes: repulsa por esses grupos e o algoritmo do Facebook para espalhar a epidemia do ódio, desde o plano virtual ao real. Da Empoli expõe um autêntico retrato da democracia mundial em vertigem.

 

 

As referências bibliográficas de sua pesquisa preenchem várias páginas do livro e atestam o olhar vigilante dos autores europeus para esse fenômeno do populismo digital, que eclodiu no planeta a partir dos anos 2000.  Em 2013, políticos de partidos tradicionais não poderiam imaginar que a besta, alimentada de ódio, da paranoia e da frustração dos outros, estava já muito próxima. O diretor da campanha vitoriosa do Brexit, Dominic Cummings, deu o seguinte recado em seu blog: “Se você quer fazer progresso em política contrate físicos e não experts ou comunicadores”.

 

 

Reações em série

 

 

Sobre o tema da imigração, que desperta fortes emoções como medo e ódio, a direita populista acabou se unindo com a esquerda populista, como ocorreu no Reino Unido, por ocasião do Brexitna Itália, quando Matteo Salvini decretou o fechamento dos portos e na campanha do “Fora!”, promovida contra ciganos; na Hungria, com a violenta perseguição por meio de mentirosas acusações de Vicktor Orban e seus marqueteiros a grupos de refugiados e de judeus; na Alemanha, com o movimento De Pé (Aufstehen); na França, com os explosivos protestos do movimento dos Coletes por todo o país. Isso, para dar cabo “da boa consciência da esquerda sobre a cultura do acolhimento, que ameaça a homogeneidade e a identidade cultural dos povos europeus”, segundo relata Da Empoli no livro.

 

 

 

 

 

Considerando os Estados Unidos nesse caldeirão imperial fervente, e também o Brasil, o denominador comum é o front de sua extrema direita contra a “ditadura do politicamente correto” e dos direitos das minorias que varrem os valores do conservadorismo de lá e de cá. É, já, amplamente notório, para nós também, que Trump e Bolsonaro usufruíram do mesmo expediente pela mão de Steve Bannon, auxiliado por videogamers da internet profunda e por muitos outros colaboradores, a fim de conquistarem e de se manterem no poder.

 

 

No Brasil

 

No contexto dos países analisados por Da Empoli,Jair Bolsonaro, o bobo da corte e do mau-gosto, o colonozinho medíocre e histérico, abaixo da linha de crítica, mas muito bonzinho para os planos mega-ambiciosos do Grande Irmão, configura-se apenas como capacho da casinha do cão da Casa Branca para o trânsito dos interesses do grande capital. Mesmo assim, o autor de Os Engenheiros do Caos dedica uma página à estratégia populista que deu a ele o trono do Planalto.

 

 

Da Empoli aponta para o drible da campanha promovida pelos comunicadores desse “Messias” no facebook, comprando milhares de contatos para bombardear usuários de whatsApp com fake news: “Assim foi que os brasileiros assistiram nos últimos anos a ascensão de uma nova geração de extrema direita, que soube explorar o algoritmo da plataforma para multiplicar sua visibilidade e seu faturamento”.

 

 

 

 

O autor cita o caso dos vídeos conspiracionistas pró-Bolsonaro no youtube para a difusão do vírus da Zika, a partir de 2015, contra os esforços médicos para conter sua expansão; outros vídeos, incriminando as vacinas pela propagação do vírus, levando muitas famílias a recusar os procedimentos imprescindíveis para a sobrevivência dos filhos. Também aqueles vídeos que denunciavam um suposto complô de professores de esquerda para espalhar o comunismo nas escolas e, ainda, os do Movimento Brasil Livre, fundado durante o impeachment de Dilma Rousseff por jovens como Kim Kataguiri e outros seis garotos também postulantes a cadeiras no Parlamento.

 

 

Essa gente que ajudou com empenho na construção do antipetismo “levou um ex-militar de extrema direita, também muito popular nas redes, à presidência da República”, conta Da Empoli, e prossegue: “O vídeo dos apoiadores de Jair Bolsonaro reunidos em Brasília no dia de sua posse e que gritavam alegremente os nomes do Facebook e do YouTube, rodou o mundo”.

 

 

Os trolls

 

 

A mídia tradicional e o cidadão brasileiro caem, tal e qual caíram os norte-americanos com Trump, em todas as provocações grosseiras e nos incontáveis disparates do beligerante imitador deste chefe do troll. No caso de Trump, ironiza o cientista político, “os jornalistas americanos fazem publicidade e dão credibilidade para um bilionário nova-iorquino ser o candidato anti-establishment”. E arremata: “Sem os gritos cotidianos e escandalizados dos comentaristas políticos e os intelectuais vestidos de preto, seria difícil para Trump credenciar-se como porta-estandarte da raiva dos abandonados contra o sistema”. O beliscão, aliás, cai muito bem também aqui, para nós do ramo, quanto ao nosso caso.

 

 

Para Milo Yannopoulos, parceiro de Bannon na campanha, Trump é um troll. “E os trolls, por trás da superfície da tela, são os únicos que dizem a verdade, revelando a nudez do poder, como os bufões da Idade Média”. Nesse ponto, cá pra nós, Bolsonaro mais se assemelha a um trolado que ao conceito de troll, tamanho o mau-gosto do paupérrimo diabo para interpretar o papel diante de sua patética, ou melhor, inadjetivável, plateia. Já Bannon, observando as forças poderosas e pulsantes sob a superfície das redes, pela frustração e fúria dos que se sentem excluídos da sociedade americana, percebeu ter achado o rumo certo. Foi assim que Trump, ostentando a mensagem “deixe-me ser o porta-voz de sua ira”, chegou à Casa Branca.

 

 

Epicentro do fenômeno

 

 

Ao expor com riqueza de informações e texto primoroso a situação típica de cada país nessa perigosa e inquietante plataforma digital, o autor de Os Engenheiros do Caos não deixa pontas soltas e ainda traz a revelação, dada por Steve Bannon, de que o epicentro dessa revolução é a Itália. Em 2000, o marqueteiro Gianroberto Casaleggio contratou o comediante Beppe Grillo para o papel de primeiro avatar de carne e osso de um partido algoritmo. Nascia então o Movimento 5 Estrelas, coletando dados de eleitores e  suas demandas, livre de base ideológica. Casaleggio, aliás, foi o real criador e primeiro disseminador das fake news, ainda em 2007.

 

 

 

 

Giuliano da Empoli protesta: “Quando o muro de Berlim caiu, a Itália se transformou no Vale do Silício do populismo. A operação Mãos Limpas já representava uma abordagem populista: os pequenos juízes contra as elites corruptas. A Itália antecipou em mais de 20 anos a grande revolta contra o establishment, que hoje agita os hemisférios Norte e o Sul, mas seu caso passou despercebido, no âmbito dos alarmes sobre a ascensão da direita e do retorno do fascismo”.

 

 

A esquerda brasileira, portanto, que abra o olho e leia esse livro com atenção e responsabilidade – e antes das eleições de 2022 –, se não quer, ela própria, ver-se descarrilada da História em seus novos e desafiadores tempos políticos.

 

Publicado originalmente no site Brasiliários