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Da matança em Aracruz às suásticas no colégio do Rio

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Tão poucos dias se passaram do caso de Aracruz, no Espírito Santo, e o caso já sumiu do noticiário, superado em parte pelas excitações da Copa do Mundo, mas também por outras notícias do mesmo gênero, em outras partes do mundo e mesmo no Brasil.

 

Em Aracruz, lembrando, um adolescente de 16 anos atacou duas escolas, armado da pistola e revólver do pai e ostentando na roupa uma suástica disfarçada, matou três professoras e uma aluna e feriu mais onze pessoas (supõe-se que adultos e crianças, mas não surgiram novos registros a respeito de sua identidade e eventual recuperação e alta).

 

Uma semana e um dia depois, a coluna de Ancelmo Gois, no Globo, revelava a ocorrência de nova manifestação desse neonazismo que passou a ser habitual no Brasil. 

 

No centenário Colégio Cruzeiro, no centro do Rio, considerado um padrão de qualidade no ensino privado na cidade, uma suástica apareceu desenhada na carteira ocupada por um aluno judeu, como uma espécie de aviso ou de bullying clandestino e por isso ainda mais covarde.

 

Imediatamente a direção do colégio promoveu uma reunião com os alunos, para explicações e exibição de documentários sobre o caráter perverso e criminoso das ideias nazistas

 

Dias depois dessa reunião o que aconteceu foi outra suástica aparecer desenhada na mesma carteira do mesmo aluno judeu. Se a primeira suástica pudesse ser explicada como uma piada infanto-juvenil de maldade inconsciente, a segunda revelava uma premeditação perigosa e ameaçadora.

 

Como no caso de Aracruz, uma pergunta fica posta desde logo, supondo-se que um colega tenha sido o responsável pelos dois desenhos: terá havido alguma influência paterna no comportamento do desenhista da suástica?  

 

Essa pergunta é necessária porque o mundo adulto masculino anda infestado de apelos de extrema-direita – e ainda agora nos Estados Unidos se soube que o ex-Presidente Donald Trump recebeu para jantar em seu bunker na Flórida o rapper Kanye West e o ativista Nick Fuentes, ambos furiosamente antissemitas e promotores da onda neonazista e negacionista que alimenta as correntes da direita norte-americana dominadas por Trump. (A referência a “mundo adulto masculino” é proposital e envergonhada, porque não temos registro de manifestações semelhantes no mundo adulto feminino.)

 

A revelação da ocorrência desse jantar praticamente coincidiu com a minuciosa reportagem de página inteira do Washington Post sobre as conexões de Steve Bannon, o ex-estrategista de Trump, com as ações golpistas em curso no Brasil. 

 

Essas informações levam a uma pergunta que em outras circunstâncias seria paranoica: a ação golpista no Brasil terá como subproduto ações como a suástica no Colégio Cruzeiro? 

 

É difícil conceber que seja de geração espontânea tal floração de apelos e atos de extrema direita, como se o Brasil estivesse vivendo uma situação semelhante a aquela, na Alemanha, em seguida à Primeira Guerra Mundial, que provocou o aparecimento e o êxito de Adolf Hitler e seus camisas pardas.

 

A derrota do bolsonarismo nada tem de semelhante sequer ao grande crescimento do integralismo no Brasil na década de 1930: esta aconteceu como reação ao levante insurrecional de 1935, promovido pela Aliança Nacional Libertadora, e também aos avanços da Revolução de 30. 

 

Agora temos a derrota de um Presidente que só foi eleito, em 2018, porque uma bem-sucedida operação de lawfare de origem estrangeira pôs na cadeia o candidato que derrotaria qualquer adversário. No plano local, portanto, não temos qualquer situação que explique o que está acontecendo.  

 

No plano internacional, sim, é que pode existir a explicação, pois o poder dominante do neoliberalismo está sob contestação – o poder do neoliberalismo e, num contexto mais amplo, o poder do patriarcado. 

 

 

(*) Por José Augusto Ribeiro – jornalista e escritor. Publicou a trilogia A Era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

 

 

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