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Curso online: Ética e filosofia política no tempo do agora

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Numa iniciativa coletiva de professores/as recém-doutores, o laboratório Filosofias do tempo do agora, formado por pesquisadores/as vinculados/as a universidades no Rio de Janeiro, oferece um curso de ética e filosofia política cuja renda será destinada a apoiar o projeto Maré de Sabores. E também remunerar os/as professores/as sem vínculo empregatício e sem vínculo como bolsistas de agências de fomento.

 

As aulas serão ministradas por professores/as doutores/as, que, em virtude do desmantelamento e da falta de investimento no ensino público, ainda não tiveram oportunidade de se estabelecer profissionalmente: são pessoas recém-saídas do doutorado que, em virtude da pandemia de coronavírus, com as universidades fechadas e sem possibilidade de realização de concurso e seleções, encontram dificuldades de inserção no mercado de trabalho, apesar da alta qualidade de suas formações em suas áreas de especialidade.

 

O curso também se propõe a demonstrar como a universidade pública, na área de Humanidades, tem produzido recursos humanos capazes de nos fazer refletir sobre o que, inspirado em Walter Benjamin, é conhecido como o “tempo do agora”.

 

O curso conta com paridade de gênero entre os/as docentes e oferece 300 vagas. As aulas serão transmitidas pela plataforma Zoom às terças e quintas, de 19h às 21h30, a partir de 4 de junho, e cada aula abordará o pensamento de um/a filósofo/a para debater questões éticas e políticas que ajudem a refletir sobre o momento contemporâneo.

 

Metade dos recursos angariados será destinada ao projeto Maré de Sabores, onde mulheres da favela da Maré cozinham todos os dias 300 refeições para a população local desassistida. O projeto se torna ainda mais importante diante da conjuntura atual de precarização e de abandono em meio a uma crise que, se não é exclusivamente nossa, tem seus efeitos ainda mais acirrados em um país com desigualdades sociais extremas. Sabemos que o Estado, quando entra na Maré, entra armado e atirando, sendo incapaz de fornecer proteção ou assistência para uma ampla população de trabalhadores e trabalhadoras – bem como de seus filhos e netos – que mantém a cidade funcionando, a despeito de todo o descaso por parte dos governos e do poder estatal. Agradecemos a ONG Redes da Maré, responsável pelo projeto Maré de Sabores, pelo seu trabalho e por essa parceria conosco.

 

Um percentual dos recursos destinados a remunerar os professores/as será doado ao Fundo de Solidariedade e Apoio Mútuo do Centro Acadêmico dos alunos de Filosofia da UFRJ.

 

A proposta é inspirada na iniciativa da professora Rita de Cássia Oliveira (UFMA), organizadora de um curso abordando pensadoras feministas para arrecadar recursos para a Associação de Mulheres do Alto Solimões (Aminsa), em solidariedade aos indígenas da etnia Madijá Culina. A bem-sucedida experiência articulou um curso intitulado As pensadoras reunindo professoras de diversas instituições brasileiras.

 

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Serviço:


Título do curso
: Ética e filosofia política no tempo do agora

Coordenação acadêmica: Juliana de Moraes Monteiro (UFRJ/Faperj)
Coordenação executiva: Beatriz Zampieri (UFRJ
Horário: terças e quintas, 19h/21h30, horário de Brasília
Duração: de 4/6 a 9/7
Plataforma: zoom (gratuita para o/a aluno/a)
Valor: R$ 100
Vagas: 300
Inscrições: Abertas até 1/6.
Link para inscrição: bit.ly/tempodoagora

Calendário

 

4/6 – Aula de aberturaLuto, precariedade e interdependência em Judith Butler, Professora Doutora Carla Rodrigues (UFRJ/Faperj) e professora. mestra Tássia Áquila (UFRJ)

 

9/6 – Michel Foucault e Achille Mbembe: Direito de vida e de morte, da política como biopolítica à Necropolítica, Professora Doutora Viviane Bagiotto Botton (UERJ).

 

11/6 – Conferência: Um mundo coberto de alvos. Paulo Arantes (USP)

 

16/6 – Para uma crítica da violência: Walter Benjamin e o tempo do agora“, Professora Doutora Isabela Pinho (UFRJ)

 

18/6 – Estado de exceção como paradigma de governo em Giorgio Agamben, Professor Doutor Pedro Oliveira (UFRJ)

 

23/6 – Zizek: Do Occupy ao coronavírus – Professor Doutor Gabriel Lisboa (UFRJ)

 

25/6- A formação da subjetividade e suas consequências éticas e políticas em Simone de Beauvoir – Professor Doutor Nathan Menezes (UFRJ)

 

30/6 – Jacques Rancière e a linguagem do dissenso, Professor Doutor Victor Galdino (UFRJ)

 

2/7 – Silvia Federici: mulheres, trabalho doméstico, capitalismo – quantas formas de queimar?, Professora Doutora Danielle Magalhães (UFRJ)

 

7/7 – Derrida e a Universidade: estar no mundo que tentamos pensar, Professor Doutor Guilherme Cadaval (UFRJ)

 

9/7 – Aula de encerramento: Lélia Gonzalez, leitora de Freud e Lacan: A psicanálise como uma ética antirracista, Professora Doutora Juliana de Moraes Monteiro (UFRJ/Faperj)

 

Programa

 

Quinta-feira, 4/6

 

Luto, precariedade e interdependência em Judith Butler, Carla Rodrigues e Tássia Áquila

 

Nesta aula, vamos apresentar o tema do luto, na filosofia política de Judith Butler, e suas articulações com noções de enquadramento, precariedade e interdependência. A partir da noção de enquadramento que qualifica as vidas que são vivíveis distinguindo das não inteligíveis – sequer são consideradas vidas perdidas – inscreve a condição de enlutável de uma dada vida. Essa marca revela uma distribuição desigual do luto público e coloca como demanda ética a universalização do direito ao luto como mecanismo político de afirmar o valor de toda vida, porque toda vida está exposta à morte. Nesse sentido, privilegiaremos elementos na filosofia de Butler que possam nos colocar em debate com dilemas presentes no cenário atual em que a pandemia da COVID-19 expõe uma vulnerabilidade global e, ao mesmo tempo, desvela outros processos mais vulneráveis de vidas mais marcadas precariamente.

 

Carla Rodrigues é professora de ética no Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora do programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ e bolsista de produtividade da Faperj. É coordenadora do laboratório Filosofias do tempo do agora.

 

Tássia Áquila é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre com ênfase em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ). Trabalhou com questões relativas à juventude e favela, bem com a análise da produção da homologia entre corporalidade e território.

 

Terça-feira, 9/6

 

Michel Foucault e Achille Mbembe: Direito de vida e de morte, da política como biopolítica à Necropolítica

 

Nossa aula tem por objeto trabalhar o desenvolvimento do conceito de biopolítica elaborado por Michel Foucault e que aparece no último capítulo de seu livro “História da Sexualidade I, A Vontade de Saber”. A ênfase da nossa abordagem são as circunstâncias textuais e contextuais que levará a tal elaboração, em especial no que diz respeito aos dispositivos de vigilância e controle dos corpos e que culminam numa política da vida. Tomando como ponto de partida os estudos genealógicos de Foucault sobre o panoptismo enquanto paradigmático de um novo modo de soberania política, que se caracteriza como pastoral, o conceito de biopolítica aparece como ferramenta de inteligibilidade possível para pensarmos as políticas de vida e da morte no nosso tempo de agora e nos leva à reformulação desta categoria por Achille Mbembe com a proposta de política como Necropolítica. O referido capítulo do livro de Foucault e o texto das conferências do livro “Necropolítica” de Mbembe são a bibliografia essencial para esta aula.

 

Viviane Bagiotto Botton é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e é doutora em Filosofia pela Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM), onde trabalho as relações entre corpo e da subjetividade na obra de Michel Foucault. Já trabalhou como professora em diferentes universidades e escolas nacionais e internacionais e atualmente é pesquisadora de pós-doutorado em Filosofia na UERJ, onde desenvolve um estudo sobre a Histeria enquanto diagnóstico psiquiátrico feminino e os modos como operou no Brasil no contexto de uma psiquiatria nacional.

 

Quinta-feira, 11/6

 

“Um mundo coberto de alvos”, conferência Paulo Arantes (USP)

 

Terça-feira, 16/6

 

Para uma crítica da violência: Walter Benjamin e o tempo do agora

 

Nossa aula partirá do ensaio “Para uma crítica da violência” (1921) de Walter Benjamin para refletir sobre os limites do Estado na tarefa de conter/monopolizar sua violência constitutiva. Como o texto de Benjamin pode nos ajudar a refletir sobre a democracia brasileira contemporânea? Essa é a questão norteadora de nossa aula-debate.

 

Isabela Pinho é graduada e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi pesquisadora visitante na Universidade de Munique (LMU) e nos Arquivos Walter Benjamin em Berlim. Coorganizou o livro AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de Giorgio Agamben (Ape’ku, 2020). Oferece cursos de extensão de Filosofia e Literatura na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

 

Quinta-feira, 18/6

 

Estado de exceção como paradigma de governo em Giorgio Agamben

 

Nossa aula tem por objeto o conceito de estado de exceção a partir do capítulo “O estado de exceção como paradigma de governo” (Estado de exceção, 2003), do filósofo italiano Giorgio Agamben. Nosso principal objetivo será refletir sobre como a exceção se torna a regra nos Estados democráticos de direito e, assim, tornar inteligível nosso momento atual.

 

Pedro Oliveira é graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É mestre em Filosofia pela UFF e doutor em Filosofia pela UFRJ. É autor de Mais além da lei: direito e messianismo em Giorgio Agamben (Ed. Apek’u, 2020, prelo) e advogado.

 

Terça-feira, 23/6

 

Do Occupy ao coronavírus. A aula partirá de uma apresentação comparativa das análises feitas por Slavoj Žižek da crise financeira e dos movimentos populares contestatórios do começo da década, e dos efeitos sociopolíticos do coronavírus. Tal apresentação nos servirá de base para pensarmos, a partir da obra do filósofo esloveno, a crise que assola nosso mundo e as possibilidades que dela podem surgir.

 

Gabriel Ponciano é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Quinta-feira, 25/6

 

A formação da subjetividade e suas consequências éticas e políticas em Simone de Beauvoir. O curso pretende apresentar a concepção de Simone de Beauvoir sobre a constituição do sujeito e as implicações éticas e políticas que daí decorrem, dando destaque às características da ambiguidade, da interdependência e ao vínculo de enraizamento que a subjetividade possui com seu contexto social. A partir destas considerações proponho discutir como o horizonte teórico oferecido por Beauvoir pode ser mobilizado para pensarmos a atualidade.

 

Nathan Menezes Amarante Teixeira é graduado e mestre em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

Terça-feira, 30/6

 

Jacques Rancière e a linguagem do dissenso. “A essência da política é a manifestação do dissenso, como presença de dois mundos em um” (Dez teses sobre política). A partir dessa formulação, pretendo apresentar três conceitos de J. Rancière — dissenso, política e partilha do sensível — e seus modos de apropriação e uso, assim como sua pertinência para o presente. Para isso, serão feitas algumas elaborações sobre o que chamo de “linguagem do dissenso” enquanto forma possível de uso filosófico da linguagem, e também sobre seus efeitos pretendidos e o modo de seu funcionamento, usando como exemplo o próprio texto de Rancière. Em geral, a ideia é mostrar um tipo de discurso filosófico que opera como jogo imagético e visa afetar o modo como as coisas aparecem para nós em dado momento, de maneira que não podemos compreendê-lo a partir de sua aparência descritiva e dos compromissos com o “verdadeiro” que outros discursos filosóficos normalmente carregam. Dessa forma, podemos pensar os usos do que seria uma “filosofia de Rancière” para fins de intervenção teórica.

 

Victor Galdino é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela UFRJ, formado em psicanálise pelo Corpo Freudiano – Escola de Psicanálise, e trabalha com Filosofia do Imaginário, Metafilosofia, Filosofia Política e Filosofia da Cultura. Seus textos mais recentes são “Por uma ontologia crítica do imaginário” (Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea), “Aquilombamento Imaginal / Realismo Esclarecido” (a ser publicado em livro sobre filosofia brasileira pela Editora Filosófica Politeia) e “Três faíscas para uma imaginação política mais forte” (a ser publicado na coletânea “À imaginação revolucionária” da GLAC edições). Escreveu uma trilogia sobre quarentena e normalidade com Claudio Medeiros (publicada no Outras Palavras) e também escreve textos em seu blog pessoal na plataforma Medium.

 

Quinta-feira, 2/7

 

Silvia Federici: Mulheres, trabalho doméstico, capitalismo – quantas formas de queimar? A primeira vítima de covid-19 no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que contraiu o vírus de sua patroa – moradora do Leblon, bairro abastado da zona sul carioca –, que acabara de voltar da Itália. O trabalho da filósofa italiana radicada nos Estados Unidos, Silvia Federici, autora, entre outros, de Calibã e a bruxa, se mostra como uma importante referência para pensarmos a situação do trabalho doméstico nos dias de hoje e em como o capitalismo se desenvolveu às custas do trabalho doméstico feminino não remunerado. Partindo de Marx e, ao mesmo tempo, apontando os limites do marxismo, a filósofa vai a momentos históricos, como a Inquisição e ao recente movimento argentino “NiUnaMenos”, nos fazendo refletir sobre os arraigados pilares de misoginia que estruturam o nosso mundo até hoje e ainda fazem as mulheres queimar. Federici nos mostra que a base do capitalismo também são as cinzas de milhões de mulheres

 

Danielle Magalhães é doutora em Teoria Literária pela UFRJ e formada em História pela UFF. Pesquisa a poesia brasileira contemporânea escrita por mulheres em interface com a filosofia e a política. Em fevereiro de 2020, defendeu a tese intitulada “Ir ao que queima: no verso, o amor, no verso, o horror – Ensaios sobre o verso e sobre alguma poesia brasileira contemporânea”. É autora do livro de poemas Quando o céu cair, publicado pela Editora 7Letras em 2018.

 

Terça-feira, 7/7

 

Derrida e a Universidade: estar no mundo que tentamos pensar. A aula de Guilherme Cadaval vai apresentar o pensamento do filósofo franco-argelino Jacques Derrida em torno da Universidade a partir de uma conferência proferida por ele na Universidade de Stanford, intitulada “A universidade sem condição”. Para tanto, pretendemos apresentar brevemente o termo desconstrução, pelo qual ficou conhecido o pensamento derridiano, a fim de pensar a Universidade como lugar de resistência crítica, porém ao mesmo tempo mais do que crítica, uma vez que, mantendo um compromisso incondicional com a verdade, podendo dizer tudo, a Universidade tem a possibilidade e a tarefa de questionar o seu próprio lugar, o seu próprio fundamento.

 

Guilherme Cadaval é formado em Filosofia pelo IFCS-UFRJ, possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Tem interesse nos estudos de Filosofia Francesa Contemporânea, especialmente as obras de Jacques Derrida, Georges Bataille e Maurice Blanchot. Tem um livro publicado, “Escrever a mágoa: um cruzamento entre Nietzsche e Derrida”, e um artigo publicado na coletânea “Rosas e pensamentos outros”.

 

Quinta-feira, 9/7

 

Lélia Gonzalez, leitora de Freud e Lacan: a psicanálise como uma ética antirracista.

 

A aula discute como a filósofa brasileira Lélia Gonzalez mobiliza conceitos da psicanálise para reler questões raciais e sexistas no contexto brasileiro.  Através de uma perspectiva decolonial, investigaremos a complexidade de expressões criadas e empregadas pela autora tais como “racismo por denegação”; “mãe-preta como sujeito suposto saber”; “amefricanidade”; “pretuguês” e o “negro como S1 da cultura brasileira”, apontando como elas são alicerçadas pelos conceitos de Freud e Lacan.  O arcabouço teórico da psicanálise permite que Lélia vire do avesso os pilares fundadores da sociedade brasileira: a miscigenação como uma relação cordial entre brancos e negros, a ideologia do branqueamento e o mito da democracia racial. A partir disso, proponho pensar a ética da psicanálise como um laço social antirracista.

 

Juliana de Moraes Monteiro é doutora em filosofia pela PUC-Rio (2019), onde defendeu a tese “O que a Esfinge ensina a Édipo: os limites da interpretação, o demoníaco e o infamiliar na arte contemporânea”. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado no programa de pós-graduação em filosofia da UFRJ, como bolsista nota 10 da Faperj. É co-autora de Trauma/arte contemporânea brasileira (Editora Circuito, 2020, no prelo) e co-organizadora do livro AGAMBiarra: escritos sobre a filosofia de Giorgio Agamben, publicado pela Editora Ape´ku em 2020.

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